O antigo representante do Estado no Banif, António Varela, considerou esta quinta-feira no parlamento que a resolução do banco ficou a dever-se às políticas seguidas pelo Banco Central Europeu (BCE) e pela Comissão Europeia em relação à instituição.

"Porque é que o processo Banif correu tão mal? Correu tão mal no fim porque as instâncias europeias - a Direção-Geral da Concorrência (DG Comp) da Comissão Europeia e o BCE - estiveram absolutamente empenhadas em não ter nenhuma responsabilidade no Banif a partir do final de 2015", afirmou o responsável.

António Varela, que falava perante os deputados que integram a comissão parlamentar de inquérito ao Banif, explicou que as resoluções de instituições financeiras europeias passavam, a partir de 01 de janeiro de 2016, a ser da responsabilidade do BCE e do Mecanismo Único de Supervisão.

"A partir de determinada altura, tínhamos a DG Comp a afirmar a imperatividade de o Banif ser resolvido até ao final de 2015, como aconteceu, e, por outro lado, a indisponibilidade do BCE a restringirem e dificultarem o processo de alienação do Banif, que tiveram como consequência as enormes perdas para os contribuintes" portugueses, concluiu o antigo administrador não executivo do banco.

Banco "era péssimo" em 2012

António Varela disse ainda que o Banif em 2012 era "um banco péssimo", criticando a estratégia seguida pela instituição.

"O que era o Banif em 2012? Era um banco muito mau. Era um banco péssimo. Tinha tido uma estratégia completamente errada. Nos últimos anos tinha feito investimentos completamente disparatados no Brasil, em Espanha e outras latitudes", afirmou.

Segundo António Varela, na altura em que o Estado entrou na estrutura acionista do banco, passando a controlar mais de 99%, o Banif tinha uma "grande exposição a meia dúzia de clientes" e uma "elevadíssima exposição ao imobiliário".

Mais, imperavam no Banif "critérios duvidosos para a concessão de crédito" e não havia "procedimentos exigíveis a qualquer banco", como um sistema de gestão de risco.

"O Banif tinha duas coisas muito positivas: recursos humanos muito bons e boa clientela. Isso permitiu que o banco continuasse", sublinhou.

Ainda assim, no seu entender, "o caso de sobrevivência e viabilidade do Banif era muito difícil", tendo transmitido essa mesma ideia ao ministro das Finanças.

A dificuldade em recuperar o banco justifica-se pelos "desenvolvimentos negativos que não podiam ser esperados aquando da realização da capitalização", como a queda das taxas de juro e a crise económica em Portugal.

"Todas as previsões previam a subida das taxas de juro, e aconteceu o contrário. O segundo pressuposto [para a recuperação da atividade do banco] era o da melhoria da economia portuguesa, que não se veio a cumprir", vincou.

De acordo com António Varela, "era pressuposto do plano fazer um conjunto de alienações de participadas do banco. Logo em 2013 se disse que os bancos no Brasil iam ser vendidos ainda em 2013 e ainda hoje não foram".

E realçou: "A única que foi alienada foi o Banif Mais, e era uma que nem se previa que fosse alienada".

O responsável apontou ainda para o "conjunto de imposições da Direção-Geral da Concorrência" que também dificultaram a missão dos gestores do Banif.

"Os mercados em que o banco podia estar presente, os produtos que o banco podia vender, tudo isso, contribuíram para a descida da rentabilidade do banco", frisou.

Apesar de tudo, António Varela diz que o colapso do Banif foi "um choque pessoal e profissional muito pesado".