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Viver na Coreia

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Repórter TVI: "Viver na Coreia"

Desde a guerra fria que o mundo não assistia a ataques tão violentos entre países com capacidade nuclear. A crise da península da Coreia tem dois protagonistas: Donald Trump e Kim Jong-un. Em caso de guerra, a Coreia do Sul será o primeiro alvo. Um míssil norte-coreano demora 45 segundos a atingir o centro de Seul, com mais de 25 milhões de habitantes. Mas, surpreendentemente, essa não é a maior preocupação de uma população altamente competitiva e com elevados índices de suicídio. "Viver na Coreia" é uma reportagem da autoria de Paulo Salvador, com imagem de Ricardo Ferreira e edição de Pedro Guedes. Esta é a primeira parte.

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Repórter TVI: "Viver na Coreia" (2ª parte)

Na segunda parte do Repórter TVI sobre a vida na península da Coreia, vamos olhar para casos que o vão deixar intrigado. Como é que num país tecnológico e competitivo, a cada hora 40 pessoas desistem de viver? Porque há cerimónias funebres com pessoas vivas em caixões e pontes com dizeres e fotografias de comida?

E por entre estas aparentes contradições, vamos conhecer emigrantes que não querem voltar a Portugal.

“Viver na Coreia” é uma reportagem em duas partes, da autoria de Paulo Salvador, com a imagem de Ricardo Ferreira e edição de Pedro Guedes

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Seul, Coreia do Sul

Han à procura de um novo milagre

A Coreia do Sul é hoje a 11ª Economia Mundial, uma referência na região, e um exemplo para o mundo de uma profunda e rápida transformação social e económica.

Em apenas 50 anos, o país mudou o seu perfil de nação, transformando uma sociedade de produção agrícola e piscatória em 1960, (63%) numa moderna sociedade de serviços (77,3%) em 2010. Assim nasceu a expressão o “Milagre do Rio Han”, rio que cruza a cidade Seul e que se transformou no símbolo do crescimento económico.

Pelo meio, os coreanos sentiram os efeitos de duas graves crises petrolíferas (1970,1980) e um choque financeiro que, em 1997, deixou o país sem liquidez.

Foi através de uma profunda remodelação do aparelho produtivo e fortes investimentos na educação (5% do PIB), acompanhados por uma estratégia delineada ao detalhe que se transformou o país num gigante asiático.

A tecnologia serviu para aumentar a eficácia e transparência da governação. A qualificação da mão-de-obra foi levada ao limite, ao ponto de estar a criar problemas sociais relacionados com as elevadas taxas de suicídios.

O futuro desta nação de 50 milhões de pessoas está planeado. O crescimento económico para 2017 será 3%, mas a tendência é de estabilização, o que não agrada a uma economia agressiva e pujante. O desemprego está nos 3,8% e a inflação nos 1,9%.

O governo tem como linhas de futuro, uma economia centrada nas pessoas e no aumento do poder de compra das famílias e uma distribuição da riqueza mais igualitária.

Para conseguir esse futuro, o Instituto de Desenvolvimento da Coreia (KDI) , órgão que trabalha com o governo no desenho das estratégias económicas do país, identificou a necessidade de um novo milagre, que supere o do rio Han.

Foram estabelecidas como metas, a conclusão da Quarta Revolução, expressão que serve para identificar a nova sociedade onde tecnologia, homem e produção se fundem em sistemas cibernéticos e biológicos, com a IOT (internet on things), as clouds e as “fábricas inteligentes”. Os restantes objetivos passam por fazer um upgrade da competitividade nacional,  melhorar a sustentabilidade de um crescimento inclusivo e participar cada vez mais na cooperação e desenvolvimento à escala global. O caminho, diz Tai –Hee Lee, responsável pelo KDI, “só se faz se todos os coreanos perceberem que temos um objetivo comum”.

Para mais informação:

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Aeran Lee

Aeran Lee, a empresária que fugiu do Norte

Aos 17 anos tentou suicidar-se devido à perseguição que o regime comunista fazia à sua família. Aos 33 fugiu de Pyongyang com um filho nos braços. Primeiro cruzou o rio para a China, depois refugiou-se na embaixada do Vietnam e, mais tarde, veio para Seoul onde vive há 10 anos.

Hoje Aeran Lee é uma empresária reconhecida e plenamente integrada na capital sul coreana. Recebe-nos no seu pequeno restaurante no centro de Seul, onde serve iguarias do seu país de origem e más memórias. Nas paredes, ostenta orgulhosa as fotos ao lado de Hillary Clinton e Michelle Obama, numa homenagem que lhe fizeram enquanto exemplo de empreendedorismo.

À entrada, uma caixa transparente com algumas notas e uma nota. Um estranho peditório para juntar dinheiro para mandar matar o líder da Coreia do Norte.

Paulo Salvador  - Se a Coreia do Norte abrisse as fronteiras, acha que os seus cidadãos abandonariam o país?

Aeran Lee - Não sei, acho que isso dependeria se as pessoas que tivessem familiares na Coreia do Sul.

Recentemente temos visto que muitos norte coreanos que cá estão começam a abandonar a Coreia do Sul porque não se conseguem adaptar a esta sociedade. Ou seja, depende da necessidade das pessoas. Poderá haver quem venha para cá mas não quer dizer que todos o fizessem.

 

- Quais são as dificuldades de adaptação à realidade sul coreana?  

- É mais o factor psicologico, porque quando um norte coreano vem para aqui não tem familiares, redes sociais de apoio, não tem pessoas que os possam ajudar. Nesse caso eles preferem voltar para Coreia do Norte e há casos em que como têm familiares no norte podem voltar a qualquer momento.

 

- Porque é que abandonou a Coreia do Norte?

- O meu pai já tinha vindo aqui para Coreia do Sul durante a guerra. Eu vim em 1974, tinha 10 anos e tinha familiares nos Estados Unidos, que já tinham fugido e que publicaram um livro sobre a vida na Coreia do Norte. Tudo isso fez com que eu quisesse sair, por não  gostar do regime. A sociedade norte coreana é uma sociedade de grandes divisões sociais. Se não somos de uma classe mais elevada não temos beneficios. Coo o meu pai tinha fugido, nós éramos penalizados.

 

- Se o regime de Pyongyang faz uma lavagem cerebral aos seus cidadãos, porque é que não resultou consigo?

- É verdade que existe um ensino de lavagem cerebral nas pessoas, desde crianças, mas na verdade é muito contraditório porque o regime está sempre a dizer que é o numero um a nível mundial, mas à nossa volta continuavam a morrer pessoas de fome. Isso fez com que eu não acreditasse no que me diziam.

 

- Em tempos tentou suicidar-se. Porquê?

- A nossa familia era penalizada pelo percurso do meu pai e de outros familaires. Eu não direito a continuar a estudar ou ir para a universidade. Foi isso que me fez tentar o suicídio, porque ja não tinham mais futuro.

 

- Que idade tinha?

- 17 anos.

 

- É verdade que regime dá uma ideia do mundo completamente diferente da realidade? Dizem que norte-coreanos não conhecem o mundo, não sabem que o homem foi à lua, quem foram os Beatles, não sabem que houve uma guerra mundial. Viveu ou sentiu isso?

- A chegada do homem à Lua conseguimos saber pelos livros de ciência, mas sem pormenores. Sabíamos que houve uma segunda guerra mundial, o racismo dos alemães, tínhamos estudado, mas sem pormenores.

 

- Que conhecimento teve sobre Portugal?

- Portugal tem uma imagem neutra na Coreia do Norte. Não é país inimigo, nem amigo . É um pais neutro. Na altura dos anos 70/80 tivemos muitas visitas de líderes políticos comunistas de Portugal. Eu lembro-me das noticias dessa altura.

 

-O que sente sobre o líder da Coreia do Norte?

- Para ser sincera, é um regime que não devia existir. É uma monarquia  que não devia ter nascido. Há muita gente a morrer de fome e assim continua. De acortdo com os últimos dados, Kim Jong Un tem gastos pessoais, por ano, de 700 milhões de dólares.

 

-E sobre Donald Trump?

- Eu como sou contra regime norte coreano, espero que o governo americano possa derrubar o quanto antes o governo norte coreano. E acredito que isso vai acontecer em breve.

 

- Qual o grande sonho para a sua vida?

- Não tenho um sonho , mas há muitas pessoas na Coreia do Norte que não sabem o que é a dignidade de um ser humano e a qualidade de vida que existe aqui, na Coreia do Sul. Gostava de lhes dizer que existe um mundo diferente, onde uma pessoa pode lutar e trabalhar para ganhar o pão de cada dia.

 

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Coreia do Sul

"A China poderia estrangular o regime norte-coreano"

Paulo Salvador - A Coreia do Sul está à beira de uma guerra ou é apenas uma impressão exterior?

Nuno Pereira Magalhães - Acho que é mais uma impressão exterior que existe. Claro que com o aumento da tensão política e o uso de determinada retórica agressiva, é lógico que as pessoas julgam que, tanto para Trump como para Kim Jong Un, uma guerra será aceitável e trará benefícios para um dos dois, quando não é o caso.

Nenhum actor beneficiaria de um conflito. Há aqui a questão de saber se podemos involuntariamente entrar num conflito envolvendo os EUA, Coreia do Norte e do Sul. Mas mesmo de ocorresse um pequeno choque militar, não entraríamos necessariamente numa guerra. Veja-se durante a guerra fria, no final dos anos 60 e 70, houve três ocasiões em que aconteceram choques entre forças norte coreanas e norte americanas e não foi por aí que ocorreu um conflito em larga escala. Por isso, mesmo havendo um choque não creio que vá descambar num conflito generalizado.

 

-Então o que diferencia esta crise das anteriores?

-Dois pontos importantes: Primeiro, a utilização da tal retórica mais agressiva, neste momento Trump está a seguir exactamente a mesma táctica que os líderes norte coreanos têm seguido até agora. Ser extremamente agressivo na forma como se dirige ao adversário e faz ameaças. Mas creio que com o uso desta estratégia do aparente actor irracional que vai atacar e que vai reagir a qualquer provocação, o objectivo de Donald Trump é exactamente o mesmo dos norte coreanos: fazer o adversário pensar melhor antes de executar qualquer tipo de provocação. Tentar trazer um elemento de surpresa, tentar fazer com que a outra parte não tenha capacidade de prever o comportamento do adversário. Nesse sentido a retórica funciona bem.

Segundo ponto, a capacidade nuclear dos norte coreanos. A CN já tem capacidade de operacionalizar uma arma nuclear e através de um míssil, em princípio pode atingir o Havaí e o Alasca.

 

- Quer isso dizer que a ameaça é mais real?

- Não creio, até porque as consequências seriam catastróficas, vejamos: nem sequer falando de uma guerra nuclear, mas quando se fala de prognósticos para conflito convencional entre as coreias, as mais recentes estimativas dizem-nos que entre 20 mil pessoas morreriam por dia o que é já de si dissuasor. Acresce que, quando há possibilidade de se usarem armas nucleares, químicas e biológicas, ninguém ficaria a ganhar. O problema é haver uma escalada involuntária do conflito.

 

- Aqui em Seul percebe-se que as pessoas parecem nem sequer pensar no que está a acontecer. Como analisa esta aparente despreocupação?

- Creio que já estão habituados. A crise nuclear já se arrasta desde os anos 93,94. Creio que a maior parte dos sul coreanos acredita que se não aconteceu nada até agora também não vai acontecer. Especialmente a partir do momento em que a Coreia do Norte for capaz de utilizar armas nucleares contra os EUA. Aí cria-se uma situação que impede o conflito pelas duas partes.

 

- A seu ver qual poderá ser a chave para esta crise? A China?

- A China sim, é o parceiro económico da Coreia do Norte, responsável por cerca de 90% do comercio externo de Pyongyang. A nível de importações vitais, como de energia, a China é essencial. A China em teoria poderia estrangular o regime norte-coreano. A razão pela qual não o faz é porque a China não pretende arriscar uma crise no regime norte coreano.

Mesmo que a Coreia do Norte seja nuclear, a China prefere um regime estável. Principalmente nesta altura, em que o objectivo continua a ser estabilizar a região e o país.

 

-Quer dizer que do ponto de vista chinês é mais estável o actual regime do que uma alteração do regime coreano?

-Exactamente, porque essa alteração significaria não só uma perda política para a China, que está numa competição directa com os Estados Unidos a nível de hegemonia regional. Por outro lado a nível social, a onda de refugiados daí resultante seria enorme. A nível económico, a reconstrução, os custos da reunificação coreana seriam enormes e desestabilizariam a economia regional e, consequentemente, a economia chinesa.

 

Nuno Pereira Magalhães é professor de Estudos Internacionais na Universidade de Hankuk em Seoul. Especializou-se nas questões de política internacional relativas à península coreana.

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Coreia do Sul

Gamcheon: campo de refugiados que virou uma atracção turística

Nesta “favela colorida” nos arredores de Busan, 70% dos habitantes estão aqui há mais de 50 anos. São os filhos da guerra. Mais de 25% tem mais de 65 anos.

Quando em 1950 centenas de refugiados desesperados aqui chegaram, apenas encontraram uma colina onde, ao longo dos anos, se foram amontoando casebres de madeira para albergar todos os que fugiam do avanço das tropas do norte.

Hoje é uma “aldeia cultural” e uma atracção turistica com ar limpo, muita cor e vizinhos simpáticos.

A partir de 2009 as autoridades de Busan incentivaram artistas a tomarem parte da requalificação daquele imenso espaço ocupado por refugiados da guerra. Escultores, pintores, artistas ocuparam casas abandonadas e fizeram os seus estúdios. Aos poucos, a aldeia foi ganhando cor. O local começou a atrair o turismo. O pequeno comércio floresceu e hoje 50 % dos pequenos negócios pertencem aos habitantes.

Ahn Okke é a mais idosa dos 8 mil habitantes de Gamcheon. Tem 75 anos e desde os 11 que aqui vive. Ela fugiu do avanço das tropas comunistas que entre 1950-53 ocuparam quase toda a península, à excepção da cidade de Busan. Hoje, Ahn tem um pequeno restaurante na sua casa, que se enche de visitantes e turistas.

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Ahn Okke, Coreia do Sul

Ahn Okke, refugiada

Paulo Salvador - Quando veio para este campo de refugiados?

Ahn Okke - Vim para aqui quando tinha 11 anos, na altura fomos para uma outra área em Busan e houve um grande incêndio e a minha familia veio para esta zona de Gamcheon. Naquela altura não havia nada, não havia electricidade nem agua. Foi duro instalarmo-nos aqui. Só mais tarde tivémos luz.

 

-Está contente por viver aqui ou preferia ir para outro local?

-Vivo aqui há 64 anos, claro que no inicio foram tempos dificeis, mas agora estou feliz por viver aqui. Temos um ar limpo e as pessoas ainda são amigas umas das outras, estou feliz aqui.

 

-Tem medo de uma guerra nova guerra com a Coreia do Norte e que tenha de fugir daqui?

-Eu acredito que será dificil haver uma guerra. Mesmo que aconteça, não será como a guerra entre as duas coreias. O nosso país desenvolveu-se muito e vejo pelas notícias que as Nações Unidas são nossas amigas, portanto não tenho medo.

 

-Se pudesse, o que gostaria de dizer a Donald Trump e a Kim Jon Un?

-Que nunca mais pode haver guerra. Ainda nos lembramos disso. Durante e depois da guerra coreana morreram tantas pessoas e muitas pessoas sofreram . Não pode haver mais uma guerra.

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Coreia do Sul

O outro lado do sucesso económico

A Coreia do Sul tem a segunda mais alta taxa de suicídios do mundo. A cada hora 40 pessoas desistem de viver.

Um fenómeno que resulta de uma sociedade hiper competitiva, onde a eficácia e o sucesso são as únicas saídas. A exigência curricular e a pressão para conseguir notas que garantam o acesso a uma universidade, levam milhares de jovens ao desespero final. Num país de serviços e alta qualificação, não ter estudos superiores não é uma opção. 

O dia de estudo de um vulgar aluno do liceu pressupõe 14 horas de trabalho entre aulas e estudo. 

Na Coreia do Sul, a educação é o foco e o sustento de todo o desenvolvimento do país. O nível stress destas faixas etárias (11-15 anos) é o maior entre as 30 nações mais desenvolvidas que fazem parte da OCDE.

O suicídio é a maior causa de morte entre adolescentes e esse é um problema de futuro. Segundo declarações de Kim Mee Suk, investigador do Instituto Coreano da Saúde e Assuntos sociais,  “se hoje os jovens estudantes não são felizes, não poderemos garantir a sua felicidade quando eles crescerem, e o nosso futuro será negro”.

As pontes de Seul tem sido locais de morte para milhares de pessoas, entre elas muitos jovens. Na ponte Mako, há protecções electrificadas, espelhos e frases como “Pensa bem no que vais fazer”, “És um bom filho”, “És a melhor pessoa do mundo”. Câmaras de vigilância acompanham os transeuntes e estão ligadas a um software que consegue “ler” o comportamento individual, prever se aquela pessoa se vai suicidar e alertar um serviço de resgate que parte de imediato para o local.

No outro extremo etário, os mais idosos também desistem de viver, porque se sentem um peso para os filhos, porque se sentem sem perspectivas. 
Por todo o país têm vindo a surgir centros de experiências de morte, onde jovens e idosos, deprimidos, procuram vivenciar a sua própria morte para encontrarem um sentido para as suas vidas. 

As sessões incluem palestras sobre a vida, o nosso papel no universo, a morte enquanto uma outra dimensão da vida. Levam-se ao extremo os exemplos e demonstrações de agonias e tragédias. “A morte não está longe, está no centro da nossa vida”, sublinha Kim Kiho, sacerdote do centro “Bem morrer, vida bela”.

Viver estas experiências de morte, implica escrever uma carta de despedida à família, descrever os momentos chave de uma vida, imaginar o que acontece durante o próprio funeral, preparar as identificações para a lápide, vestir o “suuy”, a túnica que cobre os mortos. 

O féretro é parte essencial da terapia. Todos os “clientes” são metidos dentro do seu caixão, onde permanecem cerca de 10 minutos, fechados na escuridão.

Kim Kiho, há mais de 20 anos que dirige estas “terapias de morte”. Ele diz que várias outras empresas copiam o seu programa e sublinha que todos os anos aumenta o número de pessoas que procura “viver a sua morte”. Ainda assim reconhece que “dez por cento das pessoas que aqui vêm, são pessoas que já tentaram suicidar-se ou ainda têm planos para o fazer”.  
 

Paulo Salvador