Vítor Bento liderou o BES durante dois meses e, pelo meio, viu o banco a ser dividido em dois. O ex-administrador garantiu esta terça-feira, na comissão de inquérito sobre o banco e o Grupo Espírito Santo, no Parlamento, que nunca fez «uma pergunta assertiva de sim ou não» à ministra das Finanças, sobre a possibilidade da via da ajuda do Estado para o BES, em vez da medida de resolução que culminou no banco bom - o Novo Banco - e no banco mau. Ainda assim, admitiu que a hipótese foi colocada em cima da mesa e saiu dessa reunião de 30 de julho «convicto» de que seria «difícil» enveredar pela capitalização pública, se a privada - que era o seu plano A - falhasse. Revelou, também, que questionou Maria Luís Albuquerque sobre a disponibilidade para um «financiamento provisório», apenas. Mas a ministra também colocou de parte.

«O Governo entendia que uma declaração dessa natureza poderia ser contraproducente e afastar investidores privados». «Não mostrou disponibilidade»


E para pedir mesmo uma capitalização pública teria de estar «mandatado» pelos órgãos do banco. Nessa altura, não estava. E mesmo que estivesse, deu a entender que seria pouco provável obter luz verde: «Não vale a pena desencadear procedimentos se as respostas não forem as que se esperam ou vice-versa». «Ninguém me disse que me dava garantia à linha de crédito. Nem perguntei. Para tirar a dúvida, teria de a ter». «Eu nunca tive uma resposta 'não'. Nunca fiz uma pergunta assertiva de sim ou não», afirmou. Dada a «reiterada indisponibilidade» do Governo o pedido formal nunca chegou a existir. 

OS PRINCIPAIS TÓPICOS DA AUDIÇÃO DE VÍTOR BENTO

A 31 de julho, um dia depois da reunião, a linha de capitalização pública ainda «estava disponível», segundo o Banco de Portugal. Mas não houve tempo para encetar qualquer outro procedimento. 

O seu plano continuava a ser o plano A, da recapitalização privada, mas ter de concretizá-la «em apenas dois dias» era «física e materialmente impossível de cumprir». Disse-o por várias vezes, durante a audição.  Até hoje não sabe se não continuavam a existir privados disponíveis, se tivesse havido mais tempo para aplicar essa solução. Nunca ninguém lhe comunicou qualquer desistência de interesse.  A ameaça de retirada do estatuto de contraparte foi dada pelo governador do Banco de Portugal como argumento para optar pela resolução, porque, caso contrário, o BES teria de devolver 10 mil milhões de euros em créditos ao BCE. A ameaça e o tempo dado para que ela não tivesse efeitos causaram surpresa a Vítor Bento: 

«Não tenho ideia da autenticidade dos resultados em si implicassem a perda de estatuto de contraparte». «Ninguém resolve de um dia para o outro» e quando há insuficiência de capital, «normalmente é dado prazo uma para que essa insuficiência seja resolvida».


Recuou no tempo, para ilustrar: «Houve bancos na crise que funcionaram sem ter capitais totalmente preenchidos».

«Contradições» com a versão da ministra das Finanças

Os deputados da oposição viram «contradições» entre as declarações de Vítor Bento e de Maria Luís Albuquerque. Recordemos as palavras da ministra: «Nunca foi apresentada ao Governo qualquer pedido de recapitalização do banco (...) Governo nunca apresentou, aceitou ou recusou qualquer recapitalização pública do BES» / «Se a recapitalização pública tivesse sido pedida, teria sido equacionada, se ia ou não ser aprovada, não faço cenários hipotéticos. Mas nunca foi pedida».

Vítor Bento confirma que não houve qualquer «pedido formal». A deputada do BE, Mariana Mortágua, leu o pedido informal como «ante-pedido».

Mais à frente, na sequência de uma tentativa de clarificação do deputado do PSD, Carlos Abreu Amorim, que criticou a insistência nesse tipo de interpretações, Vítor Bento explicou:

«O facto de haver dois relatos não necessariamente coincidentes sobre o mesmo evento, não implica que sejam contraditórios. Pode haver interpretações e memórias diferentes daquilo que se diz. Acho que não houve nenhuma contradição. Do ponto de vista factual, não foi feito nenhum pedido formal» para que o Estado entrasse em cena.

«Naquele momento estávamos no plano da capitalização privada». «Se falhasse ou se tivéssemos indicações de que não seria possível concluir a capitalização privada, formalizaríamos eventualmente a capitalização pública». «Nunca nos foi dito nesses termos que estava excluída. Saí de lá com a ideia de que seria pouco provável. Mas isso é uma coisa que me responsabiliza a mim»

Quis deixar claro, por outro lado, que para ele «nunca houve dúvidas nenhumas» de que, havendo intervenção do Estado no BES, os acionistas teriam de ser chamados. Em primeiro lugar. «Antes de o Estado entrar, seriam sempre eles os primeiros. Seriam sempre afetados fosse qual fosse a situação».

Vítor Bento acabou por confessar que o «chão mínimo» com que poderia trabalhar foi-lhe retirado. Gostaria de ter tido tempo para que a recapitalização privada se efetivasse, tendo em conta o interesse de investidores. Um interesse sempre no condicional, não formalizado, é certo, mas essa era a solução que teria preferido.

«Confesso que nunca me passou pela cabeça ao longo do processo que a medida de resolução fosse o cenário alternativo». «Mas isso é um juízo meu. Nunca esteve presente na minha mente enquanto estive à frente do banco e quando aceitei [liderá-lo] que fosse um cenário alternativo»


Fez outra revelação: que não foi informado de nada, previamente. A sua administração «não foi envolvida» na escolha pela resolução. Mais uma estranheza que suscitou à deputada do Bloco de Esquerda, que o questionou de como é «possível o BdP intervir num banco sem falar com o CEO desse banco». Vítor Bento disse que compreendia a dúvida e a registava, mas limitou-se a responder: 

«Muito honestamente não foi falado comigo coisa nenhuma»


Ainda assim, admite que o Banco de Portugal, para ter optado pela via da resolução, é porque o fez consciente de que era a melhor decisão. E mais: «Compreendo que a decisão de intervir, do processo de resolução, é tomado por cima. Não me surpreendo não ter sido envolvido no processo. Se tivesse sido envolvido, aí sim, tinha obrigação de comunicar ao mercado», realçou.

Sobre o facto de não se ter apercebido, no dia 31 de julho, da queda abrupta queda das ações, a não ser quando lhe enviaram um SMS, explicou que o facto de os títulos desvalorizarem «era perfeitamente normal face aos resultados» e que a negociação, «quando recomeça, absorva essa queda».