Cinco investigadores portugueses participam num inédito projeto europeu de criação de dispositivos artificiais capazes de perceber a linguagem animal, o que pode lançar bases para administração do ambiente das sociedades animais através da robótica.

Os robôs que estão a ser desenvolvidos vão adaptar-se ao meio animal por algoritmos evolutivos até aprenderem a interagir com os animais, explicou à Lusa Luís Correia, investigador do Laboratório de Modelação de Agente, da Universidade de Lisboa, única instituição portuguesa que participa no maior projeto europeu denominado Fundamentos de Sistemas adaptativos Coletivo (FOCAS, sigla em inglês).

De acordo com o investigador do departamento de informática da Universidade de Lisboa, a inovação poderá levar à criação de robôs ou dispositivos que interajam com animais que funcionam em coletivos, como rebanhos.

A ideia do projeto, que está a ser realizada por seis instituições europeias da Áustria, Croácia, França, Alemanha, Portugal e Suíça, e coordenada por Thomas Schmickl da Universidade austríaca de Graz, «é mostrar esta interação e a modulação», ou seja, saber se estes dispositivos artificiais que serão multiplicados «têm alguma influência no comportamento destes animais».

Os investigadores esperam que futuramente o trabalho possa ter impacto, por exemplo, no campos da agricultura e ambiente.

«Nós tentamos fazer interagir as populações em ambientes animais e meios diferentes. Por exemplo, as abelhas no solo (em terrenos tipo colmeias) e animais na água por via de dispositivos artificiais e meio digital», afirmou Luís Correia.

A pesquisa deverá terminar em 2018, mas caso se demonstre a viabilidade desta abordagem «poderá ter implicações interessantes e úteis na agricultura, em particular, em pastagens, no controlo de pestes e outro tipo de intervenções em que haja interação em animais em coletivos», exemplificou o pesquisador português.

Por outro lado, «uma das tarefas do projeto é precisamente fazer com que os dispositivos tenham alguma capacidade de adaptação, ou seja, de mudarem eles próprios o seu comportamento em função das interações que têm com as populações animais», acrescentou.

Desde o arranque do projeto, no ano passado, os investigadores já fizeram testes com robôs chamados Unidade de Atuação e Perceção (CASUS, sigla em inglês), que não se movem e que interagiram com abelhas reais comuns produtoras de mel, relativamente novas, que ainda não podem voar.

Também fizeram ensaios em aquários com peixes zebra (estes vertebrados têm proximidade genética com o ser humano, especialmente o aparelho ocular) usando dispositivos individuais para poder ter a noção das interações e dos comportamentos e medir as reações dos peixes e o comportamento dos dispositivos artificiais.

«Temos uns robôs muito rudimentares que vibram, apenas, e com a vibração conseguem mover-se no terreno como se estivessem a andar no chão. Pusemos estes dispositivos a interagir com os nossos CASUS simulando estes dispositivos das abelhas e os CASUS detetavam algum tipo de proximidade, portanto já nos permitiu fazer algum tipo de ensaio», afirmou.

As fases seguintes passam pelo desenvolvimento de protótipos em quantidade.

«Vamos ter em princípio na ordem de 60 CASUS para interagir com abelhas e na ordem de 20 para interagir com os peixes. E depois desenvolver o comportamento coletivo dos dispositivos artificiais e fazê-los interagir coletivamente com as populações de peixes», adiantou Luís Correia.