Um consórcio europeu que estuda os venenos dos animais, para descobrir a cura de doenças, já recolheu e analisou 120 espécies e espera conseguir criar, até final de 2015, um banco de 20 mil moléculas para obter novos medicamentos.

Estes são os primeiros dados divulgados pelo consórcio europeu responsável pelo Projeto Venomics, um projeto científico iniciado no final de 2011, com conclusão prevista até ao fim de 2015, que pretende criar uma base de dados com 20 mil moléculas presentes no veneno de mais de 500 animais.

O consórcio é composto por oito empresas de cinco países europeus, entre os quais Portugal, que acreditam «poder encontrar no veneno dos animais a chave para otimizar a saúde humana no futuro próximo».

Assim, empresas da Bélgica, Dinamarca, França e Espanha e a portuguesa NZYTech envolveram-se nesta «iniciativa inovadora», que é simultaneamente o «maior projeto mundial nesta área», com o objetivo final de identificar e desenvolver novos fármacos a partir de venenos de animais.

Em conferência de imprensa, esta terça-feira, apresentaram os resultados alcançados 30 meses depois de iniciado o projeto.

Já foram recolhidas 120 espécies de animais venenosas, das quais 90 foram analisadas geneticamente (estudado o ARN responsável pela transmissão da informação do ADN até ao local de síntese de proteínas), enquanto das restantes 30, foram analisados os péptidos do veneno (moléculas venenosas, pertencem à classe das proteínas).

«Esperamos obter um banco de 20 mil sequências até ao fim do projeto, que representará a maior base de dados de toxinas construída até ao momento», diz Nicolas Gilles, líder de uma das empresas (francesa) que integram o consórcio.

Um dos grandes potenciais desta investigação é a descoberta de centenas de péptidos e proteínas no veneno de cada uma das espécies venenosas, o que «abre múltiplas oportunidades para a investigação farmacológica».

O facto é que os venenos constituem uma das mais promissoras fontes de criação de novos componentes farmacológicos para o tratamento de doenças humanas, graças às suas atividades funcionais, pequeno tamanho, baixa imunogenicidade e estabilidade, explicam os investigadores.

«Os venenos dos animais são "cocktails" complexos que contêm várias centenas de componentes, a maioria dos quais são proteínas ou péptidos», afirmou o responsável de uma empresa farmacológica do consórcio, acrescentando que os venenos são, no fundo, reservatórios naturais que contêm muitas moléculas bioativas com capacidade de participar em interações moleculares, o que «as torna tão interessantes para a indústria farmacêutica».

Estima-se que existam na natureza cerca de 170 mil espécies animais venenosas que produzem globalmente mais de 40 milhões de proteínas venenosas diferentes, das quais apenas cinco mil são conhecidas até hoje.

No fundo, o trabalho da Venomics está a montante da investigação farmacológica, indo dos venenos até aos candidatos a fármacos.