Já quando apenas pairava a ameaça de sanções a Portugal e Espanha - o que aconteceu durante dois meses - o secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) se tinha manifestado contra tais penalizações pelo incumprimento de duas décimas do défice em 2015. Esta sexta-feira, um dia depois de a Comissão Europeia ter decidido mesmo abrir um processo nesse sentido, Ángel Gurria voltou a defender que sancionar Portugal é descabido e pediu a Bruxelas que seja flexível.

Precisamente a partir de Lisboa, onde está a decorrer o Fórum para a Produtividade da OCDE, Ángel Gurria disse mesmo que essa atitude de Bruxelas é a última coisa que todos precismos, num contexto de Brexit, crise de refugiados e de "cicatrizes" que ainda persistem dos tempos difíceis de austeridade em Portugal.

"A última coisa que queremos nesta altura é criar divisões entre nós, aplicando sanções, que nem sequer são sanções porque têm a ver com o passado e não com o futuro e não têm em conta o que está a acontecer"

O líder da OCDE argumentou que o país ainda enfrenta uma crise bancária e que é "preciso fazer tudo" para manter a estabilidade dos mercados financeiros e na banca, "não pelos banqueiros e pelos acionistas, mas pelos depositantes" e pela confiança no sistema. Deu com isso a entender que Bruxelas, com ameaças e decisões deste tipo, só vem prejudicar. 

"A última coisa que queremos agora é que a Comissão fale de sanções por duas décimas (...) Flexibilidade e não sanções", voltou a apelar, como já tinha feito a 10 de junho.

E fez questão de repetir novamente que os desafios a nível europeu "são de tal natureza com o Brexit", que é preciso mudar de estratégia, criar crescimento, investir "mais e não menos" em infraestruturas e competências. 

Congratulou-se também pelo facto de o FMI seguir a mesma linha de discurso sobre estas necessidades prementes.

Produtividade: Portugal 40% abaixo da média 

Neste Fórum da Produtividade, naturalmente que o secretário-geral da OCDE também fez considerações sobre o caso portugues. Lembrou que o país foi duramente atingido pela crise e que aplicou um complexo conjunto de reformas laborais.

"Começámos um diagnóstico sobre o skills gap [competências] em Portugal. Porque é que a produtividade de Portugal precisa de crescer? Porque está 40 % abaixo da média da zona euro, que por sua vez não chega ao par das regiões mais produtivas do mundo".

Gurria entende que Portugal "ainda carrega as cicatrizes da crise e enfrenta muitos desafios de reformas" para que isso tenha reflexos na produtividade.