O argumentista Carlos Saboga estreia, na quinta-feira, em Portugal, a segunda longa-metragem que realizou, "A uma hora incerta", um filme que remete para as memórias de infância do autor, no tempo do Estado Novo.

A ação do filme decorre em Lisboa, nos anos 1940, durante a segunda Guerra Mundial, e assenta em duas histórias: a da obsessão de uma adolescente pelo pai, inspetor da PIDE, e a da prisão de dois franceses, que procuram refúgio em Portugal.

" A uma hora incerta" é uma ficção, mas tem uma relação estreita com as memórias de Carlos Saboga, argumentista de 78 anos, nascido na Figueira da Foz, que vive fora de Portugal há cinquenta anos.
 

"O cinema tem uma relação estreita com a infância. Não é tanto 'decidi fazer cinema'. O cinema caiu-me em cima. Ia muito ao cinema quando era miúdo e começou no período da guerra... Vi vários filmes que me marcaram, que se passavam na Segunda Guerra Mundial. Foi a recordação disso. Quando pensei na história, pensei nisso", contou à agência Lusa.


Carlos Saboga tem o nome associado sobretudo à escrita de argumentos no cinema português, tendo participado, por exemplo, em "O lugar do morto", de António-Pedro Vasconcelos, "Adeus princesa", de Jorge Paixão da Costa, e, mais recentemente, na adaptação para cinema de "Mistérios de Lisboa", de Raoul Ruiz.

Ainda assim, Carlos Saboga diz que o que mais gosta no cinema é a realização e lamenta não ter persistido na ideia de o fazer mais cedo. "A escrita de argumento é a solidão, estar sozinho a escrever. E a realização é uma coisa coletiva, com a contribuição dos outros".

Apesar da ligação ao cinema português, Carlos Saboga ainda hoje não tem uma relação fácil com o país.

Os pais, ligados ao PCP, viveram na clandestinidade durante o Estado Novo, estiveram presos e ele próprio também esteve detido. Assim que conseguiu, saiu de Portugal, viveu em Itália e na Argélia, e fixou-se em França, onde casou e obteve nacionalidade francesa.
 

"Não tenho ressentimentos, mas o país na altura, a primeira coisa que queria era fugir daqui assim que pudesse. (...) O país era meu inimigo, por causa das histórias da minha família", contou.


Fez "A uma hora incerta" em Portugal, com produção de Paulo Branco e elenco português, por razões económicas, com um baixo orçamento, mas mantém um olhar à distância sobre o que se passa em Portugal.

"Por isso é que o passado também se impõe [nos filmes]. Porque há coisas que não estão resolvidas", disse, acrescentando: "Estou muito ligado ao cinema americano dos anos 1940 e 1950. Foi a minha escola. Se tivesse que escolher uma pátria – sinto-me estrangeiro em toda a parte – seria o cinema".

"A uma hora incerta", que Carlos Saboga fez depois de "Photo" (2013), conta no elenco com Joana Ribeiro e Paulo Pires, e estreia-se nos cinemas acompanhado da curta-metragem "O coro dos amantes", de Tiago Guedes, com Gonçalo Waddington e Isabel Abreu.

A propósito da estreia da longa-metragem, o cinema Nimas, em Lisboa, acolherá alguns dos filmes portugueses nos quais Carlos Saboga participou como argumentista, como "Jaime", de António-Pedro Vasconcelos, "Milagre segundo Salomé", de Mário Barroso, e "Mistérios de Lisboa", de Raoul Ruiz.