Duas novas espécies de fungos microscópicos que vivem em animais das cavernas em Portugal foram descobertos, no âmbito de um projeto de investigação liderado pela cientista portuguesa no Museu de História Natural da Dinamarca.

De acordo com a bióloga Sofia Reboleira, as duas espécies descobertas em grutas do centro de Portugal são “um tipo de fungo altamente especializado que cresce exclusivamente na superfície de animais vivos”.


Descritos com os nomes científicos de Diplopodomyces lusitanipodos e Diplopodomyces veneris, os fungos têm “menos de um milímetro de comprimento” e “necessitam de condições particulares para se desenvolverem”, explicou a investigadora à agência Lusa.

Na generalidade, os fungos necessitam de humidade para se desenvolverem, uma espécie de fungo está associada a uma só espécie de hospedeiro e alguns apenas crescem em zonas específicas do corpo.

No caso particular das duas novas espécies descobertas “ambas crescem no mesmo hospedeiro, o milpés Lusitanipus alternans [endémico do centro de Portugal], no entanto, uma das espécies cresce apenas nas estruturas reprodutoras do milpés, o que indica que a sua transmissão se dá apenas durante a cópula”, precisou a bióloga.

A descoberta foi publicada em dois artigos científicos nas revistas Mycologia e Zootaxa e resulta de um projeto de investigação liderado pela cientista portuguesa no Museu de História Natural da Dinamarca (integrado na Universidade de Copenhaga) e financiado pelo Conselho Dinamarquês para a Investigação Independente.

A investigação incide sobre a biologia dos fungos e a caracterização da sua interação com o hospedeiro, “praticamente desconhecida e uma área de estudo interessantíssima”, frisou Sofia Reboleira.

Na investigação estão a ser utilizados como modelo de estudo os milpés das cavernas portuguesas.

No entanto, o Museu de História Natural da Dinamarca alberga uma das maiores coleções mundiais de milpés e o seu estudo, desde o início deste projeto, já permitiu identificar outras novas espécies destes fungos, parte dos quais na coleção há mais de 100 anos.

Isto “reforça a importância das coleções entomológicas no desenvolvimento das ciências biológicas”, considerou a investigadora.

No caso concreto dos novos fungos, “o seu papel é pouco conhecido, bem como os seus efeitos e a natureza das substâncias que segregam”. Porém, sublinhou, o seu estudo “tem um potencial enorme na descoberta de novos antibióticos”.


O trabalho que inclui ainda a descrição de outros dois novos fungos para a ciência, descobertos em milpés cavernícolas de Espanha e Itália, tem a colaboração dos professores Henrik Enghoff, da Universidade de Copenhaga, e Sergi Santamaria, da Universidade Autónoma de Barcelona.

Com estas, sobe para 23 o número de espécies descobertas pela investigadora, que alertou para a urgência de criação de figuras de proteção para a fauna cavernícola em Portugal, “um património nacional único que, ao contrário de noutros países europeus, se encontra completamente desprotegido”.

As pressões ambientais, quer “pela destruição direta, como o caso da extração de inertes e consequente destruição das grutas”, quer “pela contaminação produzida à superfície, que se infiltra e contamina todo o ecossistema, incluindo as reservas de água subterrânea disponíveis para o consumo humano”, são alguns dos perigos para as espécies que, “ao estarem confinadas a estes ecossistemas, enfrentam perigo de extinção”, concluiu a investigadora em declarações à Lusa.