O governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, afirmou hoje que a Europa deve promover o desenvolvimento dos países a sul do Mediterrâneo «ou então vai ter sempre muitas dificuldades».

«Quando se tem uma sociedade que não tem perspetivas de emprego, ou se promove o desenvolvimento no sul do Mediterrâneo e se encontram meios para os trazer para um nível aceitável de consumo e de desenvolvimento que interrompa a pressão sobre a Europa ou, então, a Europa vai ter sempre muitas dificuldades em conviver com esta situação», afirmou Carlos Costa, hoje numa conferência em Lisboa, organizada pela Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE).

O governador do Banco de Portugal respondia a uma interpelação de Manuel Clemente, cardeal patriarca de Lisboa, que participava na mesma conferência.

«Julgo que caímos em algum eurocentrismo na forma de compreender sociedades que estão em estádios diferentes dos nossos. Não sou capaz de imaginar - e com todo o respeito ¿ como lê alguém de matriz islâmica a realidade social europeia porque eles trabalham com códigos e com descodificadores diferentes dos nossos», disse Carlos Costa.

Para o governador do banco central, a Europa deve compreender o outro e deve fazer-se compreender perante o outro: «Temos de os compreender antropologicamente tal como temos de os chamar a compreender-nos antropologicamente (...) Viver num mundo ocidentalizado com os valores de partida cria contradições sociais muito fortes», defendeu.

À margem do encontro, Manuel Clemente disse aos jornalistas que «resolver os problemas das economias é resolver os problemas humanos», defendendo que a recuperação da economia europeia passa também pelos acontecimentos na margem sul do Mediterrâneo.

«Temos de conhecer as pessoas, que não pensam todas da mesma maneira e que não têm o mesmo entendimento sobre a família, por exemplo. Sem este conhecimento mútuo, não vamos longe porque estamos a deixar de fora o fator principal que é o humano», afirmou Manuel Clemente.