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Missão Alasca

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Reportagem de Paulo Salvador  |  Imagem de João Pedro Matoso, Tiago Donato e Paulo Salvador  |  Edição de imagem Pedro Guedes  

 

Amália e Eusébio foram vistos, fotografados e adorados por mais de 14 milhões de pessoas. As lontras da Expo morreram em 2013 e 2010, respectivamente. Foram as maiores estrelas do Oceanario de Lisboa desde aquele 22 de Maio de 1998. Tiveram duas crias, Micas e Maré,  que ainda vivem no Oceanário, mas a esperança de vida não ultrapassa os 20 anos e elas estão no limite. Agora é tempo de assegurar a continuação da espécie.

Uma equipa liderada por Nuria Baylina, partiu para o Alasca para trazer as novas lontras para Lisboa. Chamam-se Odiak e Kasilof. São dois machos, muito jovens. Essa foi a viagem que a TVI acompanhou em exclusivo.

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Repórter TVI: "Missão Alasca"

Repórter TVI: Missão Alasca

Foi das gélidas águas do golfo do Alasca que há duas décadas vieram para o Oceanário de Lisboa as lontras Eusébio e Amália, dois símbolos da Expo 98. Vinte anos depois, a TVI voltou ao golfo do Alasca para acompanhar uma missão complexa e delicada de cientistas portugueses.

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Alasca

Seward, Alasca

Seward é uma pequena vila portuária perdida no meio do golfo do Alasca, cercada por montanhas e um acesso de mar. Um pequeno lugar de pouco mais de duas mil almas que no verão é invadido por dezenas de milhar de turistas e navios.

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As novas estrelas do Oceanário

Kasilof e Odiak foram avistados por populares que ligaram para o Sea Life Center. As lontras estavam em fase quase terminal, desnutridas, abandonadas. A Natureza seguiria o seu caminho, não fosse a existência desta instituição que os recolheu e tratou. Por serem demasiado jovens, não aprenderam as técnicas de sobrevivência. Libertá-los seria uma sentença de morte.

Carrie Goertz, diretora de saúde animal do Alaska Sealife Center, recorda: “Quando eles chegaram, durante meses tiveram de ser acompanhados 24 horas por dia. São como um recém-nascido, precisam de ser alimentados a cada duas ou quatro horas e depois temos de garantir que estão a nadar e  temos de os ajudar a manter o pelo tratado. Temos de fazer de mãe. Com isso cria-se uma ligação forte, tornam-se dependentes de nós e associam-nos com a comida. Essa é outra das razões porque não as podemos libertar”.

Estes são os casos em que se pode iniciar um processo de adopção de uma instituição em qualquer parte do mundo.

O Oceanário de Lisboa já tinha importado Eusébio e Amália, a confiança científica no projecto português fez o resto. Foi um longo caminho burocrático de quase dois anos que culminou com o transporte dos dois machos para Lisboa.

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Alasca

Resgatar animais em perigo

A quase totalidade de lontras marinhas do planeta vive em território norte-americano. As leis de proteção da espécie são exigentes. O centro de vida marinha do Alasca é a única instituição deste estado norte-americano capaz de resgatar e atribuir animais a outros centros de investigação ou aquários espalhados pelo mundo. Por ano recebem cerca de 12 mamíferos marinhos e desses apenas uma parte pode ser enviado para o exterior. O objectivo é tentar sempre uma reintegração dos animais no seu próprio habitat. Cerca de 70% das chamadas telefónicas de pessoas que encontram animais abandonados e em dificuldades na península de Kenai dizem respeito a lontras marinhas. São localizadas em enseadas, praias e rochas.

Ali está instalado o Alaska Sealife Center, “O nosso primeiro objectivo é tentar devolvê-los à natureza. No que respeita às lontras marinhas, se elas chegam com menos de seis meses, ainda não aprenderam com as mães como sobreviver. Essas não poderão ser devolvidas ao seu habitat. Trabalhamos com aquários nos EUA e no resto no mundo para realojar as lontras” , diz o diretor Brett Long.

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Transporte para Lisboa

O transporte de lontras marinhas é um processo complexo e não isento de riscos. A preparação dos animais começa muito antes da viagem. Odiak e Kasilof fizeram uma adaptação gradual ao fuso horário de Lisboa. Ao longo de quase duas semanas, as refeições e a gestão da luz foram sendo alteradas uma hora por dia, até que todas as rotinas estivessem sincronizadas com as hora de Lisboa.

 

Qualquer factor que possa criar um stress extra nos animais pode levar à não adaptação ao novo habitat o que comprometeria  toda a operação de realojamento dos animais.

O transporte faz-se em caixas especialmente concebidas para tal. A cada 4 horas as lontras tem de ser alimentadas e monitorizadas. Vitaminas e calmantes são administrados aos animais. Um avião especialmente fretado para o efeito faz depois uma ligação extra rápida até Lisboa. Um voo non-stop de apenas 7 horas.

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Lontras do Oceanário resgatadas no Alasca

Os nomes

O Oceanario de Lisboa decidiu manter os nomes de origem das duas lontras marinhas vindas do Alasca. Serão as primeiras a não ter um nome português. Odiak e Kasilof são identificações  dos locais da península de Kenai, onde foram encontrados os animais.

“Elas não tem qualquer ligação emocional com os nomes, embora haja um significado para elas, mas novos sinais podem ser criados. Ambos os nomes foram criados com ligação aos locais de onde vieram e por isso há uma historia associada e que ajuda as pessoas a explicar de onde elas vieram. É parte da sua historia.”, diz Carrie Goertz, diretora de saúde animal do Sealife Center.

Por causa do seu pêlo, o mais denso do reino animal, as lontras foram caçadas quase até à extinção. Em 1911 eram cerca de 2000 animais. Hoje estima-se que existam cerca de 125 mil lontras em todo o mundo, principalmente na Rússia e nos Estados Unidos (Alasca e Califórnia). Os pedidos mundiais de lontras, para aquários e outras instituições, excede em muito a quantidade de animais disponíveis para adoção.

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Adaptação ao Oceanário de Lisboa

Chegados a lisboa, Odiak e Kasilof ficaram de quarentena para que os biólogos pudessem acompanhar a adaptação dos animais ao novo local.

Passado esse tempo, fez-se uma aproximação gradual às duas lontras residentes do Oceanario, Micas e Maré. Sendo animais adultos, é importante não criar qualquer tipo de incompatibilidades, caso contrário os recém-chegados teriam de ser reenviados para um outro centro na Europa e não poderiam ficar em Portugal.

Foram momentos intensos para toda a equipa do Oceanario.

A primeira vez que abriram a porta que separava as quatro lontras marinhas, Nuria Baylina não escondia a sua satisfação. Enquanto curadora do Oceanário, Nuria sentia que a responsabilidade era grande e que esta era uma missão com alguma margem de risco. No entanto, passados minutos, todos perceberam que Micas, Maré, Odiak e

Kasilof já eram uma família.

Os sorrisos de todos testemunhavam um final feliz para uma historia que começara na quase tragédia da morte de duas pequenas lontras marinhas, algures no interior do Alasca, e que encontraram um novo lar, a mais de 8 000 km de distância.

Paulo Salvador