Se em tempos foi padre, viveu para a religião e pregou a palavra de Deus, hoje o sermão é outro. Dessa encarnação traz apenas o sotaque da Madeira e o jeito para falar à audiência, apelando um "tempo novo, o tempo do amor". Faz questão de repetir em cada terra que passa que nada está decidido, que Marcelo não é Presidente antes de o povo votar, que hoje não há fascismo e as eleições não são um simulacro.

Entusiasma-se e diz que o candidato da direita já fala como Presidente "como se os deuses, existindo deuses, já tivessem tudo decidido". Existindo deuses, diz o homem que já pregou a palavra de Deus. Com as dúvidas sobre a existência divina, Edgar Silva faz questão de separar as águas enquanto caminha como candidato a Belém. Aliás, como o próprio diz, já foi padre, mas isso "foi noutra encarnação". Se a reencarnação existe ela aí está. Desprendido de amarras religiosas, promete defender a Constituição, lutar pelos direitos dos trabalhadores e do povo e fiscalizar um governo que ainda atua com "resquícios" das políticas de Passos Coelho e de Paulo Portas. Nunca fala em dissolução do Parlamento, caso chegue a Presidente.

Nada está decidido, acredita. Rejeita qualquer destino previamente traçado ou fatalismos definidos sem que nada contra eles possa ser feito. Apela ao voto do povo no dia 24 de janeiro, para provar que não é a mão de Deus que coloca boletins de voto na urna. O destino está nas mãos dos eleitores.

Mas deixemos as considerações religiosas para quem as estuda. Afinal agora é o tempo dessa coisa profana que é a política.