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Idosos passam dias sem ver ninguém

Reportagem junto de idosos isolados no interior alentejano, onde a taxa de suicídios é das mais elevadas do país

Por: Redacção / Patrícia Batista    |   2011-03-14 13:38

Aos 82 anos, Jacinto Coelho não conheceu outra vida. Nunca casou. Nunca teve filhos. Sempre viveu na mesma casa. A mãe morreu quando tinha quatro anos. Na casa, que em tempos chegou a dividir com sete irmãos, resta apenas um sinal de vida. Os últimos 30 anos de Jacinto foram passados sozinho, num monte isolado da freguesia de Sabóia, em Odemira.

Apesar de ser um concelho do litoral, Odemira vive os problemas comuns a muitos do interior. O vasto território daquele que é o maior concelho do país e os maus acessos fazem com que muitos idosos fiquem isolados, sozinhos.

Em Sabóia os números são alarmantes. Há 50 anos viviam 4.136 pessoas. Em 2001, altura em que foram realizados os últimos Censos, restavam 1344. Grande parte com mais de 65 anos.

Apenas com luz solar, sem canalização e sem frigorífico, Jacinto Coelho não tem como conservar os alimentos. As refeições são feitas num lume no chão. Humilde e bem-disposto, justifica: «Ainda prefiro o lume de chão a ter aí um fogão a gás».

Hoje é dia de visita da Unidade de Saúde Móvel. Há um ano que a enfermeira Conceição Quintas percorre vários quilómetros em estradas que não são dignas de um Portugal «simplex» para chegar a montes onde vivem idosos com mais de 80 anos. No Inverno, nos dias de muita chuva, há casas onde não consegue chegar.

«Muitas vezes somos nós que levamos uma equipa multi-profissional ao domicílio do idoso. Porque às vezes eles têm de pagar táxi. E nem sempre os táxis gostam de ir a alguns montes», explica a enfermeira Conceição.

Entre passos inseguros, Jacinto Coelho acompanha as enfermeiras até à carrinha. A tensão está boa, o açúcar também. O peso está baixo. Muito baixo. 42 quilos. «Então já perdi... ora mau», exclama.

«Se não falo com as pessoas, falo com as galinhas»

Voltámos a Sabóia e percorremos mais de sete quilómetros, cinco deles em terra batida, para encontrar Joana Francisco, de 76 anos. Pelo caminho o século XXI voltou a ficar para trás. A electricidade chegou apenas há seis meses ao monte onde vive.

«Antes tinha a solar. E antes da solar tinha candeeiros a gás. Mas esta é que é boa. Esta é da melhor», diz Joana, enquanto olha alegre para a sua «arquinha», que lhe permite conservar os alimentos.

Hoje está sozinha. Como em todas as terças-feiras, quintas e sábados, entre as 17:00 e a meia-noite. O filho com quem vive, de 51 anos, é doente renal. Três vezes por semana tem de se deslocar a Beja, a mais de 100 quilómetros e quase duas horas de distância, para fazer hemodiálise. Joana fica sozinha. A tratar dos animais, a conversar com eles. «Se não falo com as pessoas, falo com as galinhas», diz, rindo.

Alta taxa de suicídios é preocupação em Odemira

Odemira tem uma das mais altas taxas de suicídio do Mundo. De acordo com a GNR, nos últimos 20 anos, suicidaram-se mais de 250 pessoas neste concelho. A freguesia de Sabóia é a que tem números mais alarmantes. 52 pessoas decidiram pôr fim à vida só nas últimas duas décadas.

«Ainda há três dias houve aqui um funeral de um senhor que se matou. Há muitos casos de pessoas que se matam», conta Prazeres Guerreiro, de 61 anos. O suicídio é tema de conversa frequente entre os moradores. «Dá-me tanta pena que passe pela cabeça de uma pessoa matar-se. Não poder viver de outra maneira...», desabafa. «É o destino», acrescenta Natalina Martins, de 76 anos.

Para combater os elevados números de suicídio e o isolamento desta freguesia, a Fundação Odemira arrancou no passado mês de Fevereiro com o projecto «A Vida Vale».

Atelier de canto, saúde móvel, chá com letras, cinema na praça, passeios pedestres, poesia e ioga do riso são algumas das actividades que agora entretêm os mais velhos desta freguesia. Oportunidade única para quem vive só e longe encontrar amigos, cantar e rir. Porque o importante é combater a solidão e mostrar que a vida... vale a pena.

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EM BAIXO: Isolamento em Sabóia
Isolamento em Sabóia

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