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Os destinos de Hillary Clinton

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Por Verónica Ferreira

Hillary Clinton é mulher, mãe e avó, advogada, professora e política.

Foi a primeira mulher senadora do estado norte-americano de Nova Iorque. Anos mais tarde, assumiu o papel de primeira-dama quando o marido foi eleito presidente dos Estados Unidos. E ainda resistiu ao escândalo da Sala Oval, quando Bill Clinton se envolveu com uma estagiária.

Deixou a sua marca na geopolítica mundial com as relações internacionais que criou nos 112 países que visitou enquanto Secretária de Estado.

Em 2016, é candidata presidencial pelo partido democrata norte-americano.

Assume-se como defensora dos direitos das crianças, das mulheres e também da comunidade LGBT.

A ser eleita, será a primeira mulher ao comando de um dos maiores países do mundo. Mas quem é esta mulher que quer mandar nos Estados Unidos?

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Hillary Clinton em criança com a família

As origens de Hillary Clinton

Hillary Diane Rodham nasceu em Chicago, no estado norte-americano do Illinois, a 26 de outubro de 1947.

Tem um irmão mais novo e é filha de Dorothy Howell e Hugh Rodham.

O interesse por questões sociais surgiu em tenra idade. Aos 12 anos, Hillary organizou, juntamente com os amigos do bairro dos subúrbios de Chicago onde vivia, umas Olimpíadas para angariar dinheiro para os mais carenciados.

Em 1960, Hillary tinha 13 anos e arranjou o seu primeiro trabalho de verão como vigilante num parque, a alguns quilómetros de casa.

No ano seguinte, a jovem norte-americana deslumbrou-se com a possibilidade de poder ir ao espaço e escreveu uma carta à NASA onde expressou a sua vontade em ser astronauta. A agência espacial respondeu-lhe, mas deixou cair por terra as suas aspirações para descobrir o universo.

A mãe, Dorothy, sempre foi a sua inspiração. Num pequeno documentário, Hillary recorda o percurso difícil da progenitora: abandonada em criança, começou a trabalhar cedo e descobriu já na adolescência o significado de família e amor de pais. Foram esses os valores que passou a Hillary e que, de certo modo, justificaram as decisões que tomou ao longo da vida em defesa dos direitos das mulheres e das crianças.

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A juventude de Hillary Clinton

Hillary era uma jovem preocupada com a sociedade e as injustiças. O pai, republicano, influenciou durante algum tempo a tendência política seguida pela filha. Mas um discurso de Martin Luther King, em 1962, mudou por completo a visão da jovem que acabou por retirar o seu apoio ao partido republicano.

Em 1965, Hillary tinha terminado o secundário e o mundo gritava contra a guerra no Vietname. Mais uma vez, a sua voz soou nos protestos realizados pelos estudantes contra a participação dos Estados Unidos no conflito.

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Como eles se conheceram

Como eles se conheceram

No início da década de 70, Hillary entrou na universidade de Yale, no estado de Connecticut, para o curso de direito, numa altura em que a presença de mulheres nestes cursos ainda era diminuta. Foi na faculdade que conheceu e começou a namorar com Bill Clinton.

Quando se formou em direito, Hillary foi trabalhar para a Children’s Defense Fund, onde ia de casa em casa à procura de crianças que tivessem sem acesso à educação ou à saúde por questões legais.

Em 1975, Hillary Rodham deixou Chicago e mudou-se para o estado do Arkansas, onde casou com Bill Clinton e trabalhou na universidade de direito como professora.

Em 1979, Bill foi eleito Governador do Arkansas. Hillary tornou-se primeira-dama e manteve o foco nas questões relacionadas com a saúde pública e a educação.

A primeira filha do casal, Chelsea, nasceu em 1980 e, quatro anos depois. Hillary é eleita “Jovem mãe do ano” no Arkansas. Durante a década de 80, a mulher de Bill Clinton realizou diversas ações com vista a melhorar as políticas de saúde para a infância, tendo colaborado com hospitais e associações.

Em 1991, Bill Clinton entra na corrida à Casa Branca e a mulher é presença assídua nos comícios do candidato. No papel de primeira-dama dos Estados Unidos, Hillary luta pela reforma no sistema de saúde. Nas viagens oficiais, o casal Clinton fazia-se acompanhar muitas vezes pela filha e Hillary discursou várias vezes em defesa das relações diplomáticas dos EUA com as outras nações, mas também pela igualdade de género e de oportunidade entre homens e mulheres.

Os direitos das mulheres são os direitos humanos”

Hillary Clinton num discurso sobre os direitos das mulheres. Pequim (1995)

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Traição na Sala Oval

Em 1995, a presidência e o casamento de Bill Clinton foram postos à prova. O presidente dos EUA foi acusado de envolvimento sexual com a estagiária Monica Lewinsky na sala oval da Casa Branca.

Bill Clinton negou, mas o processo arrastou-se por mais de um ano. A então estagiária apresentou provas irrefutáveis contra Clinton. O vestido azul de Lewinsky continha vestígios do ADN do chefe de Estado norte-americano. Confrontado no Congresso, Bill Clinton viu-se obrigado a depor e a contar os detalhes do caso: o que fez com a estagiária, onde, quando e como.

Ninguém tem nada a ver com isso. É um assunto nosso", declarou, sore o escândalo, Hillary Clinton (Revista Time. Agosto de 1998).

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Um livro que valeu um Grammy

Em 1997, Hillary Clinton recebeu o Grammy da categoria de melhor argumento com o livro publicado nesse ano. “It takes a village” foi o primeiro livro de Hillary Clinton sobre a responsabilidade da sociedade no tratamento dos direitos das crianças.

Também nesse ano, a primeira-dama viu nascer o projeto Children's Health Insurance Program (CHIP), que atualmente permite o acesso à saúde a mais de oito milhões de crianças norte-americanas.

Primeira mulher eleita senadora em Nova Iorque

Na viragem do milénio, Hillay foi eleita senadora no estado de Nova Iorque, a primeira mulher a ocupar aquele cargo na história do país.

Depois dos atentados do 11 de Setembro, a senadora reuniu-se com George W. Bush para acordar 20 mil milhões de dólares para ajudar a reconstrução da cidade. 

Entre 2002 e 2009, Hillary acompanhou de perto as operações de combate ao terrorismo, sem descurar o trabalho nas aéreas da saúde e da educação, e empenhou-se profissional e pessoalmente nas negociações bilaterais com as nações mais hostis em relação aos Estados Unidos.

Depois de ter sido primeira-dama, a esposa enganada no caso Monica Lewinsky, a mulher que quis fazer uma controversa alteração do sistema de saúde norte-americano, Senadora de Nova Iorque e apoiante de Bush na invasão do Iraque, Hillary sonhou mais alto e foi na eleição de Barack Obama que conquistou ainda mais visibilidade global e se começou a descolar da sombra do marido.

Hillary Rodham Clinton foi convidada por Barack Obama para assumir o cargo de Secretária de Estado, função que desempenhou entre 21 de janeiro de 2009 e 1 de fevereiro de 2013.

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As viagens de Hillary Clinton enquanto Secretária de Estado

A Secretária de Estado mais viajada de sempre

Durante os quatro anos em que ocupou o cargo de Secretária de Estado, Hillary viajou por 112 países. Na bagagem levou diplomacia norte-americana, mas também ficou célebre pelas pontes de estabeleceu com os mais importantes e influentes líderes políticos mundiais. 

"A melhor forma de fomentar os interesses norte-americanos é reduzir as ameaças no mundo e aproveitar para implementar soluções globais. Temos de usar aquilo a que se chama “poder inteligente”, dotado de todas as ferramentas que dispomos – diplomáticas, económicas, militares, políticas, legais e culturais. Com “poder inteligente”, a diplomacia vai ser a vanguarda da nossa política externa”, disse Hillary Clinton, na tomada de posse.

Na primeira viagem enquanto secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton prometeu "equilíbrio" e "harmonia" na diplomacia norte-americana. Clinton sublinhou que a administração do presidente Barack Obama procurará o justo equilíbrio entre "os três 'd', defesa, diplomacia e desenvolvimento". 

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Os avós Hillary e Bill Clinton

A avó Hillary Clinton

Em 2014, a família Clinton cresceu com o nascimento da neta de Bill e Hillary. Charlotte Clinton Mezvinsky foi a primeira filha de Chelsea e, dois anos mais tarde, nasceu Aidan. Os avós não esconderam a felicidade e Hillary admite ver nos netos um incentivo para continuar a defender os direitos das crianças e das mães solteiras.

Mas em 2015, a mulher de Bill Clinton voltou a ser assombrada com uma velha questão política. A ONU anunciou que o Sudão do Sul já retificou a Convenção sobre os Direitos das Crianças, documento que os EUA continuam sem corrigir.

O tratado do direito da criança foi adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1989. O documento teve a adesão de 195 países, incluindo o Sudão do Sul, tornando-se o tratado de direitos humanos internacionais mais amplamente ratificado de sempre. O Senado norte-americano continua a votar contra a retificação do documento e a pressão internacional sobre os Estados Unidos tem vindo a aumentar.

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Hillary Clinton

A caminho da Casa Branca

12 de abril de 2015: Hillary entra na corrida à Casa Branca.

A ex-primeira-dama e antiga Secretária de Estado norte-americana anunciou oficialmente, através da rede social Twitter, que é candidata à nomeação democrata.

A campanha para as primárias arrancou no Iowa e, durante cerca de dez meses, Hillary Clinton viajou pelos diferentes Estados para ouvir o povo e os problemas do quotidiano dos norte-americanos.

Debaixo do slogan “Stronger Together”, Clinton foi consolidando a sua imagem como candidata para substituir Barack Obama.

"Sou candidata à presidência. Os americanos precisam de um campeão todos os dias e eu quero ser esse campeão". Hillary Clinton (anúncio formal da candidatura às presidenciais dos Estados Unidos. Abril 2015)

Obama apoia Hillary Clinton

Após meses a evitar pronunciar-se sobre as primárias do Partido Democrata e depois de um encontro com o maior rival de Hillary Clinton às primárias, o candidato Bernie Sanders, Obama felicitou-a por "ter feito história".

"Não creio que tenha havido alguém mais qualificado para ocupar este posto (de presidente)" como Hillary Clinton, disse Obama num vídeo divulgado pela Casa Branca, em que afirmou também estar "com ela".

Esta foi a segunda vez que Hillary Clinton tenta chegar à presidênciados Estados Unidos. Em 2008, foi derrotada nas primárias por Barack Obama, o primeiro presidente afro-americano do país. 

Para o Presidente dos Estados Unidos Hillary Clinton é a “melhor candidata” e, na convenção democrata, afirmou que nem ele nem Bill Clinton seriam "mais qualificados do que Hillary" e que está pronto para passar o testemunho.

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Hillary Clinton

Hillary Clinton teve cinco adversários democratas nas primárias

- Bernie Sanders: senador pelo estado de Vermont foi uma das grandes surpresas do Partido Democrata na campanha. Depois de desistir, Sanders garantiu apoiar Clinton.

- Martin O’Malley: ex-governador de Maryland e ex-presidente da cidade de Baltimore, contou sempre com apoio da comunidade afro-americana e hispânica.

- Lincoln Chafee: ex-governador de Rhode Island, foi o único senador que votou contra a Guerra do Iraque em 2002, dado de que se vangloriou durante o primeiro debate dos democratas.

- Jim Webb: ex-senador pelo estado da Virgínia e veterano da guerra do Vietnam, foi um dos candidatos mais conservadores do Partido Democrata, especialmente no âmbito da política externa e da economia.

- Lawrence Lessig: professor de Harvard candidatou-se às eleições pelo Partido Democrata com uma só proposta: reformar o sistema eleitoral norte-americano.

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Internet [Reuters]

O caso dos e-mails

A campanha de Hillary para as primárias dos Estados Unidos arrancou envolta em polémica. O jornal The New York Times escreveu que Hillary Clinton pode ter violado leis federais ao usar a sua conta de email pessoal para todas as mensagens enquanto trabalhava como Secretária de Estado. 

"Os seus assistentes não tomaram qualquer medida, na altura, para preservar os seus emails pessoais nos servidores do departamento", como é obrigatório por lei, referiu o New York Times

A antiga Secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, anunciou ter pedido ao Departamento de Estado para publicar os seus emails durante os anos que ocupou o cargo. 

"Quero que os cidadãos vejam o meu correio. Pedi ao Departamento de Estado que os publique e disseram-me que iriam revê-los para publicação o mais rapidamente possível", escreveu Hillary Clinton na sua conta do Twitter

Barack Obama reagiu e numa entrevista televisiva sublinhou a importância da transparência na sua administração.

"A política da minha administração é fomentar a transparência e é por isso que os meus correios eletrónicos, o telefone, estão registados e arquivados", disse Barack Obama em entrevista à CBS

Hillary Clinton reconheceu que não devia ter usado e-mail pessoal para assuntos oficiais, mas garantiu que cumpriu as regras de segurança, ao entregar ao governo todos os e-mails potencialmente relacionados com trabalho.

Junho 2015

O Departamento de Estado dos EUA disse que a totalidade ou parte de 15 mensagens de correio eletrónico enviadas ou recebidos pela ex-secretária de Estado Hillary Clinton durante o seu mandato desapareceram dos registos. 

Um conjunto de milhares de emails foi entregue a um painel do Congresso que irá investigar o ataque em 2012 à missão dos Estados Unidos na Líbia. 

Emails de Hillary Clinton divulgados

A candidata presidencial norte-americana Hillary Clinton pediu desculpas por usar um servidor de email privado enquanto secretária de Estado, afirmando que a decisão foi “um erro” e foi obrigada a responder por escrito sobre o caso.

Setembro 2015

O Departamento de Estado norte-americano obteve mais emails correspondentes ao período em que Hillary Clinton foi Secretária de Estado e que não tinham sido disponibilizado anteriormente. 

O mesmo órgão publicou 7.000 páginas de correio eletrónico enviadas ou recebidas por Hillary Clinton, durante o mandato de secretária de Estado (2009-2013), incluindo um enviado ao fundador do WikiLeaks, Julian Assange. 

A polícia federal dos Estado Unidos, FBI, reabriu a investigação, depois da descoberta de novas mensagens "que parecem ser pertinentes". Dias mais tarde, o diretor do FBI, James Comey, informou não há razões para avançar com acusações criminais

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Problemas de saúde atrasam, mas não a afastam Hillary

Cansaço, exaustão, excesso de trabalho e falta de descanso. Estes poderão ter sido os principais problemas que afastaram Hillary da estrada e dos compromissos políticos.

2012 foi um ano particularmente difícil na saúde da mulher de Bill Clinton. A democrata desmaiou devido a um problema de estômago e mais tarde veio a ser hospitalizada, em Nova Iorque, devido a uma trombose.

Hillary Clinton tinha um coágulo de sangue entre o cérebro e o crânio. Foi submetida a uma intervenção cirúrgica e recuperou bem.

Em 2016, sentiu-se mal durante as cerimónias que assinalaram os 15 anos do 11 de Setembro. Os responsáveis pela comunicação da democrata revelaram que tinha sido diagnosticada uma pneumonia

Alguns dias de descanso foram suficientes para Clinton recuperar forças e voltar à corrida à Casa Branca.

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Debate entre Hillary Clinton e Donald Trump, candidatos à presidência dos EUA

Clinton VS Trump

Resolvidas as primárias, envoltas em polémicas quer do lado democrata como republicano, o combate final à Casa Branca foi entre Hillary Clinton e Donald Trump.

Muito diferentes entre si, os candidatos têm posições, em alguns casos completamente contrárias, sobre os principais aspetos da sociedade dos Estados Unidos. 

Hillary Clinton, a primeira mulher nomeada por um grande partido, já deu provas de ser acérrima defensora dos direitos das mulheres, crianças e comunidade LGBT. Clinton é ainda aberta à presença de imigrantes latinos no país e vê no diálogo e na diplomacia a chave para resolver os principais conflitos do mundo, ao mesmo tempo que serve para divulgar as intenções externas e diplomáticas dos Estados Unidos com os países aliados.

"Americanos têm razões para estar zangados" - Hillary Clinton

Donald Trump não olha a meio para defender os seus ideais conservadores. Quer construir um muro na fronteira com o México, expulsar os ilegais dos Estados Unidos, fechar as fronteiras à imigração e dificultar a atribuição de vistos norte-americanos. No que respeita à igualdade de género, o candidato republicano bem se afirma defensor das mulheres, mas é contrariado pelas suas próprias declarações num passado não muito longínquo. 

"Mulheres que abortam devem ter algum tipo de punição" - Donald Trump

À parte daquilo que os divide, estão as polémicas que os aproximam. O jornal New York Times insiste que Trump não declarou milhões de dólares para fugir ao Fisco e que durante investigações tributárias as suas empresas apagaram emails e outros registos. Por seu lado, há correio eletrónico que revela que Clinton soube previamente das perguntas feitas nos debates televisivos.

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Debate Hillary Clinton vs Donald Trump in St. Louis (Reuters)

Trump vs Clinton: ela diz que ele não está pronto, ele quer vê-la na prisão

Segundo debate presidencial foi duro de início a fim.

Donald Trump teve de falar sobre as gravações comprometedoras e garantiu que vai lançar investigação contra Hillary se for Presidente devido aos emails apagados.

Clinton respondeu na mesma moeda e considerou que o adversário não tem condições para ocupar o lugar na Casa Branca, segundo o relato de  Filipe Caetano

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Hillary Clinton

A escolha do próximo presidente dos Estados Unidos acontece a 8 de novembro. O futuro chefe de Estado daquele que é um dos países mais influentes do mundo terá certamente em cima da mesa questões de máxima importância e sensibilidade.

Mas ao contrário do que acontece em Portugal, nos Estados Unidos o candidato mais votado pode não ser o eleito. O sistema de escrutínio norte-americano pode parecer confuso, mas o jornalista Élvio Carvalho explica-lhe como funciona a escolha do próximo presidente dos EUA.

Hillary Clinton diz estar preparada, mas estarão os Estados Unidos prontos para ter uma mulher à frente da Casa Branca?

Verónica Ferreira