O acidente de viação que ocorreu na França na noite de dia 24 para 25 de Março tem estado no centro da atenção dos portugueses durante esta semana. O embate deste evento foi tal que ele continuou a sobressair no contexto das notícias dos últimos sete dias até hoje. Muitas vezes, as notícias que se colocam no topo do barómetro são as mais recentes, mas desta vez não. E isso tem muitas coisas para dizer sobre o significado que a morte de 12 emigrados portugueses residentes na Suíça e a caminho para Portugal, onde deviam passar as férias de Páscoa, tem para o país.

Parece uma daquelas histórias do neorrealismo, um conto amargo dos anos Cinquenta. Mas não, é uma história verdadeira de 2016, a qual abre de repente um rasgo sobre uma realidade – o aumento exponencial da emigração nos anos da austeridade – que muitos de nós apenas conhecem através das estatísticas. É uma coincidência que tem algo de simbólico o facto que este evento tenha ocorrido poucos dias antes da promulgação do orçamento de estado de 2016, outra notícia com importante destaque no barómetro.

Este orçamento é o primeiro a inverter o ciclo da austeridade em Portugal desde 2010. E é uma experiência única na Europa que esta viragem seja guiada por um governo deste tipo e liderado por um partido ‘mainstream’, termo ‘académico’ que não implica acepções negativas. Poderá isso dar maior legitimidade às instâncias anti-austeritárias ao nível da União Europeia? Poderá esta experiência de governo ser de ‘modelo’ para experiências parecidas?

Enfim, há um ator que nunca sai da cena dos nossos barómetros há semanas, e é o terrorismo. E é difícil acrescentar algo a tudo o que se tem dito até aqui sobre ele e sobre a amplificação mediática do terror que o acompanhou.

 

 

Não foi notícia: Longe da vista

Vários atentados bombistas têm preenchido as notícias nas últimas semanas. Mas se o duplo atentado em Bruxelas teve grande destaque nos media portugueses e eco nas redes sociais, o mesmo não aconteceu esta semana com a explosão junto a um parque infantil em Lahore, Paquistão. Nem o facto de terem morrido 72 pessoas, na maioria mulheres e crianças (29), fez virar as indignações para o oriente. O mesmo já tinha acontecido com o atentado em Istambul da semana passada (cinco mortos). Nos media, a lei da proximidade diz que um morto em Portugal é mais relevante para os portugueses do que mil na China. Mas, perante questões globais como o terrorismo, será que não está na altura de atualizar esta prática? M.C.

Tema emergente: Não é mentira é o congresso do PSD

Depois da preocupação em saber se o orçamento de 2016 seria ou não aprovado no dia 1 de Abril temos agora o congresso do PSD a iniciar-se no dia das mentiras. O Presidente da República não promulgou o orçamento a 1 de Abril, nem ele entrou em vigor nessa data porque o dia 1 de Abril ganhou força política. Por sua vez, este congresso do PSD não é mentira, é real, mas tem algumas particularidades que quase parecem mentira. A primeira é Passos Coelho. Não é normal líderes que não ganham serem reeleitos no congresso seguinte - na política ganhar é governar e perder é não governar, mas a persistência pode por vezes ser recompensada.  A segunda é Rui Rio, que não estará presente embora seja oposição - mas, por vezes, na política dizer-se que não se estará dá mais capital político do que estar. Por último, este congresso não tendo a presença de Marcelo Rebelo de Sousa faz com que quase pareça mentira que haja um congresso do PSD. Gustavo Cardoso


Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra de 414 notícias destacadas diariamente em 16 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 3 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN, DN e Jornal i), as 5 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 5 primeiras notícias nos jornais televisivos das 20 horas (RTP1, SIC e TVI) e as 3 notícias mais destaques nas páginas online de 5 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, SOL, TVI24 e SIC Notícias.