O controller financeiro do Grupo Espírito Santo foi ouvido esta quarta-feira, à porta fechada, na comissão de inquérito ao BES / GES. Inédito, até agora, decorridas 22 audições até esta última. José Castella, o homem do gravador nas reuniões do conselho superior do GES, tentou como pôde não falar sobre assuntos relevantes, sobretudo aqueles que estão em segredo de justiça. Apesar de tudo, segundo os deputados, foi melhor do que não ter vindo:

«Foi [uma audição] frutífera. Verificámos na parte final de que possivelmente poderia ter sido realizada à porta aberta, mas o nosso objetivo é a procura da verdade até às última consequências (...) Esta audição ainda não terminou, porque o problema que se põe é de duas jurisdições distintas, nacional e do Luxemburgo»

Esclarecimento dado aos jornalistas pelo presidente da comissão de inquérito, Fernando Negrão, que adiantou ainda que vai contactar as autoridades do Luxemburgo para saber se há algum entrave de, à porta fechada serem prestadas declarações sobre matérias que estão a ser investigadas lá. «Obtida essa informação poderemos o voltar a ouvir o dr. José Castella em audição», explicou.

«A grande maioria das perguntas que envolviam holdings e empresas ligadas ao GES, não foram respondidas, invocando-se o segredo de justiça e processos crime»


«Sobretudo no que toca à ESI», admitiu Fernando Negrão. Foi a ocultação de passivo da Espírito Santo Internacional que provocou a derrocada do grupo e, por arrasto, do BES. Mas também a ESCOM, Angola e a Eurofin foram assuntos que José Castella tentou contornar, segundo apuraram os jornalistas. 

Questionado sobre se não teria havido um «abuso» por parte do controller financeiro do GES em pedir uma audição à porta fechada, Fernando Negrão não iria tão longe nessa classificação: «Não diria que houve um abuso, uma vez que relativamente a situações de processos crime em Portugal foram prestadas declarações». 
Ou seja, «foi esclarecedor, embora de uma forma incompleta».

É por isso que, depois de contactadas as autoridades do Luxemburgo, será marcada nova audição. 

Já quanto à gestão centralizada no grupo Espírito Santo em Ricardo Salgado, mais uma vez as declarações de José Castella deixaram a desejar:

«Conseguiu ter-se indícios dessas relações e desses factos. Mas são meias respostas. Precisamos da outra metade e daí a necessidade de termos esse contacto com as autoridades [do Luxemburgo]»

Fernando Negrão reconheceu, ainda, que a audição esteve para não acontecer, precisamente por causa desses entradas, mas foi feito um «esforço suplementar» dos deputados em tentar obter as declarações possíveis à porta fechada. 

José Castella, que entrou para o grupo em 1986, confirmou ainda, segundo apurámos, que toda a gente sabia que as reuniões do conselho superior do GES estavam a ser gravadas. Uma versão que, a par de outras nesta comissão, contrariam a «surpresa» de Ricardo Salgado quando alegadamente soube disso. A TVI tem revelado as gravações desses encontros secretos, que dão conta da dinâmica de decisão e influência dos seus elementos nos destinos do grupo. 

O controller financeiro é apontado por muitos, incluindo José Manuel Espírito Santo Silva, um dos nomes fortes da família com presença no Conselho Superior do GES, como um dos responsáveis pelas contas do grupo, a par do contabilista Francisco Machado da Cruz (que será ouvido esta quinta-feira, nas mesmas condições, mas sem reserva de imagem como Castella pediu) e Ricardo Salgado.