O abate ilegal a tiro do macho do único casal de águia-imperial que nidificou em Portugal em 2008 foi efectuado de «muito perto» e terá sido «intencional», segundo os resultados da segunda autópsia feita esta sexta-feira à ave, segundo a agência Lusa.

«A necrópsia revelou evidências bastante seguras de que a ave foi abatida desde muito perto», disse à agência Lusa o veterinário do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (ICNB), Ricardo Brandão.

A localização dos bagos de chumbo detectados no cadáver, que «afectaram órgãos vitais» e «foram os responsáveis pela morte do animal», «são indícios de que o abate foi efectuado de um sítio muito próximo do local onde estava a ave» e, por isso «terá sido intencional», acrescentou.

O veterinário falava à Lusa após ter realizado hoje, em Mértola, a segunda autópsia à àguia-imperial abatida entre os dias 21 e 23 de Fevereiro, na área do Vale do Guadiana, numa área abrangida por uma zona de caça associativa.

Águia-imperial abatida a tiro

A águia foi encontrada morta há duas semanas junto ao ninho e a primeira autópsia revelou que foi atingida por chumbos de caçadeira, explicou o ICNB, que hoje enviou uma queixa-crime ao Ministério Público contra «incertos».

A ave já tinha abandonado o ninho, frisou o instituto, sublinhando que o abate da águia configura «uma contra-ordenação ambiental muito grave», segundo o Regime Jurídico da Conservação da Natureza e da Biodiversidade (Decreto-Lei nº 142/2008, de 24 de Julho).

O presidente da Associação de Caça e Pesca «Os Castelos», concessionária da zona de caça alentejana onde a águia foi abatida, já negou o envolvimento de qualquer associado no abate ilegal, que estranhou e acredita ter sido propositado.

«Para mim não foi um acidente», disse à agência Lusa João Baiôa, referindo que «alguém abateu a ave propositadamente».

«Mas não foi nenhum dos nossos associados, porque não frequentam a zona desde 11 de Janeiro, o dia da última caçada», afirmou o responsável.

Ave «em perigo de extinção»

A águia-imperial é uma das aves de rapina mais ameaçadas do mundo, estimando-se que existam apenas 400 casais sobreviventes, está classificada como «em perigo de extinção» e, a nível europeu, é considerada como «globalmente ameaçada».

Em Portugal, estima-se que existam menos de 10 exemplares de águia-imperial, confirmando-se a sua presença no troço superior do rio Tejo e respectivos afluentes, na bacia do rio Guadiana, nomeadamente nas Zonas de Protecção Especial (ZPE) de Moura/Mourão/Barrancos, Vale do Guadiana e Castro Verde.

O Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal classifica a águia-imperial como «criticamente em perigo».

Trata-se de uma espécie prioritária para a conservação da natureza, no âmbito da legislação europeia (Decreto-Lei nº49/2005, de 24 de Fevereiro, relativo à conservação das aves selvagens - Directiva aves - e à preservação dos habitats naturais e da fauna e da flora selvagens - Directiva habitats).