Cineastas moçambicanos recordaram à agência Lusa o «decano» do cinema moçambicano José Cardoso, falecido na sexta-feira em Maputo, como um «poço de conhecimentos sobre cinema», e expressaram «a frustração» pelo declínio do setor no país.

Natural de Figueira de Castelo Rodrigo, Portugal, e farmacêutico de profissão, José Cardoso, que chegou a Moçambique com nove anos, morreu aos 83 anos, na sexta-feira, vítima de doença, deixando a sétima arte moçambicana «órfã» do pai da longa-metragem feita totalmente por moçambicanos.

Reagindo à Lusa sobre a morte do cineasta, Camilo de Sousa recordou o colega como «uma fonte de conhecimento sobre cinema», que, mesmo retirado devido à idade, continuava atento ao que se passa na área.

«É uma perda grande para o cinema moçambicano, porque José Cardoso era o nosso decano, que impulsionou momentos muito importantes da vida do cinema moçambicano, como a primeira longa-metragem feita totalmente por moçambicanos - "O Vento Sopra do Norte" - e o projeto Cinema Móvel, que permitiu que o cinema chegasse a todo o país», disse Camilo de Sousa.

O produtor de «Gotejar da Luz» lembra que o falecido cineasta viveu os últimos anos da sua vida «amargurado» com a irrelevância a que foi votado o Instituto Nacional de Cinema, uma entidade estatal que ajudou a criar e promover, e a falta de apoios ao setor.

«Nem reforma de sobrevivência tinha, mesmo depois do papel central que teve no desenvolvimento cinematográfico do país. Não escondia a sua frustração por tudo isso», disse Camilo de Sousa.

Para o secretário-geral da Associação Moçambicana de Cineastas (AMOCINE), Gabriel Mondlane, José Cardoso era um lutador pela causa do cinema moçambicano, pois envolveu-se em projetos que deram grande visibilidade ao cinema produzido no país.

«É impossível falar do cinema moçambicano e não pensar em José Cardoso, porque esteve em todos esses momentos marcantes, através de filmes e projetos. Era a nossa fonte de conhecimento», disse Gabriel Mondlane.

O produtor de «Silêncio de Mulher» lamenta igualmente «a guerra frustrante» que José Cardoso ajudou os seus colegas a travar pela dignificação do cinema moçambicano.

«Criou-lhe uma frustração enorme quando começou a perceber que a semente que ajudou a lançar para que Moçambique fosse uma referência internacional no cinema não está a dar frutos», disse o secretário-geral da AMOCINE.