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100 anos de Champalimaud

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António de Sommer Champalimaud, se fosse vivo, faria esta segunda-feira 100 anos. O homem que sempre se assumiu como industrial morreu aos 86 anos, vítima de cancro, em Lisboa. No ano da sua morte, era o português mais rico: a revista Forbes atribuía-lhe uma fortuna da ordem dos 2,5 mil milhões de euros, o que quase chegaria para pagar a construção de três Pontes Vasco da Gama.
A maior descoberta sobre Champalimaud chegaria após o seu falecimento: legou parte da sua fortuna para a criação de um centro de investigação e tratamento ao nível das ciências médicas, especialmente nas áreas do cancro e das neurociências. Assim surgiu a Fundação D. Anna de Sommer Champalimaud e Dr. Carlos Montez Champalimaud, os nomes dos seus pais, uma decisão que a sua conhecida teimosia impôs.

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António Champalimaud (1918 - 2004)

A história do industrial que marcou o século XX em Portugal, António de Sommer Champalimaud

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Paulo Portas

OPINIÃO

Um Português mesmo invulgar

D.R.

Paulo Portas escreve sobre António Champalimaud

Obstinado e disciplinado. Altivo e brusco. Corajoso e audaz. Duro e generoso. Criador e solitário. Espartano e gladiador. Inovador e aspiracional. Percursor e frontal. Caluniado e absolvido. Nacional, internacional e global. Patriota, africanista e europeu. Tão autoritário como liberal. Tão realista como visionário. Tão invejado mas nunca vencido. Incombustível e independente de todos. E ainda aventureiro, aviador e caçador. Assim foi a vida plena de António Champalimaud, nascido faz hoje um século, um português mesmo invulgar. 

Ao contrário do que diz o mito urbano, António Champalimaud não nasceu rico. Numa casa com 4 filhos havia espaço - a Quinta da Marinha era então um imenso matagal - mas não havia luxos, e as solas gastavam-se até ao fim. Um Pai militar e rigoroso, alguns tabefes que mais tarde agradeceria, uma Mãe cuja ternura recordaria sempre. Num país devastado pela instabilidade de I República e que em poucos anos abriria falência, a educação de Champalimaud foi confiada aos jesuítas, de quem o próprio salientaria o contributo para hierarquizar prioridades e estar atento aos detalhes. Mas aos 19 anos, com a perda inesperada do Pai, a vida convocou António Champalimaud a responsabilidades que nunca mais cessariam. Havia dívidas e foi chamado ao juiz para vender bens e saldá-las. Apesar de não ter a maioridade legal, António Champalimaud recusou delapidar o património e assumiu o problema. Os primeiros 10 mil contos que ganhou em Angola, entregou-os ao credor. Sempre achou que dívidas são dependências e foi sempre independente, até da sua própria família. 

É impressionante a velocidade com que tudo aconteceu depois.  

Aos 24 anos, o tio – Henrique Sommer, empreendedor – chama-o para administrador dos Cimentos de Leiria. E ele logo queria avançar para um forno novo.  

Aos 26 anos, morre o tio e sobe a Presidente da empresa. Não tinha ainda 27 quando embarca no vapor para Moçambique, onde compra e refaz os Cimentos da Matola. Em escala passou por Angola e aí começou o projeto que concretizaria meia dúzia de anos depois: a cimenteira do Lobito. Aos 28 anos, pede a licença para abrir outra, desta vez perto da Beira. 

Era já um dos maiores industriais em Moçambique, e queria sê-lo também na metrópole: aos 32 anos, adquire a Fábrica de Cimento do M ondego. O grupo cimenteiro de António Champalimaud torna-se rapidamente o segundo mais influente, em número de trabalhadores e valor dos equipamentos, num Portugal tragicamente atrasado na industria. 

Aos 34 anos começa a batalha que considerou ter sido a mais dura e persistente da sua vida: a autorização para fazer a Siderurgia Nacional. 

Aos 36, abre o projeto da Siderurgia à subscrição pública. Acontece o impensável num Estado Novo oficialmente avesso ao risco: comparecem 8 mil acionistas.   

Aos 39 anos, obtém a licença contra ventos e marés: será o homem do aço e não apenas o rei do cimento.  

Aos 41, inaugura o maior forno do mundo. 

Aos 42, consciente das responsabilidades industriais e laborais que já tinha, percebe que necessita de seguros. Mas o dono da Confiança diz que só vende a companhia se Champalimaud levar também o Banco Pinto e Sotto Mayor. O salto é grande mas Champalimaud arrisca. 

Em menos de dez anos multiplica por dez o capital do Banco, abre balcões no país inteiro e em África, torna-se a maior entidade creditícia dos Planos de Fomento. Mais tarde, lançaria o primeiro cartão de crédito em Portugal.  

Ao mesmo tempo, com o concurso de 6000 operários a trabalhar a todo o gás, nasce uma cidade industrial no Seixal e a Siderurgia está pronta em 28 meses. 

Tinha pouco mais de 40 anos quando começa a Guerra em África. Champalimaud reafirma o investimento africano, criando outra fábrica de cimento em Nacala.  

Na mesma força de vida, expande-se para a fundição, a mecânica pesada, o papel e a celulose. Os investimentos faziam um todo lógico: a metalurgia para a siderurgia, a siderurgia para a economia, o papel para os sacos, os sacos para o cimento. 

Aos 47, abre por isso novas fábricas de papel em Angola e Moçambique.  

Conhece o Brasil em 1953. Não mais o largou: com 49 anos, a cimenteira de Minas Gerais está em processo de decisão. Importaria materiais e técnicos de Portugal. 

Aos 49, propõe-se fazer uma refinaria em Sines, apoiada num complexo petroquímico de 21 unidades industriais. O Governo de Marcelo Caetano decide fazer Sines mas veta expressamente António Champalimaud. 

Quando acontece o 25 de Abril, António Champalimaud tem 56 anos. Construíra uma fortuna que era a sétima maior da Europa. Será o último Português – até hoje - de quem tal coisa se pode dizer.  

Aos 57 anos, em pleno PREC, vê os seus ativos nacionalizados, os seus bens expropriados, as suas contas congeladas, os seus administradores presos.  

Dirá aos seus filhos: “teremos de recomeçar do zero”. Olha para o Estado como gatuno e exila-se no Brasil.  

Aluga umas águas furtadas no Rio de Janeiro e recomeçará.  

O mais impressionante da obra de António Champalimaud é que foi feita quase sempre pela pista de fora. Era temido no anterior regime e foi perseguido neste. Teve de se exilar duas vezes, primeiro no México para defender o seu nome, depois no Brasil, para escapar ao desvario revolucionário. A sua mentalidade nunca casou com os regimes em que lhe calhou viver: era investidor numa época de imobilismo; gostava de investir e não só repartir dividendos; tomava riscos a sério, em pleno Estado paternalista; queria industrializar e industrializar sempre mais, mas Salazar desconfiava disso; foi para África quando quase ninguém ia; e tornou-se o primeiro a defender a abertura ao Mercado Comum quando ficámos mais isolados; ia ver in loco como se tinham feito as grandes indústrias  americanas – por exemplo o complexo de Henry Ford em Detroit – numa altura em que se viajava pouco; acreditou sempre na liberdade económica, apesar do coletivismo ter decapitado o capitalismo português. Tinha visão, escala, ambição e arrojo.  

Por isso, chocou imensas vezes com vários defeitos das elites nacionais: a ideologia do “ser pequenino é que é bom”, a proteção descarada dos incumbentes, a inveja de qualquer riqueza - e aquela inclinação para criticar tudo o que é novo, contém diferença ou implica dimensão. Foi moderno antes do tempo, resistente em tempo de vésperas e três vezes pelo menos não se deixou derrubar mas levantou-se do chão. O condicionamento industrial, nome técnico de política económica do Estado Novo, disse-lhe várias vezes que não, atrasando o desenvolvimento. Morreu sem jamais compreender que ganhou o país com o “marxismo à portuguesa”, cuja política foi a de estatizar o que era nacional e com alguma sabujice deixar intocado o que era estrangeiro. Chorou quando viu pela última vez a bandeira portuguesa em Nacala. Do primeiro ao último dia viveu com a máxima que o definia: “se te fizeres de minhoca não estranhes que te esmaguem”. António Champalimaud foi ele próprio: não queria outra coisa senão existir por si e ser dono do seu destino.  

Quando o conheci melhor, já ele tinha voltado do Brasil - onde se tornara o empresário agro que melhor rentabilizava a terra - , e aceitava, com o freio nos dentes, pagar em concurso para reaver o que já tinha sido dele. Admirava Thatcher, Reagan, Deng Xiaoping e Sá Carneiro. Só o deixaram reconstruir o grupo financeiro, ele que era acima de tudo um industrial. Tinha uma indelével melancolia sobre África, ocorrendo-lhe que mais Antónios Champalimaud houvera, e o progresso traria desenvolvimento e com o desenvolvimento se faria o caminho sereno para Estados que, como lhe dissera um dia o Pai, “serão novos Brasis”. Não perdoava a descolonização como acontecera. Achava o país excessivamente deslumbrado com a Europa, ele que fora pioneiro a defendê-la; temia que os pilares do nosso sistema económico fossem engolidos por Espanha. Tendo sido dos raros Portugueses a recusar uma reunião com Salazar, e a cancelar outra com Marcelo Caetano, achava o primeiro íntegro e o segundo hesitante. “Respeito é uma coisa, pôr-me de cócoras é outra”, repetia, sem condescendência. Há quem diga que teve o pressentimento daquilo em que o sistema financeiro se viria a transformar e perto do fim, vendeu. 

No segredo de um testamento, tomaria a última e espantosa decisão que deixaria em desconfortável silêncio os seus vários inimigos. Usou a quase totalidade da parte disponível da sua futura herança, cerca de 400M€, para criar uma fundação que teria o nome do Pai e da Mãe, mas não administradores familiares, e seria dedicada à saúde, porque a saúde é transversal: atinge todos, portugueses ou estrangeiros, ricos ou pobres, crentes ou ateus, novos ou velhos. É essa Fundação, a Champalimaud, que entrega todos os anos o maior Prémio do mundo para reconhecer a ciência e a pesquisa no âmbito da visão, e conta com mais de 400 cientistas e investidores, no domínio do cancro e das neuro ciências. Silenciosamente, fazem recuar a dor e progredir a esperança.  

Em grande escala e sempre com inovação, como tudo na vida de António Champalimaud. 

 

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Eis os fatos mais relevantes da vida do industrial António Champalimaud, um século depois da data do seu nascimento:

  • António de Sommer Champalimaud nasceu a 19 de março de 1918. Foi o primeiro de quatro filhos do casal Carlos Montez Champalimaud e Anna de Araújo de Sommer;
     
  • O pai, Carlos Montez Champalimaud, era Oficial Médico Militar, grande proprietário, agricultor e viticultor na região do Douro. Pertencia a uma família de Fidalgos da Casa Real de origem francesa;
     
  • A mãe, Ana de Araújo de Sommer, era neta do barão Heinrich von Sommer e irmã de Henrique de Sommer, uma família alemã radicada em Lisboa, cuja principal atividade era o comércio de ferro;
     
  • António de Sommer Champalimaud estudou na Galiza, num colégio jesuíta. Aos 18 anos foi admitido no curso de Ciências Físico-Químicas da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa;
     
  • A morte do pai, aos 19 anos, leva-o a abandonar a faculdade e a tomar em suas mãos a tecnicamente falida empresa da família, a Companhia Geral de Construções;
     
  • Aos 22 anos, casa-se com Maria Cristina José de Mello, uma das herdeiras do grupo CUF, uma das maiores fortunas de Portugal, filha do presidente da CUF, D. Manuel Augusto José de Mello, com quem teria sete filhos;
     
  • Aos 24 anos, torna-se administrador da Empresa de Cimentos de Leiria, fundada pelo seu tio materno Henrique de Sommer e por Gastão de Benjamim Pinto;
     
  • O tio Henrique de Sommer morre em 1944 e deixa a António Champalimaud grande parte dos seus bens, que seriam os alicerces da sua fortuna;
     
  • Com crédito, Champalimaud constrói um verdadeiro império: compra a Cimentos Tejo, a Companhia de Carvões e Cimentos do Cabo Mondego e expande os negócios a Angola e Moçambique;
     
  • Em 1954, funda a Siderurgia Nacional, o maior empreendimento industrial até então criado em Portugal. No ano seguinte, o chefe do governo, António de Oliveira Salazar, concede-lhe o exclusivo da exploração, por dez anos, de vários minérios de ferro e aço;
     
  • Março de 1957 marca o início do que ficou conhecido como “Caso Sommer”, opondo António Champalimaud a outros herdeiros do seu tio Henrique;
     
  • No “Caso Sommer”, que irá durar mais de uma década, Champalimaud faz-se representar por advogados oposicionistas ao regime, casos do jovem Proença de Carvalho, Manuel João da Palma Carlos e Salgado Zenha, que anos depois seria um dos fundadores do PS;
     
  • Na década de 60, mesmo com o “Caso Sommer” a correr, Champalimaud - o industrial, como gostava de se apresentar - lança-se também nas finanças: compra a seguradora Confiança, o Banco Pinto & Sotto Mayor e passa a controlar também A Mundial e a Continental;
     
  • Em fevereiro de 1969, o industrial é avisado de que é alvo de um mandato de captura, no âmbito do “Caso Sommer”. Parte para o Alentejo com a filha, de onde o genro Luís Lino o conduzirá, numa avioneta, até Madrid. Daí, ruma ao México;
     
  • Em 1973, os tribunais ilibam António Champalimaud, que volta a Portugal;
     
  • Com a Revolução, cinco dias depois à saída de uma reunião com o general Spínola, António Champalimaud felicita “todos os que estiveram na base da gloriosa arrancada – o 25 de Abril de 1974”. Mas um ano depois, acaba por partir para o Brasil, quando as suas empresas são nacionalizadas;
     
  • António Champalimaud fixou-se no Brasil onde reergueu o seu império, primeiro através de atividades industriais que bem conhecia, como a produção de cimento, e mais tarde através da diversificação dos seus negócios para o setor agrícola e criação de gado;
     
  • Regressado a Portugal em 1992, compra 51% da Mundial Confiança, por 18 milhões de contos, o Banco Pinto & Sotto Mayor por 37,2 milhões de contos e assume o controlo dos bancos Totta & Açores e Crédito Predial Português, aproveitando o processo de privatização das empresas públicas levado a cabo pelo governo de Aníbal Cavaco Silva;
     
  • Em 1994, consegue comprar o banco Totta aos espanhóis do Santander, ultrapassando na corrida o seu ex-cunhado, José Manuel de Mello;
     

  • Cinco anos depois, Champalimaud negoceia com Emilio Botín, o banqueiro todo poderoso do Santander-Central Hispano, então o maior banco da zona euro. Vende-lhe 40% da holding financeira Munfinac, que controla a Mundial Confiança, o Banco Pinto & Sotto Mayor, o Crédito Predial Português, o Banco Totta & Açores e o banco Chemical. O industrial irá ficar com 1,6% do Santander;

  • O Governo do socialista António Guterres chumba o negócio. Champalimaud queixa-se à Comissão Europeia e será o ministro das Finanças, Pina Moura a conseguir um entendimento entre todas as partes envolvidas. O industrial deixa assim a banca, ao que se sabe, com um prémio de 300 milhões de contos, cerca de 1,5 mil milhões de euros, numa conversão simplesmente nominal;
     

  • António Champalimaud morre a 8 de maio de 2004, em Lisboa, vítima de um cancro;

  • No seu testamento, deixou um legado da sua fortuna para a criação, após a sua morte, da Fundação D. Anna de Sommer Champalimaud e Dr. Carlos Montez Champalimaud – designação escolhida em homenagem aos pais – para investigação científica na área do cancro.
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