Uma primeira rescisão na equipa de futebol do Sporting está confirmada, devido às agressões de que jogadores e técnicos foram alvo no dia 15, em Alcochete: o preparador físico Mário Monteiro confidenciou ao Jornal de Notícias sentir-se "inseguro e perseguido", "sem condições psicológicas para voltar à Academia".

Igualmente os restantes elementos da equipa de futebol do Sporting recusaram voltar ao local após as agresssões de que foram alvo, tendo preparado o jogo da Taça de Portugal, que perderam, sem ali treinar.

Da tarde de dia 15 sobrou também, entretanto, a prisão preventiva para 23 dos acusados por agressão, que irão responder, entre outros, pelos "crimes de sequestro, ameaça agravada, ofensa à integridade física qualificada" e até pelo incomum delito de "terrorismo".

Sucede que, já depois da tarde de pavor em Alcochete, elementos da equipa de futebol do Sporting se queixarama de persguição e novas ameaças, antes de irem apresentar queixa à GNR, onde os relatos feitos sobre o que se passou retratam momentos de pavor.

“O que é que queres, caralho?"

A página Tribuna Expresso, do jornal Expresso, revela esta quarta-feira, os depoimentos de jogadores e técnicos constantes nos autos da GNR, em que o uso de vernáculo por parte dos agressores é uma constante, tal como os atos violentos que terão sido praticados da Academia.

José Laranjeira, scout do Sporting,  contou que, na noite daquela terça-feira, já depois das agressões, "uma carrinha de mercadorias branca entrou no parque de estacionamento de uma grande superfície comercial, ponto de encontro de jogadores e técnicos", que se preparavam para ir prestar declarações no posto da GNR do Montijo.

Segundo relatou José Laranjeira, o condutor filmou a zona com um telemóvel e foi-se embora de seguida. A carrinha tinha a inscrição “entregas ao domicílio” e a matrícula foi transmitida à GNR.

Minutos depois, segundo conta o mesmo técnico. outro condutor de um Citroen C1 cinzento começou também a filmar os carros ali estacionados, quase todos de elementos do Sporting. José Laranjeira estava dentro do seu carro, abriu o vidro e perguntou ao homem de cerca de 35 anos o que estava a fazer.

O que é que queres, caralho? Põe-te mas é a andar”, foi a resposta agressiva que obteve, numa situação que terá sido também presenciada por Rodrigo Araújo, do gabinete de análise do Sporting.

"Vamos rebentar-vos a boca toda"

Nos autos a que a Tribuna Expresso teve acesso, produzidos após os depoimentos prestados  no Comando Territorial de Setúbal da GNR, técnicos e jogadores contam o que viram, sentiram e sofreram na tarde de 15 de maio, em Alcochete.

  • José António Laranjeira (Scout): "Murro na cara" de Jesus

    Contou que viu "cintos" e "um objeto cilíndrico" nas mãos dos invasores, que traziam máscaras de esqui, cachecóis e refere que Jorge Jesus foi agredido por trás com um "murro na cara". Depois, assistiu a uma conversa entre Jorge Jesus e William Carvalho com cinco dos invasores de cara descoberta, que terão dito: "Não era isto que pretendíamos, o nosso objetivo era falar com os atletas". Acha que William conheceria os indivíduos "membros da claque Juve Leo".

     

  • Gonçalo Aveiro (Fisioterapeuta): "Tocha acesa"

    O fisioterapeuta diz que viu um "indivíduo a atirar uma tocha acesa para o interior do balneário", embora não o tenha conseguido "reconhecer por estar de costas". Afirmou ainda  ter "conhecimento de que vários jogadores sofreram lesões provenientes dos ataques de que foram vítimas".

     

  • Ludovico Marques (Massagista): "Filhos da puta, joguem à bola"

    Ouviu  insultos como "filhos da puta, joguem à bola". Diz que "20 ou 30 indivíduos de cara tapada" entraram no balneário, quatro deles a "dirigirem-se a Acuña, agredindo-o com socos e pontapés". Disse ainda que viu Acuña "encolher-se em posição de defesa, encostado ao cacifo".

    William Carvalho também foi "cercado no meio do balneário por cerca de cinco indivíduos que o agrediram com vários socos, pontapés e a ser agarrado na cabeça e nos braços".

    Viu ainda "dois indivíduos a arremessarem duas tochas acesas, tendo uma delas sido enviada contra os jogadores e outra, colocada no caixote do lixo". Ouviu insultos e ameaças: "Vocês são uns filhos da puta. Cabrões. Montes de merda. Estão fodidos! Vamos rebentar-vos a boca toda".

     

  • Mário Monteiro (Preparador físico): Queimaduras no braço e barriga

    Uma tocha queimou-lhe o braço e a barriga. Depois, mostrou as queimaduras e falou com Fernando Mendes, antigo chefe da claque Juve Leo que lhe confessou não se rever no que se tinha passado.

     

  • Manuel Fernandes (Funcionário e ex-jogador): "A sangrar da cabeça"

    Antiga glória do Sporting referiu ter visto "30 indivíduos a dirigirem-se em corrida em direção ao balneário onde se encontrava a equipa de futebol". Viu "vidros e portas partidas", objetos nas mãos dos invasores e no "interior do balneário" olhou para Bas Dost "a sangrar da cabeça, ostentando diversas marcas".

     

  • Bas Dost: "Em estado de choque"

    Avançado holandês referiu que primeiro passaram dois grupos de homens por ele (um composto por dois, outro por seis indivíduos) sem que nada acontecesse. Depois, um encapuzado deu-lhe com um cinto na cabeça que "o fez cair no chão", onde continuou a ser agredido pelo mesmo indivíduo e tamabém por um outro. Confessou ter "ficado em estado de choque".

     

  • Acuña: sabiam onde morava e que devia ter cuidado

    Jogador da seleção argentina referiu que o grupo tentou fechar a porta do balneário aos invasores, sem o conseguir, porque invasores eram "cerca de 50 elementos que trajavam roupas escuras e alusivas ao Sporting Clube de Portugal, todos de cara tapada, que rapidamente forçaram a entrada"

    Acuña confessou que "sobre ele caíram cerca de 5 a 6 meliantes que o agrediram fisicamente com murros na zona da cabeça e corpo". Disseram-lhe que sabiam onde morava e que devia ter cuidado.

     

  • William Carvalho: "Socos na zona do peito"

    Médio da seleção portuguesa referiu à GNR que "foram lançadas várias tochas de fumo, ouviu gritos". Disse que foi "agredido por três indivíduos com socos na zona do peito". Afirmou ainda que "teve conhecimento pelo seu colega de nome Rui Patrício que já existiram situações passadas de ameaças de adeptos aos jogadores da equipa".

     

  • Battaglia: "Ameaçaram-no de morte"

    Jogador argentino declarou ter visto os "indivíduos irromperem pelo balneário [...] a perguntar onde estava o Battaglia. Quando o visualizaram, dirigiram-se à sua pessoa cerca de cinco a seis indivíduos que o ofenderam verbalmente, ameaçaram-no de morte". Enquanto era insultado, Battaglia foi agredido com "murros na face, ombro direito e tronco e ainda, enquanto estava a tentar proteger-se, foi atingido na cintura e costas com um garrafão de 25 litros de água que lhe provocou fortes dores".

     

  • Misic: cinto na cabeça

    Médio croata contou que foi agredido com um cinto na cabeça por um indivíduo corpulento de 1,80 metros.

     

  • Bruno César: "Grupo atuou sempre em bloco"

    Jogador brasileiro espreitou por uma janela do balneário e viu um grupo de indivíduos de cara tapada e com cores do Sporting. Não foi agredido, mas viu William e Battaglia a levarem socos e bofetadas. Tentou socorrer os colegas e foi ameaçado de morte. Disse à GNR que "o grupo atuou sempre em bloco, com alguma organização, presumindo que tais atos foram premeditados, barrando claramente a tentativa de fuga dos atletas para o exterior".

     

  • Freddy Montero: "Onde está o Acuña e o Battaglia?"

    Jogador colombiano disse que "os indivúdos forçaram a entrada no balneário ao mesmo tempo, dispersaram-se do mesmo, arremessaram vários artigos pirotécnicos, entre os quais bombas de fumo e tochas".

    Montero recorda-se ter ouvido "onde está o Acuña e o Battaglia?", entre insultos. Também ele foi depois agredido com duas estaladas e acha que teria sido "mais agredido" se o colega Palhinha não se tivesse agarrado a ele, para o proteger.

     

  • Fábio Coentrão: "Maior grau de violência"

    Defesa do Real Madrid diz que não foi agredido mas viu os seus colegas serem alvo de agressões. Disse que grupo de agressores atuou sempre "em bloco, com uma certa orientação e organização, presumindo que tais atos foram premeditados". Fábio disse ainda temer "pela continuação de tais atos ou até de maior grau de violência".

     

  • João Palhinha: "Tochas a arder"

    Jovem médio diz que espreitou pela janela e "viu um grupo de cerca de 20 a 30 indivíduos invasores entrarem a atirar tochas a arder, a revoltar o balneário, a ameaçar e a agredir alguns colegas, nomeadamente Battaglia, William, Acuña e Montero".

     

  • Ristovski: "Condicionado na sua vida por este medo"

    Defesa macedónio viu Acuña e outros colegas serem agredidos. Sentiu-se aterrorizado e impotente para reagir. Disse ainda "sentir receio que esta situação se volte a repetir, quer no seu local de trabalho quer na sua vida particular, sentindo-se assim condicionado na sua vida por este medo".

     

  • Rúben Ribeiro: "Não ganham a Taça estão fodidos"

    Médio disse ter sido avisado por André Pinto que vinham ali "uns mascarilhas". Diz que "viu então o segurança da Academia de nome Ricardo tentar fechar a porta, tentando ainda opor-se à entrada dos suspeitos, não conseguindo em virtude de ser empurrado".

    Assistiu às agressões a Acuña e ouviu ameaças como esta: "Se não ganham a Taça estão fodidos".

     

  • Piccini: "Bastante barulho"

    O defesa estava em tratamento no departamento médico. Ouviu "bastante barulho" junto ao balneário. Viu as agressões a Battaglia e a William Carvalho, sentiu medo e pânico, mas não foi agredido.

     

  • Salin: "Tira essa camisola, vamos foder-te!"

    Guarda-redes diz que o grupo de invasores entrou agressivamente no balneário, lançando tochas de fumo, gritando e ameaçando William e Rui Patrício: "Tira essa camisola, vamos foder-te! Há tempo que queres ir embora, tira essa camisola, não te queremos mais aqui".

    Diz que não foi agredido e tentou evitar "agressões a William e a Rui Patrício" e que temeu "pela sua própria vida".

     

  • Doumbia: "Insuportável nuvem de fumo"

    Avançado da Costa do Marfim disse que os invasores procuravam William Carvalho e Rodrigo Battaglia. Acrescenta que o ameaçaram e lançaram vários engenhos pirotécnicos, "provocando um intenso cheiro a queimado e uma insuportável nuvem de fumo no edifício, deflagrando o alarme de incêndio no balneário, provocando o pânico entre os presentes".

     

  • Gelson: "Um efeito de chicote"

    Extremo da selação nacional disse que invasores entraram e agrediram Acuña "com as palmas das mãos abertas".

    Foi perceptível verificar um indivíduo com um cinto na mão direita, sendo que a parte da fivela se encontrava em efeito de pêndulo, para aquando de um movimento brusco a mesma efetuar um efeito de chicote".

    Gelson afirmou que temeu pela vida e que os agressores estavam "direcionados para os atletas Acuña, Rui Patrício, William e Battaglia".

     

  • Bruno Fernandes: "Agredido com chapadas"

    Médio da seleção estava ao lado de William e foi empurrado pelos invasores. Diz ter sido "cercado por vários indivíduos" e depois "agredido com chapadas". Depois, "viu Battaglia, Acuña e Rui Patrício a serem também cercados e agredidos por vários indivíduos".

     

  • Petrovic: "Murro nas costelas"

    Jogador sérvio disse à GNR ter sido agredido com um "murro nas costelas".

     

  • Daniel Podence: "Cinto na face"

    Jogador português descreve que o segurança da Academia tentou suster o avanço dos invasores com outros elementos do Sporting. Dentro do balneário, diz que os agressores começaram a agredir quem apareceu pela frente, sendo que William se levantou para tentar acalmar os ânimos. "Nesse mesmo instante, William foi rodeado por três ou quatro indivíduos. Viu ainda Misic ser agredido com um cinto na face".

    Daniel Podence garante que Acuña e Battaglia estavam sinalizados pelo grupo que invadiu Alcochete e que foram socados e pontapeados.

     

  • Lumor: "Implorado para que os mesmos parassem"

    Defesa ganês ouviu gritos e "apercebeu-se que começaram a entrar vários indivíduos com o rosto coberto por máscaras e camisolas impedindo assim que fossem reconhecidos". Disse que não foi agredido, mas viu "alguns dos seus companheiros a serem agredidos pelos indivíduos que se encontravam no interior do balneário, tendo inclusivé implorado para que os mesmos parassem, mas sem sucesso".