Os testemunhos das vítimas, durante o julgamento de Larry Nassar, o antigo médico da seleção americana acusado de pedofilia, estão a revelar cada vez mais pormenores sobre o que aconteceu nos últimos 20 anos.

É o caso de Emma Ann Miller que testemunhou, esta segunda-feira, no Michigan, nos EUA. Tem apenas 15 anos e revelou que a Universidade do Michigan continua a cobrar por consultas médicas do sítio onde era abusada sexualmente.

"Estás a ouvir Universidade de Michigan State? Tenho apenas 15 anos mas não tenho medo de vocês. Não deveria conhecer o interior de um tribunal com esta idade, mas vou estar confortável. Não fui eu que escolhi as circunstâncias, foi Larry Nassar que escolheu, um empregado vosso durante 20 anos de abusos de crianças. (...) O departamento médico da Universidade de Michigan State continua a cobrar-me consultas, a minha mãe continua a receber faturas das consultas onde era molestada", afirmou em tribunal, num relato emocionado.

Durante o julgamento Ann esteve sempre com a mãe ao lado e afirma que foi violada por Nassar em “múltiplas ocasiões”, na Universidade do Michigan, a mesma que garantiu que as cartas com as contas das vítimas do antigo médico vão deixar de ser enviadas. 

A última vez que Nassar abusou de Ann foi em 2016, pouco antes de ser suspenso.

"Faça o que é certo para nós. Conte-nos quem sabia. Conte-nos como e quando teve oportunidade de parar. Faça o seu último ato público para realmente ajudar alguém. Estamos conscientes de que algumas pessoas sabiam", o pedido emocionado de Ann Miller durante o julgamento.

 

O pedido de Emma Ann é comum às outras vítimas: que o médico confesse aquilo que fez. O mesmo médico que já foi confrontado com 89 testemunhos. O mesmo que pediu perdão por tudo o que aconteceu. Mas, apenas uma das vítimas aceitou este perdão e garante reza por ele.

Antes do escândalo rebentar, as famílias confiavam no médico, assim como as vítimas. Também Ann Miller confiava nele e considerava-o um membro da sua família. Agora, apenas desejava nunca o ter conhecido.

“Serei possivelmente a última criança molestada por ele. E não estou sozinha, isto ainda não acabou. Pelo contrário, está agora a começar. (...)", garantiu a jovem.

 

Ginastas, menores de idade, confiavam no tão respeitado médico do Michigan e muitas vezes eram abusadas com os pais na sala ao lado. Ninguém acreditaria que Nassar, casado, com três filhas, e com uma carreira brilhante escondesse o que se passava dentro do consultório. Até a primeira vítima falar. Ou melhor, a quinta vítima.

Larry Nassar já havia sido acusado quatro vezes antes. Mas toda a gente desvalorizou o assunto e os casos foram sendo abafados. Até 2016 quando o jornal The Indianopolis Star publica uma grande investigação sobre o assunto. A partir daí as vítimas começaram a falar.

Uma das vítimas, Chelsea Markham, tinha 10 anos quando foi abusada sexualmente pela primeira vez por Larry Nassar. Nunca soube lidar com esses abusos e suicidou-se com 23 anos. 

Todas as crianças sofreram com o que lhes aconteceu. Como consequências disso contam-se um suicídio, uma tentativa de suicídio, depressões e o comum a todas: feridas psicológicas. Atualmente, as vítimas tentam recomeçar uma vida normal e esperam que a justiça aplique uma pena pesada a Larry Nassar. 

O médico está a ser acusado de ter abusado sexualmente de 150 mulheres durante 20 anos. Foi ainda condenado a 60 anos de prisão pela posse de pornografia infantil.