A Fitch Ratings considerou que encontrar uma solução para o crédito malparado português e para as imparidades do setor bancário irá levar tempo e poderá encontrar inúmeras dificuldades.

A Fitch estima que o "stock" de crédito mal parado no setor financeiro no final de 2015 tenha alcançado os 33,7 mil milhões de euros, o equivalente a 12% dos empréstimos brutos.

Os problemas maiores, de acordo com a agência de notação financeira, são no setor empresarial, onde o rácio do crédito malparado alcançou os 20%, mas os empréstimos aos consumidores sem garantias trazem igualmente problemas, já que correspondem a 14% do rácio do crédito malparado. Os empréstimos para a compra de casa correspondem a 6% do rácio do crédito mal parado.

Ao contrário de Espanha, onde esta tendência foi revertida, o "stock" de crédito malparado em Portugal continua a subir e as melhorias no ambiente operacional ainda não estão a produzir um abrandamento nas taxas, refere a Fitch Ratings.

A Fitch Ratings reviu em março a perspetiva ("outlook") de Portugal de positivo para estável devido ao desempenho orçamental e da dívida do país, às expetativas de crescimento moderado e às dificuldades do ambiente político, que poderão aumentar os riscos macroeconómicos.

De acordo com os dados divulgados pelo Banco de Portugal a 12 de abril, os bancos portugueses tinham em fevereiro 17.984 milhões de euros em crédito malparado, mais 275 milhões de euros do que no mês de janeiro. No entanto, se comparado esse valor com o mesmo mês do ano passado, houve uma diminuição do crédito vencido de empresas e famílias uma vez que em fevereiro de 2015 o total chegou aos 18.339 milhões de euros.

Os últimos dados disponíveis do Banco de Portugal indicam que, em fevereiro deste ano, o maior rácio de crédito vencido continuou a verificar-se no crédito às empresas, de 12.909 milhões de euros, numa subida de 264 milhões de euros face a janeiro. O malparado das empresas representava em fevereiro 15,91% do total emprestado pelos bancos a estas sociedades (de 81.115 milhões de euros).

Já no crédito a particulares, o valor de malparado fixou-se em 5.075 milhões de euros, mais 12 milhões de euros do que em janeiro. O crédito vencido representava 4,27% do total de crédito a particulares (de 118.821 milhões de euros).

Dentro dos empréstimos a particulares, o crédito à habitação tem a maior parcela (97.269 milhões de euros), representando o malparado deste 2,61% do total, ou seja, 2.543 milhões de euros.

Apesar de o crédito malparado para a compra de casa ser uma fatia pequena do total concedido, é de sublinhar que em fevereiro houve um ligeiro aumento no valor total, de 23 milhões de euros, uma vez que em janeiro era de 2.520 milhões de euros.

O crédito vencido das empresas atingiu o seu auge em agosto de 2015, quando chegou aos 13.736 milhões de euros, e nos particulares o recorde deu-se em maio do ano passado nos 5.440 milhões de euros.

O tema do crédito malparado e da forma de ‘limpar’ os balanços dos bancos destes ‘ativos tóxicos’ está na ordem do dia depois de, na semana passada, o primeiro-ministro, António Costa, ter defendido que é "útil para o país encontrar um veículo de resolução do crédito malparado de forma a libertar o sistema financeiro de um ónus que dificulta uma participação mais ativa nas necessidades de financiamento das empresas portuguesas”.

Nos últimos anos, este tema de criação de um mecanismo para tirar o crédito vencido dos bancos foi sendo falado, tendo sido mesmo motivo de conversas entre as autoridades portuguesas e a ‘troika’ no início do pedido de ajuda externa, em 2011, mas nunca avançou.