Nicolau Breyner, que faleceu esta segunda-feira, podia ter sido advogado ou diplomata. Podia ter sido qualquer um deles na vida real, mas escolheu ser ator e desempenhar esses papéis e muitos mais. Da maioria do público português ficou conhecido como o “João Gadunha”, da novela Vila Faia, a primeira telenovela portuguesa, da qual foi coautor.

Ator "por acaso", guionista, produtor, realizador. Nicolau Breyner tinha uma versatilidade enorme, do drama à comédia, do teatro ao cinema, à televisão. E até à política, quando se candidatou à Câmara de Serpa, nos anos 90.

João Nicolau de Melo Breyner Moreira Lopes, nascido em julho de 1940, alentejano precisamente de Serpa, veio para Lisboa com os pais ainda criança. Com ascendência aristocrática, tinha para si traçado um outro caminho, mas desistiu do curso de Direito para ir para o Conservatório. Primeiro o canto e depois o teatro.

O filho dos senhores da terra que foi mordomo

Meus senhores... A missão do ator é simplesmente emocionar as pessoas. Levá-las ao riso ou às lágrimas. Fazer com que nos odeiem ou nos amem. Enfim... É fazê-las sonhar. Quando isso acontece, a vossa missão está cumprida”, lê-se no cabeçalho do site da escola de atores NBAcademia. 

A frase é de Nicolau Breyner. A missão está cumprida. 

O filho dos senhores da terra, que virou mordomo em “Gente Fina é outra coisa”. Nicolau Breyner era o mordomo da comédia da RTP, do início da década de 80, em que contracenou com Amélia Rey Colaço e Ruy de Carvalho. Em entrevista ao Público, em 2010, explicou o que tinha sido a sua vida até aí. “É tudo isso, com uma grande história em Lisboa, com copos, com não sei quantos casamentos, tudo isso faz parte de mim. Não sou uma coisa, sou várias coisas.” Nicolau Breyner reconhecia os excessos, mas nos últimos anos tinha cortado com a bebida.

Nicolau Breyner, o Nico como lhe chamavam muitos, um “Nico d’obra”, com muitas obras. Consta ainda do elenco da nova novela da TVI, em filmagens, "A Impostora". O seu último trabalho, já em 2016. O primeiro chegou muitas décadas antes, quando tinha cerca de 20 anos, a estreia no Teatro da Trindade. Tudo o que fica pelo meio é uma lista qua parece não ter fim. “Jardins Proibidos”, “Meu Amor”, “Remédio Santo”, são algumas das últimas novelas da TVI em que participou. No cinema assinou, em 2014, a “Teia do Gelo”. “A Bela e o Paparazzo” ou “Call Girl”, são só alguns dos últimos trabalhos, de uma participação na sétima arte que recua até 1961.

Pai serôdio e a ideia de finitude

Trabalhou até ao fim. Não parou nem quando foi surpreendido por um cancro na próstata, que superou. “O que o cancro me deu foi a certeza de que isto ia acabar mais cedo ou mais tarde. Acelerou a sensação de que a vida tem um fim. Já não há a noção de imortalidade que temos aos 30, 40 anos. O fim está mais próximo do que estava há 10 anos”, disse, na entrevista a Anabela Mota Ribeiro, por altura dos seus 70 anos.

Mas a vida deu-lhe muito e até tarde. Uma vida cheia, Nicolau Breyner só foi pai quase aos 50 anos. Deixa duas filhas, Mariana e Constança. Foi casado três vezes. Nicolau Breyner tinha, a propósito dos 50 anos de carreira e 70 de idade, um amor à vida.

“O entusiasmo. A necessidade de inovar e começar coisas novas. O amor à vida. O sentido da beleza. A vontade de sonhar, que ainda não passou. Se é que tenho qualidades, essa é uma delas. Quando tomo conta de um projeto que me agrade, sou outra vez um miúdo de 20 anos”, disse ao Público o homem que era líder, mas que confessava ser tímido.

Entrevistado pelo Presidente da República

Distinguido em 2005 com a Ordem de Mérito, como recorda a Lusa, Nicolau Breyner desejava ver no Alentejo a criação de uma estrutura profissional de captação de produções de cinema para a região, que nunca foi completamente concretizada.

“Nicolau Breyner, por que é que não envelheces?”, perguntou-lhe Marcelo Rebelo de Sousa, agora Presidente da República, numa entrevista, na TVI, em 2012. O ator respondeu-lhe:

Eu não me dou mal com ninguém. Nem comigo. Acho que isso é fundamental.” No rescaldo do 25 de Abril, vestiu a pele de “Sr. Contente”, feliz num trabalho conjunto com Herman José. 

Nicolau Breyner levava mais de meio século dedicado aos palcos. Um “Show Nico” que se despede aos 75 anos. Ator morreu esta segunda-feira. Deixa muitas memórias no panorama audiovisual português. No final de 2015, numa entrevista na TVI, a Judite de Sousa, Nicolau Breyner confessou:

Quando se chega à minha idade tem-se saudade inclusive das coisas más. Não é só das boas. Porque, no fundo, temos saudades de nós próprios.” 

Nicolau Breyner deixa um legado e saudades, no público e naqueles que trabalharam com ele. "É um choque muito grande, Nicolau Breyner faz parte da vida de muitas gerações de portugueses", disse à TVI José Eduardo Moniz.