Estamos a assistir a uma facebookização da política? Muito provavelmente. Pois que mais dizer da política quando o que se passa no Facebook é motivo de demissões, púlpito para expressar ou condenar posições políticas e, também, para anunciar na primeira pessoa a renúncia a um cargo político.

No entanto, não é assim em todos os países. Por exemplo, em Espanha há uma twitização da política. Em Espanha, a formação e discussão do próximo Governo, ou das próximas eleições de junho de 2016, está a ser feita no Twitter por Pablo Iglesias (Podemos), Pedro Sanchez (PSOE) e por Albert Rivera (Ciudadanos).

Em Portugal os protagonistas políticos que deram destaque ao Facebook foram João Soares, João Wengorovius Meneses e várias personalidades da instituição militar. O protagonista comum é o Facebook, mas as formas como foi utilizado dizem-nos também muito sobre a política na Era do Facebook.

João Soares usou um post do Facebook para responder a artigos de opinião de um jornal. Neste caso o número elevado de carateres e o estilo de escrita de opinião no jornal levou a melhor sobre o Facebook. No entanto, já depois de ter apresentado a sua demissão, partilhou no seu Facebook a paródia que a equipa do programa da manhã da Rádio Comercial realizou com a música da Lambada, demonstrando assim que o Facebook é uma arma política de dois gumes.

Por sua vez, João Wengorovius Meneses utilizou o Facebook para comunicar num post a sua demissão. Ao fazê-lo usou o Facebook como uma conferência de imprensa maximizada no alcance, chega a todo o lado, mas minimizando os danos pessoais, pois não dá direito a perguntas nem à presença de jornalistas.

Já na polêmica na instituição militar, começada com as declarações configurando discriminação no colégio militar e terminando num novo Chefe do Estado Maior do Exército, o Facebook funcionou como espaço de manifestação de opinião daqueles que estando no ativo, ou não, não se manifestam na rua. O que mais dizer, parafraseando o lema de uma rádio de notícias, senão que tudo o que se passa, passa(-se) no Facebook.

Não foi notícia: Transparência opaca

A discussão sobre a transparência das instituições e dos seus responsáveis voltou à ribalta nas últimas semanas. No entanto, os media nacionais não têm dado destaque às propostas concretas que estão a ser discutidas, nomeadamente no Parlamento. PS, PCP e BE apresentaram projetos para melhorar a transparência do exercício do poder público, mas a Associação Transparência e Integridade alertou para a falta de fiscalização efetiva. Se sempre houve relações perigosas entre poderes políticos e empresariais, entre os setores público e privado, parece cada vez mais óbvio que há algo acima das questões da legalidade. Pode ser legal um titular de cargo público tirar dividendos em proveito próprio. Mas será ético? 

M. C.

Tema emergente: Demissão ou conflito?

O pedido de exoneração do General Carlos Jerónimo no passado dia 7 de abril, que parecia então o culminar da controvérsia relacionada com a exclusão de alunos homossexuais do Colégio Militar, pode afinal ter sido o pretexto para um novo tema no campo noticioso. De uma polémica em torno de alegada discriminação de alunos passou-se rapidamente a um problema envolvendo incompatibilidade com o ministro da Defesa e a uma situação de potencial instabilidade no exército. No domínio do acontecimento há sempre que contar com o imprevisível e o expectável que geram a incerteza na tematização dos problemas públicos. Este é um desses acontecimentos. E pode ser apenas o início de um novo tema noticioso.

D. T.

Ficha técnica

O Barómetro de Notícias é desenvolvido pelo Laboratório de Ciências de Comunicação do ISCTE-IUL como produto do Projeto Jornalismo e Sociedade e em associação com o Observatório Europeu de Jornalismo. É coordenado por Gustavo Cardoso, Décio Telo, Miguel Crespo e Ana Pinto Martinho. A codificação das notícias é realizada por Rute Oliveira, João Lotra e Sofia Barrocas. Apoios: IPPS-IUL, Jornalismo@ISCTE-IUL, e-TELENEWS MediaMonitor / Marktest 2015, fundações Gulbenkian, FLAD e EDP, Mestrado Comunicação, Cultura e Tecnologias de Informação, LUSA e OberCom.

Análise de conteúdo realizada a partir de uma amostra semanal de 414 notícias destacadas diariamente em 16 órgãos de comunicação social generalistas. São analisadas as 3 notícias mais destacadas nas primeiras páginas da Imprensa (CM, PÚBLICO, JN, DN e Jornal i), as 5 primeiras notícias nos noticiários da TSF, RR e Antena 1 das 8 horas, as 5 primeiras notícias nos jornais televisivos das 20 horas (RTP1, SIC e TVI) e as 3 notícias mais destaques nas páginas online de 5 órgãos de comunicação social generalistas selecionados com base nas audiências de Internet e diversidade editorial (amostra revista anualmente). Em 2016 fazem parte da amostra as páginas de Internet do PÚBLICO, Expresso, SOL, TVI24 e SIC Notícias.