1- A fuga do construtor

José Guilherme foi o ausente mais presente nesta comissão de inquérito. Os deputados queriam saber mais sobre os 14 milhões de euros oferecidos como «prenda» a Ricardo Salgado, mas o construtor garantiu que não podia deslocar-se de Angola a Portugal por razões profissionais e de saúde.
 
Ora, a compreensão foi total, até que José Guilherme foi apanhado pelo jornal Expresso: a 7 de março, foi ao barbeiro… na Amadora. Agora, o construtor arrisca ser acusado pelo crime de desobediência.
 
Recorde-se que foram esses 14 milhões descobertos numa offshore que obrigaram Salgado a corrigir a sua declaração de rendimentos e a aderir ao regime de amnistia fiscal. Questionado diretamente na sua audição, o ex-presidente do BES escudou-se no segredo de justiça e alegou que esta é uma questão do «foro pessoal».

2- As férias de Marcelo

O comentário de Marcelo Rebelo de Sousa no «Jornal das 8» de domingo da TVI não passou ao lado da comissão de inquérito e originou uma troca de palavras entre o ex-líder do PSD e José Maria Ricciardi.

Tudo começou quando Marcelo criticou a postura de Ricciardi na sua audição, afirmando ter «dúvidas» quanto à desresponsabilização do presidente do BESI e alegando que este banco de investimento avalizou as obrigações correspondentes ao papel comercial do GES.

José Maria Ricciardi não gostou e emitiu de imediato um comunicado no qual denunciava que o professor devia estar «muita mágoa» por «não poder continuar a passar as suas habituais e luxuosas férias de fim de ano na mansão à beira-mar no Brasil de Ricardo Salgado».

Na semana seguinte, no mesmo espaço de comentário, Marcelo Rebelo de Sousa confirmou a «mágoa» por não poder ir ao Brasil com os «amigos», mas assegurou que podia continuar a ir de férias, pagando a sua viagem, as refeições e um quarto de hotel. 

3- Os que não foram ouvidos

Os deputados começaram por chamar 138 pessoas, mas só 55 chegaram efetivamente a ser ouvidas. Os prazos são para cumprir e, à medida que a comissão ia avançando, os grupos parlamentares iam percebendo a necessidade de concentrar as audições nos intervenientes mais diretos.
 
Entre os que não foram ouvidos, destaque para as figuras ligadas à Política, como Durão Barroso, Pires de Lima, Paulo Macedo e Manuel Pinho, à Economia, como Nuno Amado, Artur Santos Silva e António Mexia, ou à família Espírito Santo, como António Ricciardi, Ricardo Abecassis e Maria do Carmo Espírito Santo Silva.
 
Talvez a dispensa mais misteriosa tenha sido a de José Luis Arnaut, o social-democrata que, na altura do colapso do BES, trabalhava na Goldman Sachs. Em janeiro, uma notícia do «Wall Street Journal» dava conta da intervenção de Arnaut nos empréstimos da Goldman Sachs, na ordem dos 680 milhões de euros, ao banco português, resultando em prejuízos para a instituição norte-americana. Uma explicação que ficou por dar.

4- As gravações do GES e os submarinos

Ainda a comissão de inquérito dava os primeiros passos quando o arquivamento do processo dos submarinos trouxe novas questões, já que a TVI decidiu começar a divulgar, no mesmo dia, as gravações do Conselho Superior do GES, as reuniões que juntavam os cinco ramos da família e onde se discutiam as estratégias e os negócios ao mais alto nível.

Mais de um ano antes deste arquivamento, em novembro de 2013, já Ricardo Salgado o antevia. O ex-presidente do BES explicou, nessa altura, aos restantes membros do Conselho Superior, a divisão da comissão que a ESCOM recebeu pelo negócio. Ficou a saber-se, então, que cinco milhões de euros foram distribuídos pelos cinco representantes da família.

Mais tarde, quando os responsáveis da ESCOM foram ouvidos na comissão, os deputados ficaram mais esclarecidos sobre a opção de «esconder» o total de 27 milhões num fundo no Panamá: fugir aos impostos.

5- Os advogados

Menos visíveis na transmissão da ARTV, mas quase sempre presentes. A grande maioria dos inquiridos na comissão de inquérito tinha, ao seu lado, um ou vários advogados, com quem ia tirando dúvidas antes de prestar esclarecimentos.

À frente, na mesa, o microfone alternava entre o sinal vermelho e o silêncio. Nalguns casos, era precisamente o advogado que o fazia: ligar, desligar, ligar, desligar, consoante o seu interesse. Os advogados estiveram muitas vezes munidos de papéis, de números e sobretudo de respostas cautelosas para não comprometer ninguém.

O curioso é que foram os intervenientes que se deslocaram ao Parlamento sem advogados que fizeram notícia. Foi o caso de Zeinal Bava, que apareceu sozinho, mas não sem a ajuda de um papel branco à sua frente, para o qual olhava quando precisava de ajuda antes de repetir: «Não sabia», «não podia saber», «não devia saber»…