Inspirado pela história de Reg Spiers, um australiano que em 1964 resolveu «despachar-se» numa encomenda postal para poder ir de Londres, no Reino Unido, até Perth, na Austrália, um inglês de nome Brian Robson decidiu fazer o percurso no sentido contrário, também dentro de uma encomenda postal, mas não foi tão bem sucedido e quase não sobreviveu à façanha.

Com saudades de Inglaterra e tendo chegado à Austrália no final de 1964, ao abrigo de um programa de imigração assistida em que se comprometera a passar dois anos no país, Brian Robson não podia simplesmente comprar um bilhete de avião para regressar a casa. As despesas da viagem para a Austrália tinham sido pagas pelo Governo australiano e ele não tinha direito a passaporte para deixar o país de forma legal até que tivesse cumprido os dois anos de estadia.

«A Austrália foi um completo choque para o meu sistema», conta agora Brian Robson, em declarações à BBC News. «Achei tudo muito difícil, e assim que lá cheguei, só pensei que queria sair dali o mais rapidamente possível», acrescenta.

«A partir do momento que li no jornal [a história de Reg Spiers], convenci-me de que não tinha escolha. Era aquilo que eu tinha que fazer», diz Robson.


Uma caixa de madeira de 96 centímetros de largura por 76 de altura e 66 de profundidade, reforçada no interior com uma corda para o segurar no sítio, um par de alicates para despregar a caixa a partir do interior quando chegasse a Londres, uma mala para ficar bem encostado a um dos lados da caixa, e ainda uma lanterna e duas garrafas – uma de água para beber e outra para urinar - tudo fora pensado ao pormenor e parecia que nada podia correr mal, mas não foi assim.
 
De proporções menos generosas do que a caixa que Reg Spiers havia construído para si próprio e uma transferência imprevista de carga do avião da Qantas com destino a Londres, para um avião da Pan American, com muitas mais escalas até Londres e ainda um porão sem aquecimento, transformaram a viagem numa situação grave.
 
Além da dificuldade em respirar e de não se poder mexer, Brian Robson conta que todas as articulações do corpo começaram a doer-lhe, os cotovelos, os joelhos e os calcanhares incharam de forma muito grave e perdeu os sentidos. Robson alternou momentos de consciência com desmaios, atormentado por um pesadelo em que era deitado para fora do avião em pleno voo.

«Parece loucura quando penso nisso agora. Mas eu passei algumas horas realmente terríveis», recorda.

 
Quando o avião finalmente aterrou, Brian Robson foi levado, ainda dentro da caixa, para fora do porão para um terminal de carga. Pensando que estava de volta ao Reino Unido, tentou verificar a hora e a data no relógio mas, para tal, precisou da lanterna.
 
Um manipulador de carga, Gary Hatch, viu a luz que brilhou através de uma fresta entre as placas de madeira, decidiu investigar e conseguiu abrir um buraco na caixa. Julgando que estava um homem morto dentro da caixa, Hatch voltou pouco depois com um grupo de agentes aduaneiros, médicos e polícias.
 
A caixa acabou por ser aberta e, oito meses depois de ter ido para a Austrália, Brian Robson estava finalmente livre… só que não tinha chegado a Londres como pensava, mas sim a Los Angeles, nos EUA.
 
Após um período de recuperação no hospital e de se ter transformado numa figura mediática, desdobrando-se em entrevistas aos órgãos de comunicação social, Brian Robson foi finalmente «despachado» para Inglaterra num voo da Pan America, mas desta vez em primeira classe.

«Eu hoje tenho 70 anos», sublinha Brian Robson. «Os jovens não pensam como deve ser. Eu acho que a maioria dos adolescentes, os jovens daquele tempo e também dos dias de hoje metem uma coisa na cabeça e não pensam nas consequências», explica.

«Foi uma coisa muito perigosa, mas alguma vez pensei em desistir? Absolutamente não, era a última coisa que me passava pela cabeça», revelou.


Sobre os quatro dias que passou fechado dentro de uma caixa num avião, Brian Robson escreveu um guião que ele espera um dia ainda possa passar a filme. Depois disso, ainda voltou à Austrália de férias.

«Naquela época, não havia computadores e não era preciso visto para ir à Austrália. Por isso, eu acho que ninguém sabia que eu estava lá», rematou.