Ana Lemos é uma médica portuguesa que esteve um mês num dos mais perigosos locais do mundo neste momento, na Libéria. 

Ao serviço dos Médicos Sem Fronteiras (MSF), testemunhou o horror do ébola e do sofrimento nas populações. Em entrevista à TVI, falou sobre a sua passagem de quatro semanas por Monróvia e pelo Elwa-3, o maior centro de tratamebto a nível mundial, onde já foram salvas mais de mil pessoas. Neste local não há vacinas e equipamento sofisticado, apenas a estrutura montada pelos MSF, que desde o início do surto estiveram na frente de batalha ao terrível vírus. 

O Elwa-3 tem 250 camas, mas está em permanente ampliação. Depois da experiência noutros locais, Ana Lemos confessa que a experiência aqui é aterradora. «Já estive em muitas situações de conflito, como no Iraque, na Palestina ou no Darfur e nunca vi uma situação igual a esta. É extremamente difícil», refere a portuguesa, que percebeu que muitas vezes a batalha está perdida ainda antes de começar: 

«Eu lembrei-me muitas vezes do livro de Saramago, o Ensaio sobre a cegueira, e essa sensação de não poder dar um abraço à mãe que perde um filho, de ver crianças sozinhas e não se pode dar o cuidado adequado. É terrível, é dantesco». 

Ana Lemos garante que é possível ajudar no terreno e não contrair a doença. O pessoal dos Médicos Sem Fronteiras tem evitado contágios através de processos simples, como evitar o toque ou lavar sempre as mãos. O ébola é um vírus altamente contagioso, mas com os devidos cuidados pode ser combatido. «Com os protocolos corretos e seguidos à risca é possível trabalhar. Obviamente há um nível de medo alto, mas é possível salvar vidas. Mais de 40 por cento das pessoas sobrevivem, o que para uma epidemia de ébola não está mal», disse. 

Regressada a Genebra, onde vive atualmente, a portuguesa confessa que tem de ter cuidados especiais: «Se não há sintomas, não há possibilidade nenhuma de transmissão. Eu estou com a minha filha em casa, ela tem quatro anos. Ainda não passei o período de 21 dias, mas sete, e estou com a minha filha, com o meu companheiro e não há nenhum problema. Vejo a febre todos os dias, não tenho febre, está tudo bem». 

Longe da modernidade dos países desenvolvidos, onde todos os dias surgem notícias de cura, na Libéria os esforços da comunidade internacional podem ajudar a evitar o crescimento deste monstro que já matou quase cinco mil pessoas. Em Portugal não existe representação dos Médicos Sem Fronteiras, mas é possível fazer donativos e alistar-se através do site internacional.