Já está no mercado a oferta que a Associação Mutualista lançou sobre a Caixa Económica Montepio Geral para retirar do mercado as unidades de participação.

A TVI24 recupera aqui alguma informação que pode ser útil a quem detém estas unidades de participação. Quando a operação foi anunciada, no início de julho, os títulos dispararam 99,2% para 0,99 euros. Um valor próximo do máximo de 1,01 euros a que contavam em dezembro de 2013, quando foram colocados à cotação.

Ficam aqui as respostas que obtivemos nessa altura.

1- Porque é que subiu o valor dos títulos em bolsa?

“É sempre assim após uma Oferta Pública de Aquisição (OPA). As ações [neste caso unidade de participação] ajustam ao valor que é oferecido – 1 euros”, esclarece Pedro Oliveira operador de bolsa do Banco Carregosa.

2- Vão subir mais?

O mesmo operador acredita que não. “Devem ficar próximo do que está a ser oferecido. Esta amanhã havia mais gente a vender para poder retirar um ganho [que foi quase de 100%]. Agora o risco já é mais elevado mas também ninguém está a vender. Como o valor está muito próximo do que é oferecido, muitos preferem esperar para ver o que acontece até ao desfecho da operação”

3- O que é isto da OPA da Associação sobre as Unidades de Participação?

A Montepio Geral – Associação Mutualista anunciou à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) a intenção de comprar as unidades de participação representativas  do  Fundo  de  Participação  da  Caixa  Económica  Montepio  Geral (banco) conforme anunciado em http://web3.cmvm.pt/sdi/emitentes/docs/fsd317604.pdf . A Montepio Geral – Associação Mutualista já é a detentora de grande parte das 400 milhões de unidades de participação e quer agora comprar a restante, na posse de IPSS e outros investidores de todo o tipo.

4- Se for bem-sucedida a Associação fica com mais 90% do Fundo que tem as unidades de participação e do capital da Caixa Económica?

"Se for bem-sucedida pode ficar com 100% do Fundo que tem as ações do banco, podendo o Montepio deixar de estar cotado indiretamente através do Fundo", diz Pedro Lino, o administrador da Dif Broker.

"Penso que o objetivo é mesmo comprar a totalidade das unidades de participação. Se conseguir comprar 90% do montante sob oferta, poderá obrigar os detentores a alienar, mesmo que não o desejem. Deve notar-se que a OPA é feita ao preço da colocação inicial. Portanto, a decisão de não vender só terá racional no caso de o detentor desejar tornar-se acionista no Banco (Caixa  Económica  Montepio  Geral), já que todas as UP serão transformadas em ações”, acrescenta Filipe Garcia, economista da IMF, Informação de Mercados Financeiros.

5- Mas a ideia não era a Associação sair do banco? Então para que serve esta operação?

“Penso que nunca houve a intenção declarada de a Montepio Geral – Associação Mutualista sair da CEMG. O que tem havido é uma evolução no sentido de a solução para as necessidades de capitalização da CEMG passarem por um conjunto de novos acionistas, nomeadamente as Misericórdias”, diz Filipe Garcia. Que acrescenta que a operação poderá ter três objetivos:

1. Simplificar a estrutura acionista futura da CEMG. Se não fosse feita uma operação deste tipo, a CEMG iria ter um conjunto de novos acionistas cujo alinhamento de interesses e estratégicos pudesse ser difícil.

2. Permitir que os detentores das UP saiam. Deve notar-se que os investidores que adquiriam estas UP não tinham a intenção de se tornarem acionistas. Muitos deles, suponho, não tinha sequer a noção de que corriam riscos de capital.

3. A operação pode ajudar a servir como referencial de valor para instituição. Se, por hipótese, a OPA fosse apresentada a 50 cêntimos, isso teria uma leitura quanto ao valor da CEMG, com impacto nas condições de entrada dos novos acionistas.

Para Pedro Lino, "a Ideia é aumentar o capital do Montepio. No entanto à cotação das unidades de participação é difícil à Associação convencer um investidor que o Montepio vale mais do que as unidades de participação mostravam. Com esta operação a Associação evita perdas nas contas, uma vez que as unidades cotavas a menos de metade do valor que está no balanço, e tenta valorizar o banco para a entrada de institucionais, como a Santa Casa ou Associações".

6- Se não fosse assim instituições como a Santa Casa não poderiam entrar no banco?

Poderiam, mas a estrutura acionista seria mais confusa e integraria agentes com objetivos, propósitos e estratégias muito variados. Aparentemente, pretende-se que a CEMG seja uma instituição com características diferentes de um banco normal”, analisa ainda o economista da IMF.

Pedro Oliveira também partilha a mesma opinião, no sentido de criar uma instituição diferente, pelo menos em termos de estrutura acionista: "a operação é clara e a ideia é ficarem com 100%, ou quase 100%, do capital para poder ser mais fácil vender a instituições como a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa”.

7 - Os investidores devem sair?

"Sinceramente, vejo pouco racional em não vender. Cada um saberá dos seus objetivos, mas só se quiserem mesmo fazer parte do núcleo acionista da CEMG – que não foi o objetivo quando compraram as UP – é que não devem vender. Mesmo assim, podem ser obrigados a vender (ver acima)", reforça Filipe Garcia.

Pedro Lino também diz que os investidores "devem aproveitar esta oportunidade e sair. Com esta OPA o valor do Montepio é superior ao do BPI o que em mercado não faz sentido".

8- Se a oferta é sobre os 26,5% o que ganham os investidores que não venderem?

Para Pedro Oliveira, quem não sair, e se não for obrigado a fazê-lo, tem que ter noção que vai perder liquidez. "Só voltando a tê-la se os acionistas [já que o passo seguinte serão converter a unidade de participação em ações com a passagem da Caixa Económica e sociedade anónima] decidirem colocar a instituição em bolsa. Mas não as poderão vender em mercado, mas só se algum dos outros acionistas tiver interessando em ficar com elas".

Quem compro, inicialmente, sai sem ganhos nem perdas, "mas também não é transformado compulsivamente em acionistas", acrescenta o economista da IMF. Os que compraram a preços mais baixos, em mercado, realizam uma mais-valia (ganho).

Pedro Lino vai mais longe: "os investidores que não venderem, e se a Associação não pedir a exclusão da negociação do Fundo de bolsa estão a arriscar ficar com um título com ainda menos liquidez e a ficarem diluídos uma vez que o Montepio irá necessitar de mais dinheiro em aumentos de capital".

9- Podem ser obrigados a vender?

Podem. Se a Montepio Geral – Associação Mutualista conseguir comprar 90% do montante sob oferta, poderá obrigar os detentores a alienar, mesmo que não o desejem. Mas seria um direito e não uma obrigação da Montepio Geral – Associação Mutualista, esclarece ainda Filipe Garcia.

10- Depois da operação completa e da CEMG ser convertida em sociedade anónima fica vedada a pequenos investidores, certo? A menos que volte a ser cotada em bolsa?

Correto. Se o Fundo for retirado de bolsa apenas os investidores institucionais podem ter participações, correndo eles o risco de perderem o capital investido. O PSI20 fica ainda mais pobre e longe da sua ambição das 20 empresas, conclui Pedro Lino.

11- A Santa Casa da Misericórdia vai mesmo entrar no capital da CEMG?

Ainda não se sabe. O que se conhecem são a confirmação de conversas preliminares e de um memorando de entendimento. Ainda este fim-de-semana, o provedor da Santa Casa, Pedro Santana Lopes não confirmou nem desmentiu a entrada no capital do Montepio. O provedor admitiu que há interesse, mas que ainda não houve qualquer contato formal que viabilize a entrada de capital.