O metro de Nova Iorque é a casa de mais de 15 mil formas de vida, quase metade bacteriana. Esta é uma das conclusões dos cientistas, que durante quase dois anos recolheram amostras e mapearam o perfil genético do sistema. Entre eles está um português. Tiago R. Magalhães é investigador da Universidade de Dublin e um dos autores do estudo divulgado em publicações de renome, como o  «The Wallstreet Journal»
 

«É o tipo de projetos pelos quais nós somos cientistas. Envolvem muita gente, estão no topo da tecnologia, respondem a perguntas novas, permitem ir mais além e abrem expectativas», afirma.


«PathoMap» foi desenvolvido por um grupo de geneticistas, liderados por Christopher E. Mason, professor assistente no departamento de Fisiologia e Biofísica da Weill Cornell Medical College. A ideia ocorreu quando foi buscar a filha à creche e observou o comportamento das crianças. Reparou que pegavam em brinquedos, punham-nos na boca e partilhavam-nos com os colegas. Isto levou-o a pensar como seria a transmissão naquele ambiente.

Tiago passou a integrar o projeto quando trabalhava na Universidade de Minas Gerais, no Brasil. Foi convidado para participar numa conferência, que contava com a presença de Chritopher E. Mason.
 

«Fui apresentar um trabalho sobre um algoritmo, que permite identificar quais as diferentes ancestralidades da população, a partir do DNA. Percebeu que podia ser útil para o trabalho que estava a fazer e foi a partir daí que surgiu a oportunidade», explica o cientista.


Durante 18 meses, os investigadores analisaram, triplamente, os assentos, pegas, máquinas de venda automática e cancelas de 466 estações do metro de Nova Iorque, que transporta cerca de 5,5 milhões de pessoas por dia. Para o especialista, o trabalho é «impressionante» não só pela escala envolvida, mas também por ser a «a primeira vez que se consegue olhar para as estações todas, três vezes».

Até agora, os cientistas identificaram 562 espécies de bactérias, a maioria delas benigna ou de baixo risco. Pelo menos 67 dessas espécies podem causar doenças nos humanos e, mesmo assim, foram detectadas quantidades tão baixas que é um cenário pouco provável. 

Os resultados revelaram que cada estação tem um ecossistema individual de bactérias, a maioria inofensivas. Por exemplo, a equipa encontrou meningite em Times Square e fragmentos associados a antraz e à peste negra na alta de Manhattan. Cerca de 12% das amostras estão ligadas a doenças e 27% são resistentes a antibióticos.
 

«O metro de Nova Iorque diz que vivemos rodeados de bactérias e de animais (...) Talvez a maior surpresa do trabalho seja a presença de germes patogénicos, como a peste bubónica, que ainda estão a circular», sublinha.


O especialista não considera que a descoberta da doença seja motivo para alarme porque o último caso de peste na cidade foi há 12 anos. Acredita que o próprio estudo corrobora, visto que «o problema está lá e as pessoas não ficam doentes».
 

«O que isto prova é que nós, como entidades biológicas somos capazes de ‘navegar’  o que está à nossa volta e poderá, noutras ocasiões, causar doenças graves», diz o cientista. «Se não descobríssemos bactérias nenhumas, provavelmente aí é que havia um problema. Teríamos de perceber o que estava a matá-las e, provavelmente, seria prejudicial para nós», acrescenta.


Segundo o Departamento de Saúde de Nova Iorque, «o relatório tem falhas profundas», a interpretação dos resultados é  «enganadora» e os que os investigadores não ofereceram explicações alternativas, «muito mais plausíveis para as descobertas». Tiago convida outras pessoas e organizações a fazerem as próprias leituras dos dados.
 

«Todos os dados são públicos (...) Isto é, a investigação e análise que fizemos e as conclusões que retirámos. Portanto consideramos que estamos certos, mas seria muito bom que outros grupos ou a Autoridade de Transportes Metropolitanos (MTA, na signa em inglês) pudesse analisar a informação e oferecer essas explicações alternativas», declara.


Na opinião do cientista, a investigação pode mudar a maneira como monitoramos e respondemos a questões de segurança e saúde pública pois permite «monitorizar, perceber e atuar rapidamente».

A análise também possibilitou fazer uma correlação entre as estações do metro e as populações que habitam os bairros de Nova Iorque. Foi nesta parte do trabalho que Tiago esteve mais envolvido.
 

«Em Chinatown foi possível identificar mais genes relativos a populações asiáticas. Em alguns bairros, nos quais existe mais população afro-americana também foi possível fazer o mesmo», diz Tiago. «Os resultados não são completamente lineares, mas foi possível perceber essa tendência», acrescenta.


O PathoMap vai expandir-se para outros países. Já há investigadores a recolherem amostras em Paris, na França, São Paulo, no Brasil, e Xangai, na China. O programa MetaSUB abrange os 20 sistemas urbanos de metro mais movimentados do mundo. O cientista português vai continuar a participar, a partir de Dublin, e pretende perceber se os perfis metagenómicos podem ser característicos de cada cidade.

Tiago R. Magalhães pensa que este tipo de projetos vão continuar e são importantespara as pessoas perceberem que «há aqui um ecossistema e que, por um lado isso é normal e, por outro, como se usa para monitorizar possíveis problemas».