As imparidades registadas pela Parvalorem em 2012 foram consideradas insuficientes pela Deloitte e apesar de terem sido reforçadas nos dois anos seguintes a auditora continua ter dúvidas se ainda são suficientes.

No relatório e contas relativo a 2012, na parte referente à certificação e auditoria, a Deloitte considera que as imparidades da rubrica ‘outras contas a receber’, que tinha a 31 de dezembro de 2012 um saldo líquido positivo de 1,594 milhões de euros, eram insuficientes.

Segundo a Deloitte, aquela rubrica “inclui um conjunto de devedores cujas dívidas à sociedade se encontram garantidas por ativos, nomeadamente terrenos", e considera que tendo em conta a situação do país “não se perspetiva no curto prazo a realização ou conclusão de projetos imobiliários que estavam subjacentes às avaliações disponíveis desses ativos”, o que os fazia valer menos.

“Por este motivo, em 31 de dezembro de 2012 estavam em geral sobreavaliadas o que conduz a uma insuficiência de imparidade reconhecida nas demonstrações financeiras a essa data para aqueles devedores”, lê-se no parecer assinado por José António Mendes Garcia Barata, que diz, no entanto, que não tinha informação que permitisse “quantificar as necessidades adicionais de imparidades”.


Já nas contas referentes a 2013, a Deloitte sublinha que foi realizado um reforço das perdas por imparidades de 312,470 milhões de euros.

Ainda assim, a auditora mantém dúvidas quanto à suficiência das imparidades e explica novamente que a rubrica ‘outras contas a receber’ e ‘adiantamentos a fornecedores’ continua a ter dívidas garantidos por ativos imobiliários de que não perspetiva a sua conclusão, mas refere desta vez que não dispõe de “informação suficiente que permita concluir sobre a suficiência das perdas por imparidades”.

O mesmo reparo seria repetido pelo auditor José António Mendes Garcia Barata nas contas de 2014, ano em que a empresa voltou a reforçar imparidades em 90,216 milhões de euros, com este a usar exatamente a formulação de 2013 para dizer que a informação não permitia “concluir sobre a suficiência das perdas por imparidades” registadas nesse exercício.

A Antena 1 noticiou esta terça-feira que, quando a ministra das Finanças soube, em fevereiro de 2013, que as contas da empresa pública responsável pelos ativos de má qualidade do ex-Banco Português de Negócios (BPN) apresentavam perdas de 577 milhões de euros com créditos em riscos de incumprimento, o que iria agravar o défice orçamental, pediu à administração da Parvalorem que mexesse nas contas para que estas revelassem um cenário de perdas mais otimista do que o real, reduzindo os prejuízos reconhecidos em 2012.

Esta terça-feira, em declarações aos jornalistas, Maria Luís Albuquerque admitiu ter questionado a Parvalorem sobre as expetativas “demasiado pessimistas” sobre os prejuízos de 2012, mas rejeitou qualquer espécie de manipulação de contas.

“Fiz a pergunta [se as perdas registadas nas contas de 2012] podiam ser mais otimistas porque me pareceu que a expetativa estava excessivamente negativa quanto àquilo que seria a evolução da economia e da capacidade de efetivamente os créditos serem satisfeitos”, afirmou numa deslocação à Moita, distrito de Setúbal, em que é cabeça-de-lista pela coligação PSD/CDS-PP.


O Conselho de Administração da Parvalorem, tutelado pelo ministério das Finanças, também recusou hoje a manipulação de contas, realçando que o fecho de 2012 “não foi mais do que um normal exercício” dos serviços de auditoria, contabilidade “e sob a exclusiva responsabilidade do Conselho de Administração”.