Álvaro Sobrinho, que foi presidente do BESA a partir de 2001, a convite de Ricardo Salgado, foi por ele afastado em 2012. Invocou o sigilo bancário angolano para não responder a várias questões e, embora tenha dito que não ia entrar em «achincalhamentos pessoais», nas entrelinhas apontou o dedo a vários responsáveis do BES. 

Quanto à queda garantia estatal de Angola, que cobria 3,3 mil milhões de euros de créditos concedidos pelo BES ao BESA, culpou o Banco de Portugal, por ter elevado esse dinheiro a «total imparidade». Assumiu algumas responsabilidades próprias, embora tenha sigo vago na explicação.

O resumo da audição em 15 pontos:

1 - «Eu não sou vítima de nada». Prontificou-se a assumir «todas» as «responsabilidades» pelas suas decisões e que a estratégia do BESA podia ser questionada

2 - Sobre os créditos de 3,3 mil milhões de euros do BES ao BESA, cobertos pela garantia estatal angolana, revelou que esse dinheiro «não saiu de Portugal». «O crédito ficava no BESA, mas recebiam no BES esse dinheiro». Admitiu ser «culpado» por ter pedido os créditos, parte dos quais para financiar a dívida pública de Angola, mas quem autorizou foi o BES: «Não encostei uma pistola à cabeça de ninguém». 

3 - Já sobre a forma como o BESA distribuiu esse dinheiro, admitiu que possa ter sido «mal» atribuído. «Mas eu não sou responsável por tirarem dinheiro daqui e meterem em Angola». Aqui, revelou alguma contradição com o que tinha dito inicialmente, que o dinheiro nunca teria saído de Portugal
 
4- Essa linha de crédito começou a ser feita em 2008. Uma parte «eram obrigações». Outra, «uma grande parte», era para «apoio às exportações de empresas portuguesas». «Ele [Salgado], mais do que ninguém, sabe que o dinheiro estava lá [no BES]».
 
5 - «O BES não faz operações para perder». O BESA pagou juros «altíssimos» no âmbito dessa linha de crédito (700 milhões em três anos, «nove vezes mais do que uma empresa normal») e que foi isso que levou ao aumento do endividamento do banco
 
6 - Culpou o Banco de Portugal pela queda da garantia de Angola, no valor de 3,3 mil milhões de euros. «Houve uma decisão de elevar um crédito» que seria até 2018 a «total imparidade». É como se fosse um crédito à habitação que, de repente, teria de ser pago numa só vez, alegou

7 - Não sabe onde foi parar o dinheiro e lamenta não poder «dar conforto» aos portugueses sobre isso. Disse que o BESA servia como «multibanco» do BES

8 - «Se houve surpresa, então éramos todos incompetentes». Desmentiu Ricardo Salgado quanto à «surpresa» em relação à «situação pavorosa» [palavras do ex-presidente do BES] que encontrou no BESA. «Descobriu-se em dois meses o que não se descobriu em 12 anos?», ironizou

9 - Recusou a versão que dá conta de que queria falar apenas com Ricardo Salgado. Disse que reportava, sim, ao conselho de administração do BESA, que tinha como presidente o Dr. Ricardo Abecassis Espírito Santo. Com Salgado tinha um relacionamento «mensal», sobre o balancete. Mas o ex-presidente do BES «sabia» das operações de grande dimensão

10 - Disse que «não é verdade» que a carteira de crédito do BESA estivesse falida, mas admite que a maior parte do buraco se deveu ao crédito concedido a empresas angolanas. O problema «gigantesco» era no BES
 
11 - BES e Banco de Portugal sabiam de «toda» a carteira de crédito do BESA. Sobre as empresas que receberam os empréstimos, disse que as conhecia, mas escudou-se no sigilo bancário angolano para não as nomear
 
12 - «Fala-se do buraco, do buraco, do buraco no meu mandato... Apresentem-me números». O endividamento cresceu ainda mais desde que outros assumiram a liderança do BESA, em 2012 (Amílcar Morais Pires e Rui Guerra), denunciou

13 - Revelou alguma contradição sobre o sistema informático angolano. Primeiro, disse que era controlado por Portugal, mas deu a entender que estava em Angola.  Depois, que o sistema informático estava mesmo em Portugal
 
14 - Confirmou que a Escom, empresa detida pelo universo Espírito Santo, que estava prometida à Sonangol, não chegou a ser vendida e disse que a Espírito Santo Resources, holding do Grupo Espírito Santo, recebeu 52 milhões de euros de sinal, mas não sabe para onde foi o dinheiro.

15 - Sobre as alegadas comissões que terá recebido, disse que isso «é uma falsidade»
 
16 - Confirmou a prenda de 14 milhões de euros que o construtor José Guilherme deu a Ricardo Salgado e disse que foi ele próprio, enquanto ex-presidente do BESA, que autorizou a operação. Um procedimento comum quando estão envolvidas grandes transferências de dinheiro, alegou

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