Uma equipa de investigação da Universidade de Aveiro fundeou carcaças de vaca pela primeira vez no Atlântico nordeste, para estudar a biodiversidade, o que permitiu revelar novas espécies, anunciou hoje fonte académica.

Cinco vacas mortas foram depositadas no fundo do mar, a mil metros de profundidade, ao largo de Setúbal, simulando carcaças de baleias para perceber que ecossistemas se formam em torno de uma baleia morta, o que permitiu revelar novas espécies desconhecidas de vermes marinhos.

Na impossibilidade de coordenar a utilização de um navio com o arrojamento de uma baleia, a equipa do projeto “Carcace” optou por fundear as vacas nas profundezas do mar.
 

Ana Hilário, coordenadora da investigação, explica a escolha dos bovinos: “Os ossos das vacas são semelhantes, em termos de composição química, aos das baleias. Estudos anteriores, no Oceano Pacífico, já tinham comprovado que ossos de vaca têm energia suficiente para manter espécies que são encontradas em carcaças de baleia”.


Por todo o mundo, já foram identificadas mais de 400 espécies em carcaças de baleia, 30 das quais endémicas. No entanto, estes diversos e complexos ecossistemas têm sido muito pouco estudados no Atlântico nordeste, um cenário que o “Carcace” pretende mudar.

Fundeadas em março de 2011, as cinco carcaças foram visitadas em agosto de 2012, através do navio oceanográfico Almirante Gago Coutinho e do submersível ROV Luso, e, em junho de 2013, no navio de pesquisa Belgica, com o ROV Genesis, numa expedição com a Universidade de Ghent (Bélgica).
 

Apesar de os biólogos apenas terem conseguido recolher amostras de ossos, ficando sem saber que espécies se alimentaram da carne, o que trouxeram para a superfície foi suficiente para revelar um grande número de espécies novas para a ciência, o que, segundo Ana Hilário, “mostra a importância deste tipo de ecossistemas efémeros para a biodiversidade marinha”.


Ainda a estudar e a catalogar todas as espécies recolhidas, a equipa de investigação do projeto “Carcace” deu a conhecer na revista Systematics and Biodiversity três espécies até agora desconhecidas de pequenos vermes marinhos, pertencentes ao género Ophryotrocha, e dezenas de outras aguardam publicação em revistas científicas.