O ex-administrador do Banco Espírito Santo e do Novo Banco, José Honório, confirmou esta quinta-feira, na comissão de inquérito parlamentar ao BES, a versão de Ricardo Salgado sobre os contactos «ao mais alto nível» com membros do Governo e, inclusive, com as autoridades europeias, sobre o risco de desmoronamento do GES e do BES. Contactos mantidos ainda em maio de 2014, ou seja, dois meses antes do colapso.

O Grupo Espírito Santo era «o maior grupo empresarial português confrontava-se com passivo de 6,7 mil milhões de euros». «Qualquer solução que passasse por não deixar cair desordenadamente precisaria de ser negociada. Não podia sequer imaginar que desmoronamento fosse indiferente às autoridades do país e da Comissão Europeia».

Por isso, informou o Governo e Banco de Portugal, para que estas entidades, «na posse de informação relevante», pudessem agir. O GES, recorda, «era o maior grupo empresarial português» e estava a braços com passivo de 6,7 mil milhões de euros, o que representava 4,5% do PIB do país. Daí que era preciso agir «ao mais alto nível».

«Qualquer eventual solução precisaria de tempo para ser discutida e contratualizada. Era urgente tomar iniciativa de desencadear início deste processo e fazer contactos, inclusive, ao nível do conhecimento do presidente da comissão europeia». O Governo foi contactado «ao mais alto nível», bem como «o presidente da Comissão Europeia, governador do Banco de Portugal e principais credores» 


Aos deputados, José Honório fez questão de detalhar os encontros que teve: «Uma reunião com primeiro-ministro, uma reunião com o vice-primeiro-ministro, uma reunião com a ministra das Finanças, uma reunião com a comissão europeia». Garante, no entanto, que não esteve presente em qualquer encontro com o Presidente da República, Cavaco Silva, que Ricardo Salgado garante ter tido, por duas vezes, em carta enviada precisamente esta quinta-feira aos deputados da comissão de inquérito. 

Salgado chegou a apresentar um plano de recuperação. «Manifestei a minha preocupação com impacto no país, famílias e economia nacional, bem como impacto na reputação de Portugal», numa altura em que se estava a processar a saída limpa do programa com a troika, indicou ainda. 

«Nas reuniões em que estive presente, Ricardo Salgado tentou perceber que tipo de ajuda institucional podia ter. Leia-se, tempo». Mas também se Governo podia «sensibilizar» CGD para conceder financiamento às entidades que viessem a adquirir ativos financeiros à RioForte


Não era, alega Honório, financiamento ao grupo, desde que essas entidades passassem no crivo da análise ao financiamento. Questionado por Cecília Meireles, admitiu não fazer ideia se existiam mesmo interessados.

O argumento do Governo para recusar foi, segundo o ex-administrador - e que está, de resto, em linha com o discurso oficial do executivo de Passos Coelho - que «não via que fosse assunto em que tivesse de se envolver, por [GES] ser um grupo privado».

Honório assistiu a alguns reuniões do conselho superior do GES. Afirma que não sabia que elas eram gravadas, até porque os telemóveis e os tablets ficavam à porta, intercetados por um segurança.

José Honório saiu dos CTT para o BES, em julho de 2014. Teve uma curta estadia no banco, duas semanas antes da resolução, integrando a equipa de Vítor Bento. Ficou depois da resolução decretada em agosto, mas só durante mais um mês. Saiu em setembro. Quando chegou ao BES, encontrou um cenário bem diferente daquele que lhe foi pintado pelo Banco de Portugal