A ESCOM, empresa do Grupo Espírito Santo que se dedica a negócios imobiliários e à extração de diamantes em Angola, estava prometida à  Sonangol, mas o negócio nunca chegou a concretizar-se, embora tenha sido pago um sinal. «Na prática, quem trouxe o negócio ao Dr. Ricardo Salgado fui eu», admitiu, esta terça-feira, no Parlamento, o presidente da ESCOM, alegando que devia ter recebido cerca de 30 milhões de euros (20% do sinal) e não viu o dinheiro, porque, na verdade, o que aconteceu foi um negócio fantasma.

​«Havia um interesse estratégico por parte da Sonangol em adquirir a ESCOM», começou por explicar Hélder Bataglia aos deputados da comissão de inquérito ao BES/GES. 

Interpelado, nesse momento, pela deputada do CDS-PP Cecília Meireles, explicou que foram pagos 82 milhões de euros de sinal (nesta comissão tem-se falado, até aqui, em 52 milhões). «Na prática, eu também devia ter recebido 30 milhões e não recebi», elucidou. Quem recebeu então? «Segundo disse o Dr. Álvaro Sobrinho [ex-presidente do BESA], foi a ES Resources», a holding do Grupo Espírito Santo responsável pelos investimentos não financeiros do grupo.

«O GES dizia que já tinha vendido a ESCOM, os angolanos diziam que não tinham comprado. E nós estávamos no meio»


Quem é que ficou «a arder»?

Helder Bataglia disse que Álvaro Sobrinho  tinha, de resto, «todo o interesse» em que a operação se concretizasse. Seria ele o dono da Newbrook, a empresa que serviu de intermediária no negócio, representando a Sonangol, e que o presidente da ESCOM pensa ter sido a empresa que pagou o dito sinal.

«A minha pergunta é quem ficou a arder», interrompeu a deputada do Bloco de Esquerda, Mariana Mortágua, questionando se foi o próprio Álvaro Sobrinho. «Não podia ser ele a ter ardido, porque ele não faz parte do negócio», respondeu Bataglia, «Mas ele era o dono da Newbrook», lembrou a deputada.

Há, por outro lado, alguma confusão sobre os números do tal sinal. Cecília Meireles citou um documento que indica que o sinal seria de 97 milhões de euros. Mesmo que fosse isso, os 20% a que Bataglia teria direito seriam menos de 20 milhões de euros e não 30 milhões, mas ele próprio revelou não ter certeza absoluta dos números. E nem se importou de não receber logo.

A certeza que havia na altura do negócio, em 2010, era «urgência» do GES em realizar a operação ainda nesse ano. Foi sempre Ricardo Salgado quem a conduziu:

«Em negócios desta dimensão, temos de ser muito disciplinados. O caminho que eu segui foi [deixar] a pessoa [Ricardo Salgado], o sócio maioritário, conduzir a situação. Sou de Angola, vivo em Angola. Apercebi-me que houve mau entendimento. Foi-me dito que se ia implementar a venda da ESCOM». 

Independentemente da venda, Bataglia manteria «uma posição de 10%» na ESCOM. «Uma das condições da venda foi sempre que eu ficasse como CEO da empresa. Sempre aceitei, pela empresa, por acreditar e para concretizar o projeto», explicou. Não se importou, até, de nem ter recebido logo a sua parte do sinal. «Com um sócio como o BES ou o GES que, durante cerca de 20 anos, conseguiu apoiar o financiamento e esta situação toda, para mim não era maioritário receber 20% do sinal».
 
Por que é que o negócio não chegou, então, a concretizar-se? «Imagino que o comprador tenha tido conhecimento das perdas no Luó [uma mina de prospeção de diamantes]». Algo que o presidente da ESCOM não conseguiu confirmar. Sobre que tipo de contrato estava em causa, garantiu que era «de compra e venda» e não de promessa de compra e venda.

A  ESCOM continua a existir e, supostamente, a ter como acionista maioritário o GES, através da ES Resources. A empresa tem 1200 postos de trabalho em Angola e passa por dificuldades. As contas estão «congeladas» desde a medida de resolução decretada pelo Banco de Portugal, que dividiu o BES em dois - num tóxico e noutro bom, o Novo Banco -, revelou ainda. Outro administrador, Luís Horta e Costa, ouvido já nesta comissão de inquérito, também deu conta de que não recebe salário precisamente desde agosto.

Na sua audição, o presidente da ESCOM deu ainda conta, aos deputados, que os 27 milhões de prémios recebidos por administradores desta empresa do Grupo Espírito Santo que se dedica a negócios imobiliários e à extração de diamantes em Angola, bem como por membros do conselho superior do Grupo Espírito Santo, foram mesmo «bónus» e garantiu que chegará às mãos dos deputados uma «lista exaustiva» sobre quem recebeu, quanto e o quê.  

Adiantou, também, que o  BES financiou «em 300 e muitos milhões de dólares» a ESCOM.  ​

Já sobre o BESA, de quem também foi administrador, tendo chegado mesmo a sócio do banco liderado por Álvaro Sobrinho até 2012, Bataglia teceu elogios ao ex-presidente do BES Angola, dizendo que  Sobrinho fez «um trabalho extraordinário» e que o próprio Ricardo Salgado o considerava um «grande banqueiro». Recorde-se que Salgado afastou-o dos comandos do banco por ter, alegadamente, encontrado uma «situação pavorosa».