Uma semana morna com alguns espirros de Primavera. Eis o cenário de uma semana em que o 25 de Abril não foi o ponto alto dos temas noticiados. Dir-se-ia até que, ao estilo do novo Presidente da República, foi um 25 de Abril de "brandos costumes" que fica bem a enquadrar a inauguração de um novo museu dedicado ao elogio da comunicação social.  

Mas, tirando a transformação do 25 num fait-divers, os media convergiram em pouca coisa. Mas uma coisa em que convergiram foi em ser caixa de ressonância das críticas aos programas de estabilidade e de reformas. Mais de 25% dos destaques enfatizaram comentários críticos e dúvidas. Tivemos, por exemplo, o Telejornal da RTP1 e o Expresso online a enfatizarem que o Consellho das Finanças Públicas "arrasa" o cenário macroeconómico do governo. 

De facto, os temas mais focados nas notícias sobre os programas foram, primeiramente, as críticas (esmagadoramente negativas para os programas), seguidas pela previsão de cortes nas despesas ou aumento de impostos e, em terceiro lugar, a iniciativa do CDS para forçar a votação dos programas no Parlamento.

Mas a propensão para as notícias negativas em torno do governo é curiosamente contrastada por dois testemunhos interessantes. Por um lado, um personagem insuspeito de bajular o governo: "Carlos Moedas alinhado com programas do Governo", avançou a Antena 1. E, por outro lado, há ainda o caso "do Presidente da Cotec que acredita que o Plano de Reformas e o Programa de Estabilidade são positivos e vão trazer investimento ao país".

No meio disto tudo Teodora Cardoso, uma grande revelação nacional: "Eu não gosto de fazer previsões. Estar a discutir se cresce 1,5 ou 1,7% é perfeitamente gratuito. Nenhum de nós realmente sabe. O que temos de saber é se estamos numa situação que envolve vários riscos e que não são só nossos." 

E completa dizendo que a única "ideologia" que defende é a "racionalidade económica". Se é isso que a ortodoxia tem a dizer sobre o modo com as economias europeias têm sido geridas no quadro do status quo então é altura de pensarmos em arranjar alguma outra solução. A racionalidade que nos vendem nem tem memória, nem imaginação. Enquanto assim for teremos sempre um túnel ao fundo do túnel.

 

 


Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 414 notícias destacadas diariamente em 16 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 3 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN, DN e Jornal i), as 5 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 5 primeiras notícias nos jornais televisivos das 20 horas (RTP1, SIC e TVI) e as 3 notícias mais destaques nas páginas online de 5 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, SOL, TVI24 e SIC Notícias.