O Instituto Nacional de Aviação Civil (INAC) emitiu na semana passada uma diretiva que obriga todas as companhias aéreas portuguesas a manter duas pessoas no cockpit em todos os momentos do voo.

Este pode ser um passo atrás em relação à tecnologia, numa altura em que a Embraer já planeia um avião comercial que precisa de apenas um piloto e de uma iniciativa da NASA que estuda a possibilidade de criar aviões sem piloto ou com um sistema em que um dos pilotos fica em terra, podendo comandar até 12 aeronaves em simultâneo.   

Quem dá conta destas mudanças é o psicólogo investigador da NASA Steve Casner que publicou um artigo onde reflete sobre o percurso da aviação até hoje e sobre o possível futuro dos aviões e dos pilotos comerciais.

No artigo, o investigador relembra os aeroportos dos anos cinquenta, onde era possível encontrar tripulações a caminhar com o passo coordenado, com óculos tipo aviador e com roupas que refletiam esmero e glamour.

Há 60 anos, cada avião tinha quatro pilotos, que trabalhavam «como equipas», «tanto no trabalho como no lazer», durante as escalas de vários dias em lugares paradisíacos.

Com o avançar das décadas e da automatização, as tripulações foram sendo emagrecidas. O navegador, um dos membros da tripulação, que costumava consultar as estrelas e descobrir a posição do avião, foi o primeiro a deixar de ser preciso. Depois foi o engenheiro de voo, que observava os sistemas de navegação durante o voo. Foi o GPS e os sensores que fizeram com que estes dois membros fossem trocados por máquinas.

Para o investigador, o que hoje resta são «dois pilotos e um sistema de navegação automática que é usado durante a maior parte do voo».

O passo seguinte é para Steve Casner reduzir a tripulação para apenas um piloto. E até já há provas dadas nesse sentido: um piloto da Delta Airlines mostrou que só é necessário um homem aos comandos do avião, quando o outro piloto do avião em que seguia ficou preso acidentalmente fora do cockpit.

O investigador diz, no entanto, que «devemos estar nervosos com a presença de apenas um piloto no cockpit». «Os estudos revelam que os pilotos cometem muitos erros. É por isso que existem dois no cockpit. Enquanto um piloto opera os controlos do avião, outro mantém-se alerta para erros ocasionais».

Para Casner o problema reside no facto de a automatização não eliminar o erro humano, mas apenas o deslocar. «Os engenheiros e os programadores que fazem a automatização são humanos, também. Criam softwares complexos, que contém erros».

O investigador argumenta que a automatização nem sempre é benéfica: «os pilotos devem permanecer preparados para intervir quando alguma coisa corre mal. Mas os estudos revelam que com a automatização, os pilotos gastam uma grande parte do tempo a conversar um com o outro e a divagar mentalmente.

Para o investigador pode mesmo ser pior ter um avião apenas com um piloto do que um avião sem piloto: «é difícil imaginar um piloto num cockpit, sozinho, a suportar muitas horas de tédio, a ver as suas capacidades a perderem-se, mas ao mesmo tempo pronto para intervir em caso de algum problema».

O investigador também reflete sobre o projeto da NASA para avançar com aviões com apenas um piloto. O projeto prevê que um piloto fique no ar e outro em terra. O que fica em terra tem capacidade para comandar até 12 aviões ao mesmo tempo.

Mas mesmo esta hipótese apresenta falhas para o investigador. «A segurança de um voo não pode depender de uma avaliação a partir do chão. A comunicação pode falhar. E ter uma pessoa a ajudar no fundo da linha de comunicação não é a mesma coisa do que ter alguém lado a lado». O antropologista cognitivo Ed Hutchins mostrou que os pilotos comunicam um com o outro utilizando expressões faciais, a postura, a posição da cabeça, o olhar e até a respiração.

Para o investigador a automatização do cockpit «obriga a questionar a forma como se utiliza a tecnologia para aumentar a capacidade humana».

Mas parece que a evolução teve agora um travão legal já que, depois do acidente da Germanwings que vitimou 150 pessoas na manhã desta terça-feira, grande parte das companhias aéreas vai ser obrigada a alterar as regras de segurança no cockpit, exigindo que em todos os momentos do voo existam dois pilotos na cabine de comandos do avião.

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