O Bloco de Esquerda acusou o Governo português de funcionar como «escudo humano» da política da chanceler alemã Angela Merkel, ao recusar qualquer debate europeu sobre a reestruturação da dívida.

Numa declaração política na Assembleia da República, o deputado do BE Luís Fazenda criticou o executivo português, e também o espanhol, por posições que classificou de «resistência» às propostas do novo Governo grego para uma conferência europeia sobre a reestruturação das dívidas soberanas.

«A senhora Merkel por interpostas pessoas e Estados - Portugal e Espanha - está a encontrar um escudo humano para as negociações na União Europeia», acusou Fazenda, considerando «lamentável» que exista em Portugal uma maioria que transforme o país «num escudo humano contra a reestruturação da dívida».

«Portugal germanófilo: é hoje isso a que nós assistimos», disse.

O PS, pela voz do deputado Vitalino Canas, registou que o BE nada disse sobre «alguma evolução que o Governo grego tem vindo a fazer sobre a dívida», e que classificou de sensata, mas concordou com Luís Fazenda na avaliação do papel do Governo português.

«O Governo grego está a ter um contributo que me parece útil e devemos aproveitá-lo. Parece de todo desajustada a posição do Governo português de não estar a acompanhar este debate que está a acontecer na Europa», defendeu.

                 

Ainda sobre a situação europeia, o líder parlamentar do CDS-PP, Nuno Magalhães, considerou que, nos últimos dias, «tem mudado mais o Syriza do que a Grécia» mas desafiou Fazenda a comentar declarações do ministro das Finanças grego que, no passado, terá dito que as taxas de juro em Portugal deveriam aumentar.

«Isso significa mais austeridade para os portugueses: de que lado está?», desafiou Nuno Magalhães.

Na resposta, o deputado do BE lembrou que as afirmações de Yanis Varoufakis foram proferidas quando era apenas um académico.

«O que foi dito à época foi que se existisse uma situação de cerco à Grécia e de poder impedir a liquidez nos circuitos europeus e isso aumentasse juros de um conjunto de Estados-membros, incluindo Portugal, isso aumentaria o conflito a nível europeu», referiu.

Numa declaração política que tinha como tema central a pobreza, Fazenda citou números como os do recente relatório do Instituto Nacional de Estatística (INE), dizendo ser inegável o aumento das desigualdades em Portugal.

«Acerca disso, o primeiro-ministro disse que se tratava de um eco do passado, tudo indica que em 2013 e em 2014 as circunstancias se agravaram, do ponto de vista das prestações sociais, da dificuldade do emprego», contrapôs Fazenda.

Estas afirmações foram apoiadas pelo deputado do PCP Jorge Machado que acusou o Governo de montar «uma autêntica linha de propaganda, mas uma propaganda feita como um castelo de cartas», apontando como exemplo tanto os dados sobre a pobreza como os números de hoje, relativos ao desemprego, que apontaram para uma subida em relação ao trimestre anterior.

Pela maioria, a deputada do PSD Mónica Ferro sublinhou que o PSD «nunca negou que a crise tinha consequências nos portugueses» mas garantiu que «é um desígnio social-democrata» melhorar estes valores, enquanto Nuno Magalhães salientou a descida anual do desemprego.

Luís Fazenda referiu-se ainda ao caso da morte de um doente com hepatite C pela demora na disponibilização de um medicamento, considerando «grave» que o Estado possa levar dez meses para responder à situação de um medicamento inovador que podia salvar vidas.

Sem se referir a casos concretos, o socialista Vitalino Canas considerou que «existe um padrão de comportamento do Governo» de «cortes cegos» e que resultou em problemas quer no Serviço Nacional de Saúde, quer na colocação de professores, quer no sistema informático Citius.