Investigadores portugueses geraram células ciliadas, fundamentais na audição mas que não se regeneram, a partir de células estaminais embrionárias de ratinhos e em embriões de galinha.

Segundo a equipa de cientistas, a metodologia pode, depois de testada com células humanas, abrir caminho à pesquisa de medicamentos que possam proteger as células do ouvido de lesões que causam a surdez ou a terapias de regeneração celular.

O estudo é publicado esta terça-feira, na revista científica Development.

Justificando a importância do estudo, Domingos Henrique, investigador-principal do Instituto de Medicina Molecular (IMM) de Lisboa, lembrou à Lusa que as células ciliadas, que se encontram no ouvido interno, são "fundamentais para a deteção do som" e para o sentido de equilíbrio.

Contudo, por se desenvolverem "muito cedo no embrião, já estão muito maduras quando a pessoa nasce e nunca mais voltam a regenerar-se", ressalvou.

A sua equipa, que inclui Alda Costa, estudante de doutoramento e investigadora do IMM, com historial de surdez na família, partiu da pergunta de como é que se poderá criar em laboratório células ciliadas para regenerar as que estão "mortas" em pessoas surdas, atendendo a que "as culturas destas células são muito poucas e as células têm de se refazer".

Numa primeira fase, os investigadores reproduziram células ciliadas a partir de células estaminais embrionárias (células com potencial para dar origem a qualquer tipo de célula) de ratinhos. A equipa "forçou" essas células a tornarem-se ciliadas através de reprogramadores genéticos, os chamados fatores de transcrição.

No caso em concreto, os cientistas pegaram em três fatores, que regulam a atividade dos genes considerados essenciais para fazer as células ciliadas. 

O resultado, explicou Domingos Henrique, foi que as células estaminais se tornaram capazes de "gerar milhares, milhões de células" do ouvido. O método foi, posteriormente, aplicado em embriões de galinha.

Ao "forçarem" a expressão das proteínas necessárias para as células ciliadas, no desenvolvimento do embrião da galinha, e em zonas celulares do ouvido que normalmente não produzem estas células, o grupo de investigadores verificou que "as células ciliadas aparecem de novo, como cogumelos, no epitélio [tecido celular] do ouvido [médio]", assinalou Domingos Henrique.

De futuro, os cientistas pretendem replicar a estratégia em ratinhos adultos surdos e, em seguida, em células estaminais embrionárias humanas.

Para Domingos Henrique, a experiência com células humanas pode vir a ser útil para "testar os efeitos de drogas que causam a surdez, ou de drogas que conseguem prevenir a morte destas células [ciliadas]".

A longo prazo, as células ciliadas geradas artificialmente poderão, ainda, ser transplantadas e substituir no ouvido as que estão danificadas ou que se perderam.

O estudo, desenvolvido pelo Instituto de Medicina Molecular de Lisboa, em associação com a Fundação Champalimaud, teve a colaboração de investigadores do University College London Ear Institute, no Reino Unido.