Quando me perguntam que notícias estão sempre no "Top 10" em Portugal, costumava dizer: futebol, o tempo e, depois, as más notícias da semana ou, na falta delas, alguma polémica política. 

Costumava, pois em 2016 o estado do tempo tem alternado com o tema "bancos" e, para não fugir às tendências de 2016, a banca continua a ter um forte peso nos temas desta semana.

Após seis meses de governação daquilo a que em Portugal nos habituámos a designar "geringonça" e na Europa dizem ser partido socialista, bloco de esquerda, partido comunista e verdes, eis que o peso dos bancos continua a condicionar a sua governação e, até, o que a oposição pode fazer ou dizer. 

Senão vejamos, o sucesso maior ou menor das medidas do governo foi esta semana enquadrado pelo défice ocorrido em 2015, ligado ao "salvar" do Banif, e pelo défice previsto para 2016, onde continuará a pesar tudo o que já se gastou na banca, desde os empréstimos garantidos pelo estado via Troika, o BPN, o BPP, o Banif, o que não sabemos do Banco Espírito Santo (Novo Banco), juntando-se a recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e o que ainda pode acontecer em ajudas ao Millennium e Montepio.

No entanto, tudo isto não é apenas um assunto dos partidos, governo e bancos, pois o estado anémico da banca portuguesa traduz-se na falta de capacidade dos bancos em fazer o dinheiro circular do consumo privado para o investimento produtivo privado (e não especulativo através do apoio à compra de habitação).

Porque há mais coisas na terra e no céu, do que o quotidiano nos deixa ver, não são apenas as notícias sobre o sector financeiro, futebol e tempo que fazem as nossas semanas.

Esta foi a semana onde a escola pública versus oitenta colégios privados foi o segundo tema mais presente na atenção noticiosa. Demonstrando que a educação dos mais jovens, mesmo num país em quebra demográfica, continua a ser uma matéria central do nosso quotidiano, ou talvez não.

Talvez não, porque se a discussão não tivesse passado das famílias para os partidos, e para a luta política, não teria sido um tema tão proeminente na nossa atenção. A conclusão é que os contratos de associação terão tido um forte vaso comunicante com os partidos com presença nas últimas décadas no governo o que, pelos vistos, ainda se mantém.

Pois, só assim se compreende a armadilha em que alguns partidos caíram, fazendo depender muito do que fazem politicamente dos problemas de apenas 80 escolas, esquecendo todos os outros problemas dos restantes mais de 2500 estabelecimentos de todos os ciclos de ensino. 

A continuar assim podemos esperar que, pela primeira vez, as notícias de abertura do ano letivo em setembro não sejam sobre a falta de professores de norte a sul do país e sim sobre estas oitenta escolas - o resultado nas autárquicas de 2017 tirará as teimas sobre que escolas foram lembradas e esquecidas nestes meses.

Saltando de maio, para setembro e, agora, para novembro, podemos dizer que a outra notícia da semana será a elevada probabilidade das 35 horas, entre aprovação, veto e regresso ao parlamento, acabem por só entrar em vigor em novembro. 

Algo que agradaria à entidade fantasma que assombra os países do sul, o Eurogrupo, e que diminuiria as dores de cabeça de Mário Centeno com os potenciais aumentos do défice, dando-lhe espaço para se preocupar com a decisão sobre se queremos um banco mau ou se queremos continuar a fazer de conta que só temos bancos bons.
 

Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 414 notícias destacadas diariamente em 16 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 3 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, Público, JN, DN e Jornal i), as 5 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 5 primeiras notícias nos jornais televisivos das 20 horas (RTP1, SIC e TVI) e as 3 notícias com mais destaque nas páginas online de 5 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do Público, Expresso, Sol, TVI24 e SIC Notícias.