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Assunção Cristas, a mulher da maratona

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Da deputada que chegou ao Parlamento com um “pacotinho de leite” na mala a Presidente dos centristas. Becas, como lhe chama a família, é o rosto que substitui Paulo Portas.

Mãe de quatro filhos, reza todos os dias ao Espírito Santo. Começou a correr para recuperar a forma física após a gravidez. Agora quer ir mais longe e melhorar os tempos do CDS a maratona até às próximas legislativas.
 

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Assunção Cristas, a primeira mulher líder do CDS

Casada, mãe de 4 filhos, reza todos dias e começou a correr na rua para recuperar a forma física depois da última gravidez. Agora, começa uma maratona para melhorar o resultado CDS nas próximas eleições.

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"Não tenho a disponibilidade de Paulo Portas"

A velha máxima de que no CDS há sempre atrasos é mito ou tem fundo de verdade?

Alguma tradição… há (risos). Agora espero poder ajudar a desmontar essa tradição. Olhe, o que posso dizer, é que às vezes temos de ficar à espera porque as pessoas contam sempre com um bocadinho de atraso. No Porto disseram-me logo "está marcado para as 21 horas, mas não penses começar antes das 21:30". Mas nos outros sítios conseguimos começar relativamente a horas. Digo relativamente porque começar 21:10 ou 21:15 já não é a horas, mas, pronto, para as horas portuguesas é completamente a horas.

 

Chegar a horas vai ser um cunho desta nova liderança no CDS?

Sim, sim! Porque senão a organização é muito mais difícil.

 

Está preparada para quando chegar a hora de calçar os sapatos de líder do CDS?

Hoje trago estes que fazem muito sucesso, que tanto dão para homem como para mulher. Normalmente, uso saltos altos. Só preciso de saber para onde vou. Quando era ministra, por exemplo, tinha de saber se ia para o meio da terra para escolher entre levar saia ou calças. Mas vai ser um desafio grande. Nada em política se faz sozinho, é um trabalho de muitas pessoas. Temos de ser bons e eficazes.

 

O que é que vai fazer de forma diferente de Paulo Portas?

Olhe, o trabalho em equipa, em grupo, procurando ter um trabalho mais repartido e confiando mais que as pessoas vão fazer as coisas até ao fim.  É como eu me vejo por natureza e por necessidade, não consigo fazer tudo sozinha, não tenho certamente a disponibilidade que o Paulo Portas tem e isso obriga a delegar mais, a partilhar mais tarefas e a confiar mais nas pessoas. A parte de confiar totalmente, ele não é muito bom nisso, essa é talvez a parte pior

 

Mas não tem essa disponibilidade por causa da sua família?

Porque tenho uma famíilia e quero estar presente. A política também deve ser para pessoas que têm outras dimensões ditas “normais” e conseguem conciliar. Isso só se faz trabalhando em equipa.

 

Do que é que gosta menos no CDS?

É talvez um certo adormecimento.

 

Isso quer dizer que vai pôr o CDS a correr?

Sim, também (risos).

 

Que tipo de corrida?

Será sempre de médio/longo prazo. Corremos sempre maratonas. Eu não (risos)! Mas acho que a lógica nunca pode ser a dos 100 metros, tem de ser sempre a lógica da maratona, trabalhando consistentemente, solidamente, com afinco, com otimismo, com vontade de chegar ao fim, nos vários desafios que temos. Nunca com uma visão curta.

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Do CDS até casa, sempre a correr

Por que é que começou a correr?

Depois de a minha filha mais nova nascer comecei, com quase 39 anos, a ter mais preocupação para voltar ao “normal”. Andava durante a licença de maternidade, junto ao rio. Depois, quando voltei a trabalhar, comecei a tentar correr pelo menos uma vez por semana.

 

E não lhe custa?

Um bocadinho! Ao princípio custava imenso. Depois, ao fim de um ano a andar comecei a correr uns bocadinhos. Tipo, 20 minutos a andar, 10 minutos a correr. E isto foi progredindo até que ao fim… fiz tudo a correr!

 

Corre sempre na rua ou no ginásio também?

No pós-gravidez inscrevi-me sempre nos ginásios, mas aquilo depois não durava grande coisa. Comecei a andar na rua quando já estávamos com um tempo bonzinho e passei a fazer do ministério até casa a pé.

 

Isso são quantos quilómetros?

São sete quilómetros e meio. Pensei… de carro demoro 20 minutos, a pé demoro uma hora e pouco… e comecei a ir. É engraçado que os seguranças não me deixavam fazer isto sozinha e corriam comigo. Também lhes servia de treino! Comecei assim, depois às vezes ia com o meu marido ao fim de semana e depois já andava tão rápido, tão rápido, que pensei "vou começar a correr". E comecei.

 

Faz bons tempos?

Já estive melhor, mas vou mantendo. Espero agora vir a correr do Caldas (sede do CDS-PP) para casa (risos). Na primeira corrida total do ministério até casa foram 57 minutos, na última foram 53 minutos, fiquei toda satisfeita.

 

Já é bom ritmo…

Não… ainda não é os 10 quilómetros por hora. Mas já é bom. Tem de ser devagarinho.

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Por que corre Assunção Cristas?

Depois do quarto filho, decidiu-se primeiro por caminhadas e depois arriscou a corrida

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É a primeira vez que intervem nesta legislatura, com António Costa como primeiro-ministro.

Sim, não é confrontar António Costa, mas é o encerramento do debate, marcando a visão do CDS sobre o Orçamento do Estado.

 

Há, de facto, um peso da responsabilidade?

Não sinto como um grande peso. Sinto, claro, a responsabilidade e também o gosto.

 

Como é que se preparou?

Este tipo de trabalho faço fora de horas, trabalhei ontem à noite depois de as crianças estarem a dormir. Comecei a fazer o esboço do discurso e o que fiz hoje foi enviar para alguns de nós para verem se ainda há alguma coisa que falta.

 

Paulo Portas tinha um estilo muito particular nos discursos. Qual vai ser o seu estilo?

Olhe, isto cada um é como é. Portanto, cada um tem o seu léxico, a sua maneira de entoar as coisas, a forma de construir as frases. Já fiz muitos discursos no parlamento e agora serão obviamente diferentes, mas não no estilo. Se quiser, é uma preocupação com o rigor, passar mensagens claras, num ponto ou outro ter alguma ironia, mas não é esse o ponto onde quero chegar. Não há concessões a uma simplificação do conteúdo.

 

Se, em determinados assuntos, tiver de divergir do PSD, fá-lo-á?

Sem problema, somos dois partidos diferentes, temos um grande trabalho pela frente para que possamos voltar a governar. O CDS deve empenhar-se em robustecer a sua posição para poder contribuir mais para essa maioria.

 

Para isso, sente necessidade de separar as águas entre os dois partidos?

Não é uma questão de necessidade, é uma questão de naturalidade. Obviamente que haverá diálogo com PSD, mas os partidos são diferentes e nós olhamos em frente e traçamos o nosso caminho. Não estou excessivamente preocupada com isso. É natural que as pessoas reconheçam alguma diferença e alguma similitude.

 

- Já está, obrigado. - digo-lhe.

- Pronto, agora vou lá para dentro! – e regressa ao hemiciclo em passo apressado.

 

Quando chega a vez de intervir, não poupa críticas ao Partido Socialista e aos acordos à esquerda.

- Parecem as crianças no recreio. Quando há um disparate, nunca ninguém teve a culpa, nunca ninguém é responsável.

 

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Os quatro pais do Orçamento do Estado, segundo Cristas

Os quatro pais do Orçamento do Estado, segundo Cristas

O léxico familiar é o que fica como ponto mais forte no discurso. Talvez pela inspiração que o contexto lhe trouxe enquanto escreveu, em casa, já com os filhos a dormir. Fora de casa, Assunção Cristas tem o alvo definido e a mira apontada. O tempo já começou a contar e quer acabar com a ideia de que o CDS anda à boleia do PSD.

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O "Partido do Táxi" com uma mulher ao volante

Gosta de conduzir?

Gosto, normalmente conduzo sempre. Ao fim de semana quem conduz é o meu marido porque ele gosta e porque sempre que eu vou a conduzir ele tem aquela coisa muito masculina de estar sempre a fazer reparos. E, portanto, a bem da estabilidade familiar (risos), acho bem que seja ele a conduzir porque de facto conduz muito bem e não há esse problema.

 

Conduz depressa?

Ando à velocidade que for a mais conveniente, procuro não exceder os limites de velocidade, mas gosto de andar rápido. Se posso fazer uma coisa mais rápido, eu faço mais rápido.

 

Já não ouve "Grândola, Vila Morena" no carro?

Não, isso era com os meus pais. Ouvíamos no carro e o meu pai cantava muito "Grândola, Vila Morena" e outras. Mas aqui no carro o pelouro da música é dos meus filhos. Cada vez mais querem ouvir as suas coisas. Cada um escolhe uma música, roda-se e cada um escolhe a sua.

 

Que músicas é que tem ouvido agora?

 Os nossos filhos agora, por exemplo, põe muito os D.A.M.A.

 

E gosta?

Gosto! Fui com eles a um concerto dos D.A.M.A. É engraçado (risos).

 

O que é que gosta de ouvir?

Ouço um bocadinho de tudo. Ouço mais música contemporânea do que música clássica, mas gosto de várias coisas. Gosto do que esta a dar, de cantores de sempre, portugueses, brasileiros, americanos… Canadianos! Leonard Cohen, Ruffus Wainwright que ainda agora ouvi na Gulbenkian. Gosto de jazz, de Keith Jarrett… há uma grande diversidade.

 

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"Muito perigosa de fosse para o PCP"

Na escola já era daquelas crianças com perfil de liderança?

Eu sempre achei que não, nunca fui líder nem me senti líder de nada na escola. Mas recordo-me uma vez uma professora de português ter ido dizer aos meus pais que eu ia ser muito perigosa se me quisesse dedicar ao PCP. (risos)

 

Porquê?

Ela tinha reconhecido esses traços e que, na perspetiva dela, orientados para o lado errado, na opinião dela para o Partido Comunista, daria um grande perigo. Mas não aconteceu.

 

E porquê ser de direita?

Ser de direita vem muito de família. A minha família sempre foi votante no CDS. Os meus pais nasceram em África, a minha mãe em Angola e o meu pai em Moçambique e na altura quando vieram não se sentiam retornados, sentiam-se refugiados. Nessa altura o partido que eles entenderam que lhes falou mais e lhes dizia alguma coisa era o CDS. E isso passou para nós, para mim e para os meus irmãos.

 

Herdou sem se questionar?

Claro que há uma altura em que a pessoa pensa se isto faz sentido ou se não faz. Eu nunca vi razões para me afastar do CDS… e depois quando houve o desafio de Paulo Portas para entrar no partido. Aí eu refleti se deveria estar ou não no CDS e vi que não havia razões que me afastassem, pelo contrário.

 

Em maio de 2010 disse que era de direita e que um dos valores mais importantes da direita era a liberdade individual. Porém, disse também que ao pertencer a um partido tem de assumir e aceitar perder liberdade. Não é contraditório?

Nunca estamos totalmente livres. Entrar para um partido é entender que um pensamento que pode ser mais relevante do que o nosso próprio pensamento. No caso do casamento homossexual, tínhamos um programa eleitoral onde era clara a orientação contra do partido. Isso é um trato com os eleitores, tinha de obedecer ao programa.

 

Mas isso custou-lhe?

Custou-me. Custou-me… Mas não era suficiente para me afastar do partido.

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Paulo Portas e Assunção Cristas

“A ideia de ir para a política era de estar a juntar-me a gente menos própria.”
 

Assunção Cristas

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Havia muito má fama na política

Como é que foi esse convite de Paulo Portas?

Foi um convite inesperado, depois da minha participação no referendo do aborto, em maio de 2007. Tomámos um café perto da minha faculdade e o convite foi para entrar para a Comissão Política Nacional. Duvidei, porque ser militante fazia-me um bocadinho de… impressão.

 

Do que é que duvidava?

Eu nunca me tinha visto ativamente ativa na política durante a juventude e a faculdade, essa era a altura para eu estudar e me divertir e fazer outras coisas. Eu na altura não estava nada para aí virada. Quando fui convidada pelo Paulo Portas era casada, tinha três filhos, estava na faculdade com uma vida tranquila…  e depois havia muito má fama na política. Os políticos tinham e têm muito má fama. A ideia de ir para a política era de estar a juntar-me a gente menos própria.

 

Encontrou essa gente?

Não, não encontrei. Por isso hoje digo que é um mito urbano. Podem vir para a política, as pessoas são iguais às que há nos outros sítios todos, o que há na política é mais escrutino. Para o bem e para o mal, o que faz bem é mais visível e o que faz mal também. Os traços positivos são notados, os negativos são hipernotados.

 

Acha que o CDS deveria ter feito algo diferente?

O CDS quando pôde fazer teve condições muito limitadas. Gostaríamos de ter feito diferente, mas o momento não permitiu.

 

Pergunto-lhe isto porque Passos Coelho admitiu ter ido além da troika, receando que algo corresse mal. Discordou de alguma coisa durante estes quatro anos?

Foi um erro enorme alguém ter pensado na ideia da TSU em setembro de 2012. Muitos de nós, sentados no conselho de ministros, pensámos de outra maneira, mas foi decidido naquele sentido. Não deveria ter sido sequer divulgado ou verbalizado. Aí começou uma crítica muito dura ao governo e um desconforto.

 

Mas vinham do próprio governo declarações que provocavam esse desconforto. Como a ministra das finanças dizer que estávamos de cofres cheios…

A expressão caiu mal e as pessoas que, de facto, estavam com bolsos vazios obviamente sentiram-se tocadas e compreendo perfeitamente. A expressão não foi feliz, evidentemente, mas, ouça, só quem não fala é que não corre o risco de ter expressões infelizes e cometer erros. Eu acho que não devemos crucificar excessivamente os outros.

 

Todos gostaríamos obviamente de ter cofres cheios. O dinheiro é importante para si?

É importante porque é o que nos dá condições para viver alguma vez com tranquildade. Mas não é o meu foco. Aliás, se fosse não estaria na política.

 

Porquê? Ganha-se mal na política?

Ganha-se  o que se ganha. Não qualifico, cabe aos portugueses qualificar. É o que é. Agora… fora da política, sendo um bom profissional, pode-se ganhar mais dinheiro.

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Tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa

"Portas não sabe confiar,

Marcelo é impreciso,

Costa é simpático mas não tem moral política"

Assunção Cristas

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Assunção Cristas e Paulo Portas: uma relação

Política revela o que gosta mais e o que gosta menos no líder centrista que vai suceder

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A deputada do "pacotinho de leite"

É verdade que uma vez, no Parlamento, no início, levou um pacote de leite para o plenário?

É verdade (risos). Eu tinha aquela visão que todos os portugueses têm... que os deputados se portam muito mal porque tem uma reunião e saem muitas vezes da sala.  E eu não percebia porque e que estavam semprer a sair, o normal é que se precisam de beber ou comer qualquer coisa deviam fazê-lo ali. Claro que eu não tinha a mínima noção do que e que era aquele espaço e o escrutínio público daquele espaço. Não há nenhum sitio onde as pessoas estejam a trabalhar e tenham câmaras de televisão e fotográficas em cima delas. De facto, quando cheguei com o meu pacotinho de leite, no primeiro dia, o Pedro Mota Soares disse-me: "Assunção, tu és louca, tu não podes beber isso aqui! Olha à tua volta…". E eu olhei à minha volta e percebi que isto é outro mundo e então percebi porque e que as pessoas tinham de sair para irem comer alguma coisa, para irem beber uma água, tomar café, ir a casa de banho, percebi porque é que entravam, e saíam tantas vezes do hemicíclo.

 

Foi uma lição para a vida?

Foi uma lição curiosa, de humildade, de quando criticamos de fora sem perceber aquilo que se passa. Somos injustos.

 

Reza muito?

Acho sempre que devia rezar mais, mas vou rezando, sim.

 

Todos os dias?

Todos os dias.

 

Já rezou pela liderança no CDS?

Rezo sempre por aquilo que faço e peço sempre a inspiração em particular do Espírito Santo para que me vá iluminando os caminhos e certamente que nestas decisões que tive de tomar, desde logo de me candidatar à liderança do CDS, rezei e pedi inspiração para que fosse uma boa decisão.

 

André Carvalho Ramos