Álvaro Sobrinho explicou esta quinta-feira, na comissão de inquérito ao BES, que a linha de crédito contraída pelo BES Angola, banco que liderou até 2012,  «começou a ser feita em 2008» e foi sendo aplicada em obrigações de dívida pública do estado angolano. E fez uma revelação, ao afirmar que o dinheiro - os mais de 3 mil milhões de euros que não chegaram a ser reembolsados -, não foi para o BESA, mas sim para o BES Portugal.

«O crédito ficava no BESA, mas recebiam no BES esse dinheiro». Estes 3 mil milhões «nunca saíram do BES para o BESA». «Todas as operações eram feitas no BES»

«Uma parte [dos 3 mil milhões de euros] eram obrigações; uma grande parte era para apoio às exportações de empresas portuguesas. Ele [Salgado], mais do que ninguém, sabe que o dinheiro estava lá [no BES]. O dinheiro não saiu para o BESA. Estava lá, ok?
 

Lamentando não poder «dar conforto» aos contribuintes portugueses sobre para onde foi o dinheiro, disse apenas que não podia dar mais respostas, mais dados concretos sobre as empresas a quem foram concedidos esses créditos. Só insistiu que o dinheiro «nunca saiu» de Portugal.

Apesar disso, o BESA «pagou nos últimos três anos ao BES qualquer coisa como 700 milhões de dólares de juros». Ora, «o que levou ao aumento» do endividamento do BESA foi precisamente isto, reforçou:

 O que leva ao aumento desta linha são os juros altíssimos que tínhamos de pagar e que não conseguíamos. Mesmo assim pagámos 700 milhões de dólares em julho. Nove meses mais do que uma empresa normal

No entanto, diz que «não é verdade» que a carteira de crédito do BESA estivesse falida.  Mas admite que a maior parte do buraco se deveu ao crédito concedido a empresas angolanas. De qualquer modo, assinalou, se «estivesse em default, a carteira toda, então os auditores, os supervisores... Não tínhamos um problema no BESA. Tínhamos um problema gigantesco no BES». Aqui, Sobrinho respondia a Mariana Mortágua (BE), com a deputada a retorquir que foi isso que aconteceu: um problema nos dois.

BES e Banco de Portugal «sabiam de tudo»

Álvaro Sobrinho, que entrou para a liderança do BESA em 2001, pela mão de Ricardo Salgado, garante que era a comissão de crédito do BESA que «decidia» os créditos a atribuir. Não ele, sozinho: «Era uma decisão colegial, não era uma decisão única».

E garante que tanto a casa-mãe BES como o Banco de Portugal sabiam de tudo: «Reportávamos toda a nossa carteira de crédito ao BES, que depois os reportava ao Banco de Portugal». Essa «informação era obrigatória e regulamentar»

Com a intervenção de Miguel Tiago, do PCP, que enumerou a lista das maiores empresas que receberam créditos do BESA, Álvaro Sobrinho destacou o «sinal de transparência» que é o deputado ter esta lista. «Isso estava tudo no Banco de Portugal. Isso foi sempre fornecido à entidade de supervisão», disse.

Sobre se conhecia essas empresas: «É evidente que os conheço, mas não posso entrar em mais detalhes». Defendeu-se, por várias vezes, como o rigoroso sigilo bancário angolano.

Depois, Miguel Tiago comentou que essas empresas «não eram exportadoras portuguesas», contrariando a versão apresentada por Sobrinho sobre para onde foi «grande parte» do dinheiro emprestado.

Antes, respondendo à deputada do CDS-PP, Cecília Meireles, usou uma comparação para explicar o que se passou com a linha de crédito:

O capital, na ficha técnica que existe, é para ser reembolsado só em 2018. O Banco Espírito Santo serve não uma liquidez no mercado monetário, mas serve uma linha renovável que tem uma maturidade de 2008 a 2018. É o mesmo que a senhora deputada comprar uma casa e está a pagá-la em 20 anos. E de repente o banco diz-lhe para pagar tudo na totalidade

Sobrinho alega que foi isso que aconteceu. Daí a retirada da garantia que cobria os ditos 3 mil milhões de euros de créditos que, ao desaparecerem, fizeram com que tivesse sido necessário injetar mais dinheiro no capital do Novo Banco, quando se optou pela resolução, a 3 de agosto. 

Oficialmente, a garantia foi retirada a 4 de agosto, mas a TVI apurou que foi retirada dois dias antes da resolução, ou seja, no dia 1.

Logo na sua intervenção inicial, Sobrinho impôs algumas condições para falar e advertiu os deputados de que não iria «contribuir para achincalhamentos pessoais». Seja de quem for, prometeu. 

OS PRINCIPAIS TÓPICOS DA AUDIÇÃO DE ÁLVARO SOBRINHO, AO MINUTO