Astrónomos fizeram «o melhor mapa a três dimensões de sempre» de uma zona central da Via Láctea e descobriram que a região interna se assemelha a um amendoim e a uma estrutura em «X», quando vista sob certos ângulos.

O feito foi esta quarta-feira divulgado, em comunicado, pelo Observatório Europeu do Sul (OES), organização da qual Portugal é um dos países-membros.

Como ferramenta, os astrónomos usaram os dados públicos do telescópio VISTA, do OES, e as medições dos movimentos de centenas de estrelas «muito ténues», situadas no bojo galáctico central.

O bojo central é considerado uma das regiões mais importantes e de maior massa da Via Láctea.

Trata-se de uma enorme nuvem central, com cerca de dez mil milhões de estrelas, a perto de 27 mil anos-luz de distância da Terra e, de acordo com o OES, «a sua estrutura e a sua origem não eram bem compreendidas».

«Descobrimos que a região interna da nossa Galáxia tem a forma de um amendoim na casca, vista de um lado, e a uma barra muito alongada, vista de cima», assinala Ortwin Gerhard, do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre, em Garching, na Alemanha, lembrando que é a primeira vez que a comunidade científica consegue observar, de forma clara, estas características na Via Láctea.

Observações anteriores tinham sugerido que o bojo central tinha a forma de um «X».

Uma nova análise dos dados públicos do telescópio VISTA permitiu detetar estrelas trinta vezes mais ténues do que as observadas em rastreios anteriores ao bojo galáctico.

«A profundidade do catálogo de estrelas VISTA excede de longe trabalhos anteriores e conseguimos detetar a população total destas estrelas em todas as regiões, menos nas mais obscuras», apontou Christopher Wegg, do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre.

A equipa de investigadores do instituto alemão conseguiu identificar 22 milhões de estrelas pertencentes à classe das gigantes vermelhas.

«A partir desta distribuição estelar pudemos fazer um mapa a três dimensões do bojo galáctico. É a primeira vez que tal mapa é feito sem se assumir um modelo teórico para a forma do bojo», sustentou Christopher Wegg.

Segundo o Observatório Europeu do Sul, os astrónomos pensam que a Via Láctea «era originalmente um disco puro de estrelas, que formou uma barra [estrutura fina e comprida] plana há milhares de milhões de anos», tendo depois dado origem «à forma de amendoim, a três dimensões, vista nas novas observações».

Estruturas «em amendoim» semelhantes foram observadas em bojos de outras galáxias e a sua formação foi prevista por simulações de computador, «que mostraram que a estrutura em forma de amendoim é mantida pelas estrelas com órbitas que formam uma estrutura em X», adianta o OES.

Uma outra equipa de astrónomos, liderada por Sergio Vásquez, da Universidade Católica do Chile, obteve, pela primeira vez, «um grande número de velocidades em três dimensões para estrelas individuais de ambos os lados do bojo».

«As estrelas que observámos parecem estar a mover-se ao longo dos braços, em forma de X, do bojo, à medida que as suas órbitas as levam para cima, para baixo e para fora do plano da Via Láctea. Tudo isto se ajusta na perfeição com previsões de modelos atuais», advogou Sergio Vásquez, como conta a Lusa.

A sua equipa conseguiu mapear os movimentos de mais de 400 estrelas em três dimensões.