O elevado valor dos passes, a insuficiência de horários e a falta de articulação entre as carreiras dificultam as deslocações de autocarro no Algarve, indica um levantamento feito pela Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO).

Ao abrigo da campanha "Estes transportes não me servem - faça greve ao seu carro", a DECO/Algarve está a promover cinco viagens de autocarro entre vários pontos da região, para denunciar as fragilidades de cada percurso e apelar aos utentes que intervenham, disse à Lusa Tânia Neves.

O cenário escolhido para a viagem realizada esta terça-feira de manhã foi o de um aluno que viva em Albufeira e estude no "campus" de Gambelas da Universidade do Algarve, em Faro, um trajeto de cerca de 35 quilómetros, mas cuja duração de autocarro, na carreira mais direta, é de uma hora e vinte minutos, implicando apanhar, pelo menos, dois autocarros.

Tendo em conta a oferta disponível, o preço das viagens e a duração, a maior parte dos estudantes acaba por ver mais vantagem em arrendar um quarto em Faro", resumiu Tânia Neves, sublinhando que um passe mensal combinado para um estudante naquela situação, que dá acesso a três carreiras interurbanas e uma urbana, custa 140 euros.

Para a jurista da DECO/Algarve, é um custo "bastante elevado", ao que acresce "o caso flagrante de não estarem a ser aplicados os descontos" previstos numa portaria publicada em setembro e que prevê que todos os estudantes até aos 23 anos tenham 25% de desconto nos passes.

"Nós não verificámos a aplicação de descontos aos estudantes, a não ser aos que beneficiam de ação social direta", observou aquela responsável, reiterando que os valores praticados são "claramente desadequados".

O vice-reitor da Universidade do Algarve, que hoje participou também na viagem, reconheceu à Lusa que "não é nada fácil" a acessibilidade à universidade a partir de áreas geográficas relativamente próximas, como Albufeira, o que revela o "esforço notável" feito por alguns estudantes.

O valor do passe de um estudante que está a pouco mais de 30 quilómetros de Faro dava para cobrir as despesas de passes de uma família de uma área metropolitana", lamentou Paulo Águas, considerando que, fora essas grandes áreas, "o resto do território fica muitas vezes esquecido".

Perante o cenário que presenciou e com base nos dados de 2016 que relacionam as escolas onde se realizam as provas de acesso à universidade e o rácio de alunos colocados, aquele responsável admite a hipótese de um estudante de Albufeira "ter menos possibilidade de acesso ao ensino superior" do que, por exemplo, um de Olhão, a oito quilómetros de Faro.

"Isto tem consequências profundas ao nível dos jovens que estão mais afastados dos pólos universitários e das próprias comunidades", notou, considerando que, para além da barreira económica, há a barreira do tempo, já que estes estudantes levam muito tempo para chegar às aulas de transportes públicos.

A DECO/Algarve vai ainda agendar mais duas viagens - em Tavira e em Portimão -, estimando que a campanha decorra até novembro, para depois ser feito um balanço.

Desde março de 2016 que a plataforma www.queixasdostransportes.pt está ao dispor dos utentes que pretendam reclamar sobre os transportes públicos coletivos.