«De um marido tudo se espera, mas de um banco nunca esperei». É assim que Isabel P., resume a sua situação após meses à espera de reaver as poupanças que garante ter aplicado num depósito a prazo no BPP.

Administração defende que «há outras alternativas»

«Só quero que me vão liquidando um pouco de dinheiro de cada vez. Todo o meu pé-de-meia está aqui, além disto só tenho uma conta corrente num outro banco onde tenho 750 euros», afirma, chorando, a empresária de 46 anos, cliente do BPP.

Contas «congeladas»

Isabel exibe um documento do banco, acabado de lhe ser entregue e assinado pelo gerente de conta de há anos, onde os 98 mil euros que tem no BPP são descritos como «depósitos à ordem». À ordem, mas sem um único cêntimo disponível para entrega.

Com uma filha de 11 anos, Isabel diz ter dois meses das rendas de casa e de uma loja em atraso, num total de 2.600 euros, e estar «na eminência de ficar sem carro».

Rendas em atraso e quase a perder o carro

E garante que, depois de um divórcio conturbado em que terá perdido largos milhares de euros, nunca teria aplicado em produtos de risco as poupanças que colocou no BPP.

«De um marido tudo se espera, mas de um banco nunca esperei. Sei que apliquei o meu dinheiro numa coisa fixa, sem risco», sustenta com veemência, para depois acrescentar, já sem a mesma certeza, que «o gerente de conta diz que quando o problema ficar resolvido vou receber tudo, até porque o Governo assegura depósitos até 100 mil euros por cabeça, caso o banco vá a falência».

BPP: administração volta a adiar reunião

Junto às traseiras da sede do BPP, no Porto, onde aguardavam uma reunião com a nova administração do banco, que o BPP adiou pelo segundo dia, algumas dezenas de clientes da zona Norte partilhavam histórias e, sobretudo, receios.

Garantem que o BPP «não é o banco dos ricos», mas que «há de tudo» e que são muitos os casos onde ali se faz «gestão de poupanças, não de fortunas».

BPP «não é o banco dos ricos»

O empresário Cardoso nem precisa de ver o extracto para saber quanto dinheiro tem. «Estou falido». Sem as poupanças que diz ter aplicado a prazo, num depósito «sem qualquer risco».

«Disseram-nos que era uma aplicação a prazo, com capital e juros garantidos. No documento que nos entregaram em nenhum lado diz ser um depósito a prazo, mas refere que o capital é garantido a 100 por cento na maturidade. Agora, a gestora de conta diz-me que, afinal, era uma aplicação de risco e que não sabe quando poderei receber o meu dinheiro», afirmou em declarações à agência Lusa.

Alexandre Silva, empresário, não quer dar a cara na televisão para não denunciar aos trabalhadores da sua fábrica o desalento que o domina.

«Gestão de poupanças e não de fortunas»

«Muitos são os empresários que estão falidos e não podem tirar dinheiro daqui para pagar salários ou capitalizar a empresa», assegura, reiterando que no BPP se fazia, sobretudo, «gestão de poupanças e não de fortunas».

«Temos o mesmo direito que os clientes do BPN. Se há um supervisor [da actividade bancária] o que é que está a fazer», sustenta, reclamando responsabilidades do Estado português no problema.

Disponíveis para, na impossibilidade de receber de imediato a totalidade do capital aplicado, tomar posse dos títulos onde foi este foi investido ou ir recebendo em prestações o montante devido, os clientes do BPP apenas exigem «o compromisso ou de uma entidade reguladora ou de um banco sério. Se é o que ainda os há».