A colaboração internacional XENON, de que faz parte uma equipa de cientistas da Universidade de Coimbra (UC), inaugura nesta quarta-feira, em Itália, o XENON1T, equipamento com uma “sensibilidade sem precedentes” para a deteção da matéria escura.

É um facto científico a existência de cinco vezes mais matéria no universo do que a que é conhecida, mas “esta parcela dominante”, denominada matéria escura, continua a ser uma “incógnita”, afirmam os investigadores, que acreditam que este novo instrumento – “o mais sensível alguma vez produzido pela humanidade para este fim” – será fundamental para a sua deteção.

A matéria escura “é um dos ingredientes principais do universo". "Cerca de cem mil destas partículas passam a cada segundo pela cabeça de um dos nossos dedos, mas, apesar da sua abundância, ainda não foram observadas por qualquer das dezenas de experiências que se têm feito por todo o mundo nas últimas décadas”, disse à agência Lusa José Matias, coordenador da equipa portuguesa de investigadores envolvida no projeto.

“Isto significa que são necessários instrumentos com maior sensibilidade para registar este tipo de matéria” e foi isso que foi criado em Itália por esta colaboração internacional, que envolve 20 grupos de investigação de nove países.

O XENON1T utiliza o “gás raro xénon como material para deteção da matéria escura, arrefecido (– 95 graus centígrados) para se tornar líquido, num total de 3,5 toneladas”. E para “se poder identificar os raríssimos sinais esperados, os cientistas da colaboração criaram o ambiente com a menor radioatividade que já alguma vez existiu no planeta Terra”, sublinhou José Matias.

“Este feito conseguiu-se pela seleção criteriosa de todos os materiais (até os mais pequenos parafusos) que compõe o XENON1T”, acrescentou.

Quando estiver a funcionar a 100% da sua capacidade, o XENON1T será o instrumento mais sensível para a deteção de matéria escura, estando previsto que isso aconteça no início do próximo ano e, simultaneamente, que o aparelho atinja os objetivos traçados no prazo de dois anos.

É mesmo possível que a matéria escura venha a seja descoberta nos próximos dois anos, admitiu José Matias.

Mas se isso não vier a acontecer neste espaço de tempo e se forem encontrados “apenas indícios”, a colaboração XENON estará numa posição excelente para avançar para a fase seguinte do projeto (XENONnT).

O instrumento proposto para 2018 terá um alvo duas vezes maior e utilizará as infraestruturas que hoje são inauguradas e que têm potencialidade para aumentar dez vezes a sensibilidade à deteção de matéria escura.

O XENON1T está instalado no Laboratório Nacional de Gran Sasso (LNGS), um dos maiores laboratórios subterrâneos a nível mundial, situado em Assergi, na província de Áquila, Itália.

A colaboração internacional XENON é constituída por 20 grupos de investigação dos EUA, Alemanha, Portugal, Suíça, França, Holanda, Suécia, Israel e Abu Dhabi.

Portugal é parceiro desta colaboração desde 2005, através da equipa da UC (http://xenon.fis.uc.pt), composta por cinco cientistas e dois engenheiros do LIBPhys [Laboratório de Instrumentação, Engenharia Biomédica e Física das Radiações] do Departamento de Física da UC.