A potencial vacina para a malária em desenvolvimento no Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa, poderá começar a ser testada em humanos no início de 2017, afirmou o cientista que lidera o projeto de investigação.

A propósito do Dia Mundial da Malária, que se assinala na segunda-feira, Miguel Prudêncio explicou que o projeto, a decorrer desde 2010 e apoiado pela Fundação Bill e Melinda Gates, está também a ser apoiado pela Malaria Vaccine Initiative (MVI), entidade que a nível mundial coordena o desenvolvimento de vacinas contra a malária.

"O nosso projeto entrou na esfera da MVI e agora temos estado a trabalhar com eles para preencher as lacunas que faltam para se poder ter os ensaios em humanos aprovados", disse Miguel Prudêncio, em entrevista à agência Lusa, afirmando que o que está planeado é que as autorizações sejam concedidas no último trimestre deste ano.

Se isso acontecer, acrescentou, os ensaios clínicos em seres humanos podem arrancar no início de 2017.

"Todo o trabalho laboratorial está feito. Neste momento, estamos a fazer ensaios de segurança, para garantir que podemos avançar para seres humanos sem risco para os voluntários que vão participar no ensaio e, uma vez concluídos estes estudos, pensamos que vamos conseguir as autorizações para os ensaios no final deste ano", reiterou.

Em laboratório, explicou o investigador, a equipa demonstrou que a ideia na origem da criação desta vacina contra a malária pode de facto funcionar.

Embora cauteloso e sem se querer comprometer com uma taxa de sucesso, Miguel Prudêncio adiantou que os resultados laboratoriais apontam para uma proteção na ordem dos 90%.

"Se isto se vai verificar onde realmente interessa, que é nos seres humanos, ainda não podemos garantir", sublinhou.

A vacina consiste na modificação genética de parasitas que provocam malária em roedores, mas não em humanos, de forma a desencadear uma resposta do sistema imunitário humano.

A malária é uma doença que pode ser fatal, provocada por um parasita do género Plasmodium, transmitido pela picada de uma fêmea do mosquito Anopheles.

No entanto, existem vários tipos de Plasmodium, alguns dos quais não têm como hospedeiro os humanos, mas outros mamíferos, nomeadamente roedores.

O que a equipa de Miguel Prudêncio fez foi usar um destes parasitas e alterá-lo geneticamente de forma a inserir-lhe proteínas do parasita que infeta humanos.

"É como se estivéssemos a mascarar o parasita de roedores de parasita humano", explicou o cientista.

O objetivo é que este parasita de roedores mascarado, que é seguro para os humanos, provoque o sistema imunitário para responder contra a máscara, desencadeando assim uma resposta imunitária contra o parasita humano.

Atualmente não há qualquer vacina comercialmente disponível para a malária.

Existem mais de 20 potenciais vacinas em ensaios clínicos e a mais avançada candidata a vacina, da GlaxoSmithKline, contra o parasita mais perigoso para os humanos, o Plasmodium falciparum, já recebeu uma primeira aprovação da Organização Mundial de Saúde para iniciar estudos piloto.

"É um primeiro passo, mas não preenche os requisitos de uma vacina realmente eficaz contra a malária", sublinhou Miguel Prudêncio, recordando que a vacina em causa tem uma eficácia que ronda os 30%.

"O que é consensual é que é necessária uma vacina que proteja perto dos 100% e essa vacina ainda não existe", acrescentou o cientista.

Embora haja laboratórios em todo o mundo a desenvolver esforços no sentido de se desenvolver uma vacina mais eficaz, a complexidade do parasita tem sido um entrave.

"Não existe nenhuma vacina contra nenhuma doença parasitária e existem várias vacinas para doenças virais e bacterianas. O parasita é um organismo muito mais complexo, que tem muito mais mecanismos de iludir o sistema imunitário do hospedeiro", explicou o cientista.

Malária mata uma criança a cada dois minutos

A mortalidade por malária caiu 60% desde 2000, mas a doença ainda mata uma criança a cada dois minutos, pelo que o Dia Mundial da Malária, na segunda-feira, visa "acabar com a malária de vez".

O Dia Mundial da Malária assinala-se anualmente, desde 2008, a 25 de abril, com eventos em todo o mundo que visam sublinhar os avanços no controlo da malária e apelar à ação e ao investimento de forma a acelerar o progresso contra a doença.

Provocada por um parasita que é transmitido aos humanos pela picada de um mosquito, a malária, também conhecida como paludismo, ameaça hoje cerca de 3,2 mil milhões de pessoas, quase metade da população mundial.

Segundo o último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a malária, divulgado em setembro, o investimento e a aposta no combate à doença resultaram em grandes progressos nos últimos 15 anos.

Entre 2000 e 2015, a mortalidade por malária diminuiu 60% a nível global e o número de casos de malária caiu 37%, o que se estima que tenha permitido evitar um total acumulado de 1,2 mil milhões de novos casos e salvar 6,2 milhões de vidas.

Devido a estes progressos, a meta 6C do terceiro Objetivo de Desenvolvimento do Milénio, que previa "parar e inverter a incidência de malária", foi alcançada.

No entanto, em 2015 ainda se registaram 214 milhões de casos e a doença matou 438 mil pessoas, 90% das quais na África Subsaariana e 78% das quais crianças com menos de cinco anos.

Perante este panorama, os novos objetivos, estabelecidos pelos Estados-membros da OMS em maio do ano passado ao abrigo da "Estratégia Técnica Global para a Malária 2016-2030", são ambiciosos.

Mas também são alcançáveis, segundo a agência da ONU para a saúde.

Reduzir a taxa de novos casos em pelo menos 90%, reduzir a taxa de mortalidade em pelo menos 90% e eliminar a malária em pelo menos 35 países são algumas das metas, e para alcançá-las é preciso que o financiamento da malária triplique, atingindo os 8,7 mil milhões de dólares anuais até 2030, estima a OMS.

É por isso que o tema do Dia Mundial da Malária para este ano é "Vamos acabar com a malária de uma vez", porque apesar dos êxitos alcançados, "um défice de financiamento anual ameaça fazer abrandar o progresso, particularmente em África, onde os países mais afetados enfrentam falhas de financiamento críticas", pode ler-se na página worldmalariaday.org.

A malária é provocada por um parasita do género Plasmodium, que é transmitido aos seres humanos através da picada de uma fêmea do mosquito Anopheles.

Existem várias espécies, mas o Plasmodium falciparum é o mais perigoso para os humanos e o mais prevalente em África, onde se concentram 90% das mortes pela doença.

Os primeiros sintomas da malária são febre, dores de cabeça e vómitos e aparecem entre 10 e 15 dias depois da picada do mosquito, mas se não for tratada, a malária por P. falciparum pode progredir para uma fase grave e acabar por matar.

O combate à doença passa por uma diversidade de estratégias, que passam pela prevenção, através do uso de redes mosquiteiras impregnadas de inseticida e pulverização do domicílio, assim como pelo diagnóstico e tratamento dos casos confirmados com medicamentos anti-maláricos.