Bem nos avisava o sempre avisado Eça da “abominável influência da distância no nosso imperfeito coração”. O texto, escrito em 1907, reporta-se a um contexto social e de sociabilidades que praticamente não tem correspondência nos tempos que correm: “Na doce indolência do tépido serão de maio” escreve Eça, uma senhora lia, em voz alta, as notícias do “jornal que o criado trouxera”. Embora já não se organizem serões em que alguém lê em voz alta as notícias do jornal para uma pequena assembleia reunida na sala de estar (jornalistas, locutores e pivots vieram ocupar esse lugar nas rádios e nas televisões), a cinematográfica descrição que Eça faz das reações dos presentes ao alinhamento de notícias que vão sendo lidas continua muito atual. Um “terramoto em Java” com milhares de mortos e “cheias na Hungria” são acolhidos com indiferença; uma “greve na Bélgica” com repressão policial suscita alguns murmúrios; “um trem descarrilado” no sul de França, “na fronteira da nossa península”, inquieta alguns dos convivas que perguntam se há notícia de portugueses entre as vítimas. E é então que, subitamente, uma onda de comoção e alvoroço se apodera da leitora e dos seus convidados perante a notícia de que a “Luísa Carneiro, da Bela-Vista… Esta manhã! Desmanchou um pé!”. Os dados semanais do Barómetro de Notícias parecem mostrar que, apesar das profundas  mudanças de contexto social e de sociabilidades e apesar das radicais alterações na paisagem tecnológica, a nossa relação com as notícias e, mais concretamente, a relação entre proximidade (geográfica, cultural, afetiva) e acontecimentos noticiados não terá mudado asim tanto. Continuamos a emocionar-nos, sobretudo, com o “pé desmanchado” da Luisinha. Os destaques noticiosos desta semana parecem confirmar isso mesmo.

O futebol, por coincidência um desporto que se joga com os pés, embora às vezes também com a mão e com os braços, ficou, mais uma vez, em primeiro lugar no pódio do Barómetro. Com um Campeonato renhido como já não se via há vários anos e a entrar na fase final, as lesões e castigos de jogadores, em especial  os que são influentes nas respetivas equipas, ganham outra importância e dramatismo. Joga-se com intensidade dentro e fora de campo, em particular nas conferências de imprensa com treinadores. Num dos jogos mais importantes da jornada da semana anterior (Benfica-Porto) houve incidentes entre adeptos (ao que parece do Benfica) no final do jogo. Um sinal preocupante, a meu ver, numa fase do campeontato em que os candidatos ao título irão disputer cada jogo como se de uma final se tratasse.

Em segundo lugar, praticamente empatada com o Futebol, surge esta semana a política nacional à custa do  Programa de Estabilidade que, por vezes, se misturou com a estabilidade da governação. Tendo um ciclo mais longo do que o de um anual Campeonato de futebol, a política nacional está, coincidentemente, a entrar na reta final para a meta das eleições legislativas de 2019. Costa surgiu nas televisões a apertar a mão a Rio no final da assinatura de um acordo entre PS e PSD sobre o qual pouco ou nada se sabe. Os partidos que suportam a maioria parlamentar deixam avisos mais brandos (Bloco) ou mais duros (PCP) sobre este namoro. Veremos até quando Costa conseguirá piscar os olhos e fazer charme para a sua direita e, simultaneamente, continuar de mão dada com os parceiros à sua esquerda. Imaginem os cartoons picantes que o José Vilhena, se fosse vivo, faria à conta deste “ménage à quattre”.

A grande distância dos destaques sobre futebol e política nacional surge, esta semana, a Síria e isso graças ao ataque realizado pela coligação EUA-França –Inglaterra em retaliação pelo suposto uso de armas químicas por parte do regime de Asssad. O que se está a passar na Síria é bem o sintoma do complexo e nebuloso contexto geopolítico contemporâneo com  a Rússia no terreno a apoiar o regime de Assad, as estranhas relações entre Trump e Putin, a posição da Tuquia que agora combate e dizima as milícias curdas que combateram o Estado Islâmico. A Síria transformou-se num intrincado puzzle onde forças regionais e globais jogam os seus interesses e a população civil vive o inferno. É terrível a “abominável influência da distância no nosso imperfeito coração”.

 

Ficha técnica:

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Sofia Barrocas e Inês Balixa. Apoios: IPPS-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de aproximadamente 413 notícias destacadas diariamente em 17 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 4 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN e DN), as 3 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 4 primeiras notícias nos jornais das 20 horas nas estações de TV generalistas (RTP1, SIC, TVI e CMTV) e as 3 notícias mais destacadas nas páginas online de 6 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, Observador, TVI24, SIC Notícias e JN.