3,3 mil milhões de euros. Ninguém sabe – ou ninguém diz -  onde está o dinheiro dos créditos que o BES fez ao BES Angola, que estavam cobertos por uma garantia do presidente angolano José Eduardo dos Santos. Uma garantia que caiu com a derrocada do Banco Espírito Santo, um dia depois do anúncio da resolução que o dividiu em dois: banco bom e banco mau. Essa é a versão oficial, que chegou a público no dia 4 de agosto, mas a TVI apurou que o Banco Nacional de Angola retirou a garantia dois dias antes da resolução, isto é, dia 1. Seja como for, isso fez com que o dinheiro injetado no Novo Banco (4,9 mil milhões) tivesse de ser muito superior ao previsto. O ex-presidente do BESA, Álvaro Sobrinho, vai ser ouvido na comissão de inquérito ao BES esta quinta-feira.

A inquirição precedente, ainda esta quarta-feira, de Pedro Mosqueira do Amaral, ex-administrador do Grupo Espírito Santo, voltou a trazer o assunto à tona:

«Se Álvaro Sobrinho é presidente do BESA, ele deve saber onde estão os créditos». «Eu também gostaria de saber»


O ex-presidente do BESA foi afastado em 2012, mas foi ele quem liderou o banco durante o período em que foram contraídos os créditos. Sem garantias. Sem nomes de clientes identificados. Num total de 5,7 mil milhões de dólares (mais de 4,5 mil milhões de euros). Sendo que 3,3 mil milhões estavam cobertos pela garantia estatal deviam ter entrado no capital do Novo Banco, mas desapareceram.

Este mistério é um dos que suscita mais dúvidas aos deputados. A quem foi emprestado o dinheiro? Para quê? Como é que se perdeu o rasto? Há uma famosa lista de créditos já referida pelos deputados e que os inquiridos a quem foi perguntado não desmentiram existir. Pedro Mosqueira do Amaral diz que nunca a viu:

«Nunca vi a lista, não sei responder onde estão os créditos. E, provavelmente ninguém, ou muito poucas pessoas, devem conseguir responder a isto»


Álvaro Sobrinho poderá ser a chave. Afinal, é o ex-presidente do BESA e foi escolhido por Ricardo Salgado em 2001 para liderar a estrutura do banco em Angola. Mas ele próprio não deixou de apontar o dedo ao seu eleito, dando conta, na sua audição, a 9 de dezembro, que recebeu «informações estranhas» sobre a equipa liderada por Sobrinho, responsabilizando-o pela «situação pavorosa» em que o BESA se encontrava. Como se sabe agora, o endividamento era grande e a base de depósitos fraca.



Mas o ex-patrão do BES escudou-se no «sigilo duríssimo» de Angola para dizer que soube da situação apenas pela imprensa. No entanto, tem sido unâmime, entre os inquiridos, que a gestão do grupo era «centralizada» em Ricardo Salgado e que tudo passava por ele. Também o BESA.

Amílcar Morais Pires, ex-administrador do BES, com o pelouro do BESA a partir de 2012, tido como braço-direito de Salgado: «Álvaro Sobrinho reportava a Ricardo Salgado»

 José Manuel Espírito Santo Silva, ex-administrador do GES, dos mais velhos na hierarquia da família: « O BESA era um assunto que era tratado pelo Dr. Ricardo Salgado e pelo Dr. Álvaro Sobrinho e era sabido no banco». «Quero que fique aqui bem assente que inclusivamente uma vez numa comissão executiva um colega disse 'é um assunto que eu não trato mais, as relações com o BESA, porque o presidente do BESA disse que tratava apenas com Ricardo Salgado'. E isso é verdade».

José Maria Ricciardi, presidente do BESI: « Não existiam mecanismos de controlo de risco no BES Angola». «Estava em roda livre». Sobrinho «não falava com absolutamente com ninguém que não fosse o Ricardo Salgado» 

Pedro Queiroz Pereira, ex-acionista da ES Control e dono da Semapa: «Quando se fala em GES fala-se numa pessoa, Ricardo Salgado. Nada nunca se fez naquele grupo, sem essa pessoa dar o OK. Nada se fazia sem ele». «Acho impossível que Ricardo Salgado não soubesse de nada».

 
Na sua audição, Salgado quis colocar a tónica na garantia que cobria os créditos. Sobrinho e a sua gestão era uma coisa. Acabou por ser afastado. A garantia, em si, era outra. «Não havia dúvida nenhuma» sobre ela, disse. Tinha sido dada pelo Estado angolano. No seu entender, ela só caiu por culpa da resolução que o Banco de Portugal decidiu levar avante: «Colocar a garantia do presidente da República de Angola no banco mau, como produto tóxico, é no mínimo uma enorme ofensa diplomática», atirou.

Na audição desta quarta-feira, de Pedro Mosqueira do Amaral houve, no entanto, outra revelação. O seu pai, Mário Mosqueira do Amaral, facelido em março de 2014, foi até 2008 responsável pela área internacional do Banco Espírito Santo. Mas não controlava nem Angola, nem a Líbia.

«Nem Líbia nem Angola eram tratados na área internacional». Ou seja, «parece que havia outra área internacional. Nem eu, nem o meu pai estivemos relacionados». «Por várias vezes pusemos em questão o Dr. Álvaro Sobrinho. Ele não dava informação a ninguém . Só ao Dr. Ricardo Salgado»

Pedro Mosqueira do Amaral explicou que foi com investidores alemães a Angola, mas «não quis voltar lá», porque diz que foi «recebido como um estrangeiro» pelo BESA. 

Neste dia 18 de dezembro, algumas destas questões/versões poderão - ou não - ficar mais esclarecidas. A passagem de culpas entre os protagonistas pelo colapso do Grupo Espírito Santo tem sido constante, desde o início das audições. José Manuel Espírito Santo Silva foi o único - e logo quando tomou a palavra pela primeira vez, na sua audição - a pedir «desculpa» aos clientes, investidores e colaboradores do BES por tudo aquilo que acontrceu.