Quem não se lembra da intriga por detrás d' "O Nome da Rosa", romance do ensaísta e filósofo italiano Umberto Eco? Afinal, será mais provável do que parecia, haver químicos venenosos das páginas de livros antigos. Agora, um grupo de investigadores descobriu que três volumes depositados numa biblioteca da Dinamarca contêm arsénio, um elemento químico mortal.

No romance "O Nome da Rosa", Umberto Eco relata a ida de um monge franciscano com o seu discípulo a uma abadia no norte de Itália para esclarecer a morte de um jovem monge. Sucedem-se outras mortes e algo de comum havia entre todos: tinham lido a proscrita obra "Poética", do antigo grego, Aristóteles. Conclusão: o livro continha arsénio, uma substância química que causara a morte a quem lambera os dedos para o desfolhar.

Da ficção para a realidade, na Dinamarca, o veneno nos livros datados dos séculos XVI e XVII e assinados por Polydorus Vergilius, Johannes Dubravius e Georg Maior, foi detetado após a realização de uma série de análises de fluorescência de raios-X, como refere o artigo científico assinado por Jakob Povl Holck e Kaare Lund Rasmussen, publicado no The Conversation.

Matar roedores e insetos

Os investigadores examinaram as três cópias existentes na biblioteca, localizada em Odense, na Dinamarca, porque sabiam que os livros podiam conter fragmentos de manuscritos medievais, como cópias da lei romana e do direito canónico.

Os encadernadores europeus nos séculos XVI e XVII costumavam reciclar velhos pergaminhos", explicaram os investigadores no artigo que redigiram.

Ao tentarem identificar os textos ou ler parte do seu conteúdo, perceberam ser impossível devido a uma espessa camada de tinta verde.

Uma posterior análise revelou que se tratava da substância química arsénio, considerado um dos químicos mais tóxicos do mundo, ao qual, a  simples exposição pode provocar o desenvolvimento de cancro e a morte. Acresce que a toxicidade do arsénio não diminui com o passar do tempo.

Jakob Povl Holck afirmou que apesar não haver certezas absolutas, neste caso, tudo indica que o químico “foi aplicado com a intenção de matar os possíveis roedores ou insectos”.

Até porque, antes da descoberta dos efeitos prejudiciais para a saúde que o arsénio representa, era comum encontrá-lo em todos os tipos de materiais, como por exemplo roupas, pinturas ou livros.

Não admira que esta substância apareça em materiais antigos pois utilizava-se ​​como um corante."

Na verdade, sabe-se que muitos dos materiais utilizados para encadernar os livros eram tóxicos", diz Arsenio Sánchez, restaurador da Biblioteca Nacional de Espanha e vencedor do Prémio Nacional de Restauração, em 2015, ouvido pelo jornal El País.

Segundo os especailistas, “durante a época das doenças contagiosas como a peste negra e a tuberculose” eram aplicados vários químicos nos livros de forma a evitar a propagação das mesmas.

Tudo indica que a utilização de arsénio nestes livros serviria para unificar as capas”, visto que foram construídas através de fragmentos de pergaminhos, salientou Jakob Povl Holck, ao El País.

Na biblioteca dinamarquesa, os peritos não encontraram outros vestígios de arsénio. 

Após a descoberta, os três volumes foram armazenados em caixas de papelão num local seguro. Os investigadores tencionam agora digitalizar os livros para minimizar a exposição ao arsénio.

Não descartamos que possa haver mais, mas para já não encontrámos mais arsénio na biblioteca", conclui Jakob.