A responsável da KPMG, Inês Viegas, quis deixar «claro», na comissão de inquérito parlamentar ao Banco Espírito Santo e ao Grupo Espírito Santo, que quando a PwC passou o testemunho das contas à nova auditora, em 2002, não mostrou «preocupação» sobre as contas da ESI, cuja ocultação de passivo, desde 2008, acabou por precipitar a queda do GES, que teve impacto para o desaparecimento do BES.

«Esse assunto não nos foi referido - a preocupação por parte das contas da ESI. O próprio Dr. José Alves [presidente da PwC] referiu que esse assunto, de certa maneira, tinha sido mitigado, no âmbito da auditoria. Referiu que o assunto tinha sido ultrapassado»

Na sua audição, a 20 de janeiro, o presidente da PwC garantiu aos deputados que passou «toda a informação» à KPMG em 2002, quando a nova auditora começou a trabalhar para o BES, incluindo «as reservas para aceitação do cliente». Não foi assim, segundo a responsável da KPMG, que auditou, anos depois, as contas da ESI, a pedido do Banco de Portugal, na reta final de 2013, início de 2014:

Essa carta referida por José Alves «não expressa nenhuma reserva, nenhum tema, nenhum relatório» «A resposta sobre se havia alguma reserva foi que não. Até a própria PwC tinha em vista manter-se como auditora da parte não financeira. Em 2008, concorre, mas foi atribuída à Erns't & Young»

Inês Viegas frisou que não quer «entrar em nenhum conflito» e que tem «todo o respeito para com os colegas da PwC», mas «não nos foi desaconselhado em nenhuma das três reuniões» que tiveram, não auditar as contas do BES. «Tínhamos indicações positivas e não negativas», reforçou, respondendo a Miguel Tiago (PCP). O deputado lembrou, até, que «a PwC até se esqueceu de enviar o relatório do final de 2001» à comissão de inquérito. Um relatório que a responsável da KPMG garante ter tido conhecimento apenas pela imprensa. 

«Numa versão draft [rascunho], mas «a letra era tão pequenina, que nem dava para ler». «Esforcei-me. Tentei. Mas não consegui» «Fiquei com clara sensação», pela intervenção de José Alves. «que esses problemas que poderiam estar expressos nesse relatório não eram tão relevantes», para além do que nos foi transmitido nas reuniões com a PwC 


Ora, segundo o presidente dessa auditora, já em 2001, 13 anos antes do colapso, existiam «dificuldades» em obter informações sobre as contas da ESI, com os seus pedidos a serem muitas vezes reencaminhados para Ricardo Salgado. Com a KPMG, não foi assim:  «Em qualquer auditoria, seja ao BES seja a qualquer cliente, há sempre [problemas]. Posso dizer que, no âmbito do nosso trabalho, nunca houve nenhum impeditivo de acesso à informação que nos levasse a chegar a um extremo», disse, por sua vez, Inês Viegas. 

A não existência de contas consolidadas e auditadas ao GES também foi outro motivo invocado para a PwC não querer continuar a prestar auditoria ao banco, na altura. E a concessão de créditos pelo BES levantou a «suspeita» de que poderiam estar em causa investimentos do próprio banco.

Hoje, a responsável da KPMG dá conta de que essa «preocupação» sobre as contas da ESI não foi sublinhada pela antiga auditora.

De qualquer modo, assinalou, uma auditora é «responsável pela sua opinião sobre as contas», não pelas contas em si, que são, sim, alegou, da responsabilidade do conselho de administração. «O que falhou não foram os auditores, claramente».

«Existia dívida, isso é claro», mas em meio ano agudizou-se

Já quanto à exposição do BES ao GES, a responsável da KPMG explicou que o banco «nem tinha praticamente exposição», a 31 de dezembro de 2013. Era coisa pouca:

«Havia, de facto, dívida e isso é claro, consta dos relatórios de contas, quer da ESFG, quer do BES. Havia dívida do BES perante algumas entidades do GES, mas era residual. Nem havia à ESI, só pela Resources, mas uma coisa mesmo pequena.

Já a Espírito Santo Financial Group, a holding financeira do GES, tinha uma «exposição direta através do Panamá, coberta através das contas da RioForte, sendo que existiam demonstrações financeiras que davam algum conforto à exposição existente», acrescentou.

«A 31 de dezembro de 2013 - e a situação foi vista por várias partes, desde BdP, KPMG, BES e ESFG - na altura, ninguém negava a existência do tal risco reputacional e fiduciário, mas para 30 de junho, com especial relevo nos últimos meses do semestre há um aumento e transformação do risco que passa a ser risco de exposição direta»

Portanto, em meio ano, tudo se complicou. «A KPMG estava a acompanhar o processo da colocação do papel comercial junto dos clientes - a aperceber-se que isso estava a acontecer - foi quando tivemos uma reunião com os responsáveis do BES, para percebermos evolução da ESI ao longo de 2013, nos é transmitido que passivo da ESI ascendia a determinado montante, o que comparando com ano anterior, era montante significativo».  Isso causou receio à auditora, que transmitiu a sua «preocupação ao Banco de Portugal».

«Até 30 de julho a situação mudou, e bastante.  A própria postura do BES, a 30 de junho de 2014, não foi por acaso que constituiu as provisões para a ESI que considerava necessárias. Surgem outros fatores. Não são de ignorar. Já no princípio de julho, indicações sobre incumprimentos da ESI e da exposição da ESFG. O nosso entender, e do BdP, foi que estávamos perante um cenário completamente diferente»

Recorde-se que o presidente da KPMG Portugal, Sikander Sattar, já foi ouvido nesta comissão de inquérito. E voltou, à porta fechada, para prestar o seu contributo enquanto presidente da KPMG Angola