José Honório foi convidado para integrar a administração de Vítor Bento, que sucedeu aos 23 anos de liderança de Ricardo Salgado, no BES. Um dia depois, o Banco de Portugal insistiu, pintando o cenário de um banco «saudável». Quando Honório lá chegou, encontrou outra coisa:
 

«A realidade com que me deparei no banco foi, todavia, completamente distinta daquela que me havia sido relatada e do que poderia imaginar»


Foi a 9 de julho de 2014 que Bento o abordou. «No dia seguinte, o convite foi secundado pelo governador do BdP, que insistiu» para que aceitasse, disse o ex-administrador, esta quinta-feira, na comissão de inquérito ao BES / GEs.

«A ideia transmitida era que o BES era um banco sustentável, sobretudo depois do aumento de capital. Aceitei convencido da viabilidade do banco».


Tal como Vítor Bento e Moreira Rato, também José Honório colocou «como condição» ser designado administrador, apenas depois da apresentação de contas do primeiro semestre. 

Acabou por ficar no BES mesmo depois da resolução decretada pelo Banco de Portugal, mas apenas durante mais um mês. Durante essa «curta estadia», deparou-se com um quadro «limitativo» para desempenho de funções. De qualquer modo, entende que a administração do Novo Banco fez um bom trabalho. Esteve «particularmente atenta» e a concessão de crédito, por exemplo, «decorreu com particular empenho». 

O convite precedente para liderar a RioForte

Antes de ter sido administrador do BES/Novo Banco foi abordado, por Ricardo Salgado e José Manuel Espírito Santo Silva, para assumir comissão executiva da RioForte. Nessa altura, «não tinha conhecimento sobre o universo RioForte». Pediu informação. «Forneceram-me o que consideraram relevante». Solicitou, também, relatório da auditoria da ESI, uma vez que era acionista e credor «muito importante» da RioForte.  

«Foi-me pedida permissão que se fizesse referência publica esse meu envolvimento» pela «credibilidade» que isso ia ter para a empresa, mas« continuava a não ter qualquer informação sobre ESI».

Quando teve conhecimento da dívida da Espírito Santo Internacional, que veio a revelar-se fatal para a derrocada do grupo e do banco, comunicou, «aos membros do conselho superior do GES», que «não estaria disponível para assumir presidência» da comissão executiva da RioForte.

«O projeto que me seria proposto não seria exequível», nem a alienação de ativos, nem o reembolso de dívida própria».

De qualquer modo, aceitou, depois, na qualidade de figura independente, aconselhar o BES na sua reestruturação. Um imperativo de consciência: para «minorar impactos adversos que aquela situação poderia gerar para a economia e país em geral».

«Insisti que não devia haver quaisquer dúvidas na minha independência». Honório chegou, mesmo, a recusar qualquer remuneração.

Na sua audição, o ex-administrador do BES confirmou, ainda, a versão de Ricardo Salgado sobre os contactos «ao mais alto nível» com o Governo e Comissão Europeia, ainda em maio de 2014, dois meses antes do colapso. E considera que as autoridades não podiam ter sido «indiferentes»